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Edição junho/2013

 
 
 
Antes não tinha, agora tem... (19/12/2011)
Por João Marcos Coelho

Semana passada, já meio enojado com a irritante massificação da campanha da Prefeitura na Globo em torno do mote do título acima – portanto, investindo caminhões de dinheiro em publicidade –, feita para elogiar só os bemfeitos da atual administração, ouvi de relance uma particularmente idiota. Antes não tinha, agora tem... cultura de graça na Virada Cultural – era mais ou menos isso que o simpático e jovem casal de atores proclama aos incautos paulistanos.

Há!, pensei, demorou mas o círculo fechou-se. Jamais entendi direito este conceito furadíssimo de virada cultural, onde você espreme milhares de eventos e gasta milhões de reais em apenas 24 horas. Caramba, é um autêntico “pseudoevento”. Isto é, o evento que só começa a existir de fato quando é alardeado por uma máquina de propaganda e relações públicas, porque serve a um propósito que lhe é exterior. No caso da Virada Cultural, a meta é clara: o importante é dizer que 3.899.465 pessoas assistiram aos 2.789 eventos simultâneos em 9.879 pontos da cidade (os números são fictícios).

A palavra ‘pseudoevento’, claro, não é minha. Foi cunhada meio século atrás por um historiador chamado Daniel Boorstin. Ele escreveu o livro “The Image: a Guide to Pseudo-Events in America” em 1961 e publicou-o no ano seguinte. Estava impactado pelo primeiro debate de candidatos presidenciais norte-americanos transmitido pela televisão, ocorrido em 1960. Aquela foi a primeira ocasião em que a TV decidiu uma eleição. No caso, a do moço de fino trato John Kennedy, que pôs a nocaute, no estilo Barcelona-Santos ou Messi-Neymar, o já então feioso Richard Nixon.

Vivemos a “era do artifício”, em que ilusões pré-fabricadas se tornaram forças dominantes na sociedade. A vida pública compõe-se de pseudoeventos, ou seja, acontecimentos encenados só para produzir uma contrafação dos reais acontecimentos. Seus formuladores jamais concentram-se na qualidade do evento em si, mas jogam todo o seu esforço para “vendê-lo” ao grande público como fundamental, decisivo, revolucionário. No reino das pessoas, gerou classes de ilusionistas como os políticos e as celebridades – estão aí as campanhas políticas, a corrupção endêmica e as celebridades que não sabem fazer absolutamente nada e mesmo assim posam de “importantes” na mídia. Qualquer semelhança com a nossa realidade política e cultural, portanto, não é mera coincidência. Pondo os pingos nos iis, o que importa é a versão do evento, e não o evento em si. Um publicitário brasileiro muito bem-sucedido costumava dizer – não sei se ainda o faz, mas a frase provavelmente nem é dele, pois a propaganda é googlemaníaca por natureza, só recicla – que “não existe opinião pública, mas opinião publicada”. Daí o interesse da regulação da mídia por aqui ou a intenção, agora concretizada, da reeleita presidente argentina Cristina Kirchner de controlar o fornecimento de papel-jornal em seu país. Melhor do que a opinião publicada é quando se tem apenas uma – e sempre a mesma – única publicada ad aeternam.

É curioso que Boorstin, um historiador de direita, tenha detectado com tamanha clarividência um processo de empulhação que hoje é um verdadeiro tsunami, centenas de vezes modernamente denunciado pela esquerda. Vivemos mesmo bombardeados com pseudonotícias, pseudoeventos, pseudocultura.

Uma vez perguntaram ao filósofo Bertrand Russell por que a vida de Kant havia sido tão tediosa, a ponto de nenhum biógrafo encontrar nela nada de interessante. Sua resposta foi surpreendente – e faria sorrir Daniel Boorstin. Ele disse mais ou menos o seguinte: uma vida tranqüila é característica da maioria dos grandes homens; seus prazeres não são os que soam ‘excitantes’; nenhuma grande conquista intelectual ou artisticamente importante é possível sem um trabalho persistente, difícil e que absorve todas as suas forças – portanto, não produz um grande pseudoevento.

Bem, não é possível mesmo deixar de conviver com slogans do tipo ‘antes não tinha, agora tem...” ou “nunca, na história deste país” e até mesmo “estou convencido de que”. Faz parte do jogo democrático, dirão os mais otimistas. Mas você pode fazer  no fim de cada dia 5 minutos de reflexão silenciosa sobre os pseudoeventos que te atingiram. Se anotar num caderno, em pouco tempo você terá um tratado. Bom Natal, bela passagem de ano e um 2012 com faro para detectar – e deletar – os pseudoeventos.

Tchim-tchim.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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