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200 anos de música russa para piano (7/10/2011)
Por Alain Lompech

Para quem aprecia boa música e história chamou atenção o programa apresentado pela pianista Viktória Postníkova em concerto realizado na Sala São Paulo no último mês de outubro. Com mais de quarenta anos de carreira, Postníkova é típica representante da chamada Escola Russa de Piano, entidade mítica no imaginário dos melômanos de todo o mundo, capaz de reunir em um só artista técnica virtuosística irrepreensível, sensibilidade interpretativa e ecletismo de repertório.

À medida que estudamos a história da Rússia é possível identificarmos inúmeros gênios do teclado que fizeram parte desta intangível Escola. Aí vão alguns exemplos... Nos anos finais do czarismo houve Rakhmáninov e Skriábin. O stalinismo viu surgir Iúdina, Gilels e Richter. Nascido em 1971 Ievguêni Kíssin já era famoso quando o comunismo começou a ruir após a pierestróika de Gorbatchóv. Vinte anos depois do colapso da União Soviética artistas de todo o mundo ainda vão para os conservatórios de Moscou e São Petersburgo atrás de professores e métodos, visto o jovem e talentoso brasileiro Pablo Rossi, aluno de Elisso Virsaladze em Moscou.

Discípula do lendário Iakóv Flier (1912-1977), Postníkova estreou em público aos sete anos interpretando um dos concertos de Mozart. Ganhadora de inúmeras premiações importantes, suas gravações dos concertos de Tchaikóvski e de Prokófiev são referências discográficas até hoje. Conhecida por ser dona de um estilo personalíssimo Postníkova demonstrou também talento para a escolha do repertório apresentado na Sala São Paulo, recheado de peças pouquíssimo conhecidas e, arriscaria dizer, algumas primeiras audições brasileiras.

Os livros de música falam pouco do ucraniano Dmítri Bortniánski (1751-1825), que se formou no conservatório de São Petersburgo. Um dos inúmeros compositores patrocinados por Catarina, a Grande, alcançou sucesso na Itália com suas óperas (Pai Rival de seu Filho talvez seja a mais conhecida), retornando para a Rússia em 1796, onde se tornou diretor do Coro da Capela Imperial. Compositor prolífico no gênero sacro misturou com maestria o gênero italiano com a ortodoxia russa, a ponto de Tchaikóvski ser um de seus admiradores mais importantes. Pois bem, Postníkova nos brindou com a Sonata nº 2 de Bortniánski, uma adorável peça em tonalidade de dó maior cujos três movimentos lembram em muito a escrita para o teclado de Mozart, particularmente quanto ao refinamento e elegância.

Nicolau II, último czar da Rússia, ascendeu ao trono em novembro de 1894, cerca de três anos antes de Aleksandr Skriábin (1872-1915) ter completado a segunda de suas dez sonatas para piano publicadas até hoje. Exímio pianista Skriábin levou quase cinco anos para completar esta curta partitura com cerca de dez minutos de duração. Intitulada Sonata-Fantasia esta obra de Skriábin se distancia sobremaneira de outras peças pianísticas de sua autoria, e, sobretudo de suas grandes páginas orquestrais carregadas do simbolismo da Idade de Prata Russa. Seus dois movimentos são bastante contrastantes; enquanto o enérgico presto final exigiu de Postníkova uma destreza incomum, o andante inicial mostrou que a virtuosa russa soube extrair com exatidão o senso lírico que a partitura pede, sem se perder em extravagâncias desnecessárias tão comuns em passagens tão melódicas.

Outro compositor-pianista de mão cheia foi Serguêi Prokófiev (1891-1953). Inegavelmente seu estilo mais enérgico não agrada a todos, mas de sua pena surgiram grandes páginas pianísticas do século XX, notadamente os cinco concertos para piano e orquestra, um imponente ciclo de nove sonatas para piano e as fantásticas Visões fugitivas. Se hoje em dia dá-se mais atenção às chamadas Sonatas de Guerra (nos 6 a 8 completadas durante a II Guerra Mundial), Postníkova nos proporcionou uma leitura bastante pessoal da Sonata nº 4, obra que merece uma audição mais detalhada.

Escrita no período que antecedeu à Revolução Bolchevique, quando Prokófiev ainda não emigrara da Rússia, a Sonata nº 4 em sua forma definitiva é contemporânea de outras partituras capitais no desenvolvimento estilístico do compositor, entre elas o Concerto para Piano nº 2, a Sonata para Piano nº 3, a ópera O Jogador e o Concerto para Violino nº 1.

Sua partitura (assim como a do segundo concerto para piano) foi dedicada a Maksimílian Schmidthof, um dos poucos amigos de fato que Prokófiev teve durante a vida, e que se suicidara sem razão aparente em abril de 1913, deixando-lhe um lacônico bilhete: “Caro S. eis as últimas novas. Dei-me um tiro na cabeça. Não te preocupes muito, pois de verdade, não vale a pena. Adeus. As razões de meu gesto não são importantes”. A sensação de perda é nítida nos dois primeiros movimentos da sonata, um allegro molto moderato e um andante assai, nos quais Postníkova esbanjou uma vez mais clareza e sensibilidade sem esbarrar no sentimentalismo. Típico de Prokófiev é o allegro final no qual o compositor retoma sua linguagem rítmica exigindo do solista bastante energia.

Mas o melhor ficou para depois do intervalo. Não tenho dúvidas que Dmítri Shostakóvitch (1906-1975) é um dos maiores compositores da história da música. Antes de completar trinta anos já se aventurara com maestria pelos gêneros sinfônicos, do balé, e da ópera, até que Stálin cortou suas asas em 1936. Pianista de talento indiscutível (só não seguiu a carreira de concertista, pois nunca aceitou ter sido preterido no I Concurso Internacional Chopin de Piano, perdendo para outra “fera”, o conterrâneo Liév Oborín) Shostakóvitch completou sua Sonata para Piano nº 1 em 1926.

Escrita em movimento único, a partitura é testemunha do período histórico que se seguiu à Revolução Bolchevique, quando (quase) tudo foi permitido na Rússia comunista em termos de manifestação artística. Os flertes com a música mecanicista do Futurismo, as dissonâncias recém descobertas na obra de Schöenberg e o engajamento político pretendido pela Associação pela Música Contemporânea; todos estão presentes na obra do jovem Shostakóvitch. Originalmente intitulada de Outubro, (título que o compositor transferiu para sua segunda sinfonia) pareceu-me ser a partitura tecnicamente mais difícil de ser executada, daquelas peças que o solista parece ter que possuir mais que dez dedos para executar com perfeição. Postníkova parecia ter quinze!

Terá sido proposital o hiato de sessenta anos entre a obra de Shostakóvitch e a peça de Shnittke que encerrou o recital? Será a forma cifrada (que musicólogos tanto apreciam) de Postníkova dizer-nos que o repertório para piano solo na União Soviética não produziu obras de vulto, exceto pelas já comentadas Sonatas de Guerra de Prokófiev (inclua, por favor, a segunda sonata para piano de Shostakóvitch, também fruto da II Guerra Mundial)? Creio que não, até porque todo este período histórico tem sido revisitado e verdadeiras joias têm sido garimpadas como o ciclo de sonatas de Miaskóvski e as importantes peças pedagógicas de Kabaliévski.

Herdeiro espiritual de Shostakóvitch, Álfred Shnittke (1934-1998) nunca foi bom pianista. Responsabilizava um acordeão, instrumento no qual teve os primeiros ensinamentos musicais, pela técnica capenga de sua mão esquerda. Anedota interessante quando ouvimos sua surpreendente Sonata nº 1 para piano, completada em 1987. Longe da teatralidade excessiva de suas obras poliestilísticas, esta sonata de Shnittke reflete bem a mudança de estilo ocorrida com o compositor após 1985, ano em que sofreu o primeiro dos cinco derrames cerebrais que acabariam por matá-lo.

Apesar de escrita em movimento único, a sonata consiste de quatro seções bem distintas e que se opõem duas a duas, cada qual com material sonoro derivado da assinatura musical de Vladímir Feltsman, pianista russo que emigrara da União Soviética e dedicatário da peça. O lento inicial soa como uma lamentação bem melancólica, opondo-se ao allegretto seguinte, cujo tom de valsa alterna tonalidade livre e atonalismo serial. O ritmo de valsa se intensifica, mas depois retorna o tom desolador e sombrio do lento que sustenta o tema inicial da sonata. Esse, por sua vez, deságua num coral simples, de introdução ao allegro final, com sua tocatta canônica que prossegue até a conclusão da peça em clusters devastadores, como se Shnittke quisesse demonstrar toda a extensão de seus problemas físicos decorrentes das seqüelas neurológicas. A intimidade com que Postníkova interpretou esta obra chamou a atenção. Não é por menos. Para ela Shnittke dedicou seu Concerto para Piano a Quatro Mãos e Orquestra de Câmara (1988) e o Concerto Grosso nº 6, para piano, violino e orquestra de cordas (1993).

Dá-se o nome de Degelo ao período histórico soviético que se seguiu à morte de Stálin, quando por um breve, mas consistente período, ocorreu certa liberalização artística que permitiu mudanças de paradigmas até a chegada de Bréjnev ao poder. Pois bem, o samovar de Viktória Postníkova conseguiu degelar toda e qualquer suspeita do público paulistano frente a um programa habitualmente tão distante das salas de concerto. Spasibo Madame Postníkova.





Alain Lompech - é francês, cronista e editor do jornal “Le Monde”, produtor da France Musique e crítico musical da revista “Diapason”.

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