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Vicente Salles faz 80 anos (5/12/2011)
Por Camila Frésca

No último dia 27 de novembro, uma figura importantíssima para a musicologia brasileira completou 80 anos: o paraense Vicente Salles. Vicente é uma dessas figuras pioneiras e desbravadoras, que atuou em diversos campos e deixou contribuição marcante em todos. Natural da vila de Caripi, em Igarapé-Açu, interior do Pará, estudou jornalismo e ciências sociais. Em 1954 passou a residir no Rio de Janeiro, trabalhando no Ministério da Educação e Cultura. Nessa época, aos 23 anos, iniciou um trabalho sobre o Carimbó, ritmo popular próprio da cultura paraense. Na década de 1960, integrou a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, sendo redator-chefe da Revista Brasileira de Folclore e organizando depois a série de discos Documentário Sonoro do Folclore Brasileiro – o primeiro deles, em 1972, era dedicado a Mestre Vitalino e intitulado “Vitalino e seu zabumba”. Colaborou também com a criação da Funarte, onde ficou até 1980.

Paralelamente às atividades no governo, foi professor e um dedicado pesquisador da cultura popular de seu estado, com especial atenção à música. Na verdade, pouco ou nada se sabia da riqueza musical do Pará até a publicação de livros como Música e músicos do Pará, A música e o tempo no Grão-Pará ou Santarém: uma oferenda musical. Todos viraram obras de referência no assunto e hoje não se pode falar da cultura musical daquele estado sem citar a obra de Salles.

Em 1984, a Universidade Federal do Pará adquiriu a coleção do professor Salles, que soma cerca de sete mil títulos entre discos, fitas cassetes, fitas de rolo, vinis, CDs, livros e partituras editadas e originais, com documentos que datam de 1880 aos dias atuais. Segundo Carmen Afonso, organizadora da coleção, há, além disso, mais de 70 mil recortes de jornal sobre temas como música, folclore, negro, artes cênicas e literatura, além de uma coleção de cartuns, fotografias de época, cordéis, peças de teatro do repertório regional e nacional, teses, folhetos e cartazes. “Graças a ele, temos uma coleção riquíssima que traz composições de Waldemar Henrique a Pinduca. Isso porque ele compreende a música por seu sentido social, cultural e estético e não a classifica, simplesmente, em gêneros musicais”, afirma Jonas Arraes, coordenador de um projeto de recuperação e difusão desse acervo.

Membro da Academia Brasileira de Música, Vicente Salles não se considera um musicólogo. Em sua visão, o ofício exige atribuições que não possui, como ler fluentemente uma partitura ou tocar um instrumento. A verdade é que sua obra, de um lado, vai muito além do campo musical e, de outro, sua abordagem da música é mais ampla do que aquela praticada em geral pelos musicólogos. No campo da antropologia, por exemplo, seu livro O negro no Pará é um marco, mostrando que na Amazônia a contribuição do negro foi maior do que se pensava e decisiva para a formação da sociedade.

Antropólogo, historiador e folclorista, Vicente Salles é um estudioso da música, da cultura popular e da literatura paraense e brasileira. Em 2009, a Academia Brasileira de Música publicou o catálogo de suas obras, relacionando nada menos do que 661 títulos. Dentre eles estão 25 livros e cerca de 50 microedições. No entanto, segundo sua esposa – a violinista e pesquisadora Marena Salles – grande parte de seus estudos ainda permanecem inéditos.

Como tributo pela passagem de seus 80 anos, a Universidade Federal do Pará concedeu-lhe o título de doutor “honoris causa”. A cerimônia de entrega ocorreu na última sexta-feira, dia 2, numa homenagem mais do que merecida. Vida longa a Vicente Salles!





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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