Banner 468x60
Banner 180x60
Boa tarde.
Terça-Feira, 9 de Fevereiro de 2016.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   

Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes



 
 
 
Antes não tinha, agora tem... (19/12/2011)
Por João Marcos Coelho

Semana passada, já meio enojado com a irritante massificação da campanha da Prefeitura na Globo em torno do mote do título acima – portanto, investindo caminhões de dinheiro em publicidade –, feita para elogiar só os bemfeitos da atual administração, ouvi de relance uma particularmente idiota. Antes não tinha, agora tem... cultura de graça na Virada Cultural – era mais ou menos isso que o simpático e jovem casal de atores proclama aos incautos paulistanos.

Há!, pensei, demorou mas o círculo fechou-se. Jamais entendi direito este conceito furadíssimo de virada cultural, onde você espreme milhares de eventos e gasta milhões de reais em apenas 24 horas. Caramba, é um autêntico “pseudoevento”. Isto é, o evento que só começa a existir de fato quando é alardeado por uma máquina de propaganda e relações públicas, porque serve a um propósito que lhe é exterior. No caso da Virada Cultural, a meta é clara: o importante é dizer que 3.899.465 pessoas assistiram aos 2.789 eventos simultâneos em 9.879 pontos da cidade (os números são fictícios).

A palavra ‘pseudoevento’, claro, não é minha. Foi cunhada meio século atrás por um historiador chamado Daniel Boorstin. Ele escreveu o livro “The Image: a Guide to Pseudo-Events in America” em 1961 e publicou-o no ano seguinte. Estava impactado pelo primeiro debate de candidatos presidenciais norte-americanos transmitido pela televisão, ocorrido em 1960. Aquela foi a primeira ocasião em que a TV decidiu uma eleição. No caso, a do moço de fino trato John Kennedy, que pôs a nocaute, no estilo Barcelona-Santos ou Messi-Neymar, o já então feioso Richard Nixon.

Vivemos a “era do artifício”, em que ilusões pré-fabricadas se tornaram forças dominantes na sociedade. A vida pública compõe-se de pseudoeventos, ou seja, acontecimentos encenados só para produzir uma contrafação dos reais acontecimentos. Seus formuladores jamais concentram-se na qualidade do evento em si, mas jogam todo o seu esforço para “vendê-lo” ao grande público como fundamental, decisivo, revolucionário. No reino das pessoas, gerou classes de ilusionistas como os políticos e as celebridades – estão aí as campanhas políticas, a corrupção endêmica e as celebridades que não sabem fazer absolutamente nada e mesmo assim posam de “importantes” na mídia. Qualquer semelhança com a nossa realidade política e cultural, portanto, não é mera coincidência. Pondo os pingos nos iis, o que importa é a versão do evento, e não o evento em si. Um publicitário brasileiro muito bem-sucedido costumava dizer – não sei se ainda o faz, mas a frase provavelmente nem é dele, pois a propaganda é googlemaníaca por natureza, só recicla – que “não existe opinião pública, mas opinião publicada”. Daí o interesse da regulação da mídia por aqui ou a intenção, agora concretizada, da reeleita presidente argentina Cristina Kirchner de controlar o fornecimento de papel-jornal em seu país. Melhor do que a opinião publicada é quando se tem apenas uma – e sempre a mesma – única publicada ad aeternam.

É curioso que Boorstin, um historiador de direita, tenha detectado com tamanha clarividência um processo de empulhação que hoje é um verdadeiro tsunami, centenas de vezes modernamente denunciado pela esquerda. Vivemos mesmo bombardeados com pseudonotícias, pseudoeventos, pseudocultura.

Uma vez perguntaram ao filósofo Bertrand Russell por que a vida de Kant havia sido tão tediosa, a ponto de nenhum biógrafo encontrar nela nada de interessante. Sua resposta foi surpreendente – e faria sorrir Daniel Boorstin. Ele disse mais ou menos o seguinte: uma vida tranqüila é característica da maioria dos grandes homens; seus prazeres não são os que soam ‘excitantes’; nenhuma grande conquista intelectual ou artisticamente importante é possível sem um trabalho persistente, difícil e que absorve todas as suas forças – portanto, não produz um grande pseudoevento.

Bem, não é possível mesmo deixar de conviver com slogans do tipo ‘antes não tinha, agora tem...” ou “nunca, na história deste país” e até mesmo “estou convencido de que”. Faz parte do jogo democrático, dirão os mais otimistas. Mas você pode fazer  no fim de cada dia 5 minutos de reflexão silenciosa sobre os pseudoeventos que te atingiram. Se anotar num caderno, em pouco tempo você terá um tratado. Bom Natal, bela passagem de ano e um 2012 com faro para detectar – e deletar – os pseudoeventos.

Tchim-tchim.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

Mais Textos

Festa com música Por Jorge Coli (5/2/2016)
Festival Sesc é um dos grandes eventos clássicos do sul do país Por Camila Frésca (27/1/2016)
Novos desafios e paradigmas na gestão de instituições musicais Por Nelson Rubens Kunze (12/1/2016)
Oficina de Música de Curitiba promove ótima edição Por Nelson Rubens Kunze (12/1/2016)
Adeus, Gilberto Mendes Por Irineu Franco Perpetuo (11/1/2016)
Uma retrospectiva (e os 20 anos da Revista CONCERTO) Por Nelson Rubens Kunze (30/12/2015)
O balanço de um ano que não parece ter terminado Por João Luiz Sampaio (30/12/2015)
Retrospectiva 2015 – CDs brasileiros Por Camila Frésca (28/12/2015)
Bela safra Por Jorge Coli (22/12/2015)
O lugar da música de concerto nos 5.570 municípios brasileiros Por João Marcos Coelho (16/12/2015)
Nelson Freire: quem sabe faz ao vivo Por Irineu Franco Perpetuo (15/12/2015)
Cultura, educação e a cidade civilizada Por Nelson Rubens Kunze (13/12/2015)
A produtividade das orquestras sinfônicas Por José Pastore (7/12/2015)
Sala Cecília Meireles 50 anos Por Nelson Rubens Kunze (3/12/2015)
Vozes do século XVII que falam à contemporaneidade Por Camila Frésca (27/11/2015)
As quatro fantasias para piano e orquestra de Mignone num só CD Por João Marcos Coelho (26/11/2015)
Maestro “goiano” faz bom concerto com a Osesp Por Nelson Rubens Kunze (10/11/2015)
Fórum Ircam Brasil – Parte 3 Por Camila Frésca (9/11/2015)
Fórum Ircam Brasil – Parte 2 Por Camila Frésca (6/11/2015)
Fórum Ircam Brasil – Parte 1 Por Camila Frésca (5/11/2015)
Poulenc e Bernanos em tempos estranhos Por João Luiz Sampaio (4/11/2015)
Farewell to Martha Herr Por Irineu Franco Perpetuo (3/11/2015)
E se Mário tivesse sido ministro da Cultura? Por João Marcos Coelho (21/10/2015)
Bienal de Música Contemporânea encerra edição confirmando sua importância Por Camila Frésca (21/10/2015)
Para ouvir o clarinete de Montanha Por Irineu Franco Perpetuo (19/10/2015)
Bienal é rico manancial da criação erudita de nossos dias Por Nelson Rubens Kunze (13/10/2015)
“Lohengrin” e a Arte Povera Por Jorge Coli (13/10/2015)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Fevereiro 2016 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
31 1 2 3 4 5 6
7 8 9 10 11 12 13
14 15 16 17 18 19 20
21 22 23 24 25 26 27
28 29 1 2 3 4 5
 

 
São Paulo:

26/2/2016 - Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo

Rio de Janeiro:
26/2/2016 - Quaternaglia - Quarteto de violões

Outras Cidades:
26/2/2016 - Belo Horizonte, MG - Orquestra Filarmônica de Minas Gerais
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2016 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046