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"O menino e os sortilégios": para uma ópera infantil, montagem de gente grande (14/10/2011)
Por Irineu Franco Perpetuo

Nem Rigoletto, nem Oitava de Mahler: por enquanto, a melhor produção vocal paulistana de 2011 é a ópera O Menino e os Sortilégios, de Ravel.

Na montagem de Rigoletto que deveria comemorar seu centenário, o Teatro Municipal de São Paulo cuidou de tudo, menos daquele pequeno detalhe chamado elenco. Como resultado, fomos submetidos a cantores “internacionais” de escasso talento e carisma, com um desempenho que na mais generosa e otimista das hipótese poderia ser qualificado de rotineiro.

Já a esperadíssima e raramente feita Oitava, que deveria ser o ápice do ciclo Mahler que a Osesp vem empreendendo desde o ano passado, foi prejudicada por um grosseiro erro de montagem de palco: os oito cantores solistas foram confinados atrás da massa orquestral, com suas vozes amplificadas por microfones. Mesmo com esse condenável recurso eletrônico, alguns nem assim se fizeram ouvir, e o resultado foi uma maçaroca sonora, em episódio incompatível com a imagem de paradigma nacional de excelência que a Osesp construiu para si ao longo das últimas décadas.

Felizmente, esse amadorismo passou bem longe de O Menino e os Sortilégios, a breve (será que não dava para ter feito um programa duplo com L'Heure Espagnole?)  ópera infantil de Ravel com a qual o maestro Jamil Maluf marcou a participação da sua Orquestra Experimental de Repertório na temporada 2011 no Municipal.

A ópera pode ser para crianças, mas a realização foi de gente grande. Em um certo sentido, Maluf reciclou a fórmula que tão bons resultados já havia dado na inesquecível encenação de João e Maria, de Humperdinck, um dos melhores títulos da história recente do Municipal: uma ópera infantil, traduzida ao português para aumentar a comunicação com as crianças da plateia, com os encantadores recursos de teatro negro da Imago Cia de Animação e tendo como protagonista aquela que possivelmente é a melhor cantora lírica radicada no Brasil, a mezzo-soprano Denise de Freitas.

Em torno do talento e do carisma de Denise, girou um elenco equilibrado, cheio de papéis pequenos, dentre os quais talvez valha destacar as coloraturas da soprano Caroline de Comi como o Fogo e o talento histriônico do tenor Paulo Queiroz, que está se tornando um mestre em comprimários, ao lado de nomes mais badalados como Luciana Bueno, Luisa Francesconi e Gabriella Pace.

A direção meticulosa de Livia Sabag soube evocar um universo infantil mágico e de bom gosto, enquanto no fosso de orquestra Jamil Maluf realizou uma leitura fluente e rica em matizes, extraindo da Orquestra Experimental de Repertório o colorido sutil e as diferenças de ambiente que marcam cada uma das pequenas cenas da criação de Ravel. Maluf até providenciou um luthéal, o piano preparado especial que o compositor francês previu para a partitura, e que foi manejado com destreza e refinamento por Érika Ribeiro. A versão em português até que funcionou, embora, por questões de prosódia, por vezes se empregasse a ordem inversa e algumas construções verbais que podiam ser algo complexas para o público infantil.

No fim, fiquei com aquele gostinho de quero mais, e arrependido por não ter levado ao Municipal Helena, minha sobrinha de dois anos que é fã da Flauta mágica. Resta-me agora torcer para que os Sortilégios tenham a mesma sorte de João e Maria, e mereçam reprises que permitam que essa obra-prima do século XX seja apreciada por um número maior de crianças de todas as idades.





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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