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Ótima encenação de “O Morcego” encerra temporada lírica do Municipal (12/12/2011)
Por Nelson Rubens Kunze

Uma versão adaptada ao português (e ao Brasil) da opereta O Morcego, de Johann Strauss Filho (1825-1899), encerra nessa semana a temporada lírica do Teatro Municipal de São Paulo. A direção cênica, cenografia e adaptação dos diálogos foi feita por William Pereira (os números musicais foram traduzidos por Thiago Mori), que ambientou a trama em uma grande cidade de nosso tempo – para não deixar dúvidas, logo no primeiro ato uma enorme janela da sala de estar de Eisenstein dá vistas aos prédios de uma metrópole, e a criada Adele, que trabalha enquanto ouve seu mp3, recebe mensagens em seu celular via sms. O que eventualmente arrepie melômanos adeptos a montagens mais tradicionais, revelou-se nesse caso uma ótima solução. Em nenhum momento a narração pareceu forçada (convenhamos que o enredo por si já é algo um tanto quanto inverossímil); ao contrário, a encenação adotada gera novos significados e, ao comentar ironicamente comportamentos e ideias de nossa realidade imediata, recupera uma característica das operetas, que era a de fazer contrapontos críticos à sociedade da época.

“Logo de início meu desejo, junto com o diretor William Pereira, foi o de ressaltar a história de estilos que uma opereta apresenta e reforçar o seu caráter popular e cômico”, escreve o maestro Abel Rocha, diretor musical e regente do espetáculo, no texto introdutório do programa. “Se a partitura de O Morcego tivesse sido escrita na Itália em 1800, teria sido chamada de opera buffa, se o fosse durante o século XX, seria musical”, conclui. E a montagem do Teatro Municipal ganhou mesmo ares de musical, o que foi reforçado por uma discreta amplificação das vozes. No segundo ato, durante a festa, um “mix” especialmente criado por Miguel Briamonte mescla operetas, musicais da Broadway e Carnaval. A festa retoma o caráter anterior quando até o animado Orlofsky protesta: “Pô, Carnaval também é demais, né?!” Mas o título se presta bem para essas modernizações. Como escreve Clóvis Marques no texto do programa, a presença constante de O morcego nos palcos até os dias de hoje “se deve também à riqueza dos subtextos [...] e dos arquétipos sociais e psicológicos da civilização burguesa ocidental, que favorecem ‘atualizações’ cênicas com esta a que assistimos no Theatro Municipal de São Paulo”.

O Morcego teve figurinos de Olintho Malaquias, coreografia de Paulo Goulart Filho e iluminação de Domingos Quintiliano. Acertada também foi a escolha do elenco, que reuniu um time de grandes vozes brasileiras: Rosana Lamosa fez uma Rosalinde de classe, par perfeito para o Eisenstein de Fernando Portari. Edna d’Oliveira roubou a cena como a descolada criada Adele, Rubens Medina exibiu talento fazendo Alfred e Leonardo Neiva se encaixou perfeitamente no papel do Batman Dr. Falke. Regina Elena Mesquita (Príncipe Orlofsky), Inácio de Nonno (Frank), Paulo Queiroz (Dr. Blind) e Carla Cottini (Ida) completaram o ótimo grupo de cantores. O ator Fulvio Stefanini teve destacada presença como carcereiro Frosch. Dentro do espírito mais autêntico do Morcego de Strauss, parece que todos se divertiram muito... e nós também!

Esse O Morcego também fecha a programação da temporada em que o Teatro Municipal de São Paulo completou 100 anos. Após a desastrada reinauguração do Teatro em junho, céticos como eu não imaginavam ser possível que, alguns meses depois, pudéssemos comemorar 5 boas encenações entre as quais se inscreve uma histórica montagem de A Valquíria (que, aliás, também não escapou de gozações no Morcego). Em 2012, o Teatro deverá assumir a sua nova estrutura administrativa como fundação pública. Oxalá possamos, daqui a um ano, comemorar outra grande temporada, talvez a primeira apoiada em um moderno modelo de gestão, que garanta, mais que eventuais sucessos avulsos, uma nova realidade de produção, com novos horizontes.





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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