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Que pena: o barítono Thomas Quasthoff anuncia aposentadoria (29/2/2012)
Por João Marcos Coelho

A música, em sentido absoluto, ficou mais pobre nos últimos dias. É que o maravilhoso barítono alemão Thomas Quasthoff, de 52 anos, anunciou sua aposentadoria dos palcos. Ele conquistou tudo que um cantor pode ter, em uma carreira fulgurante. Fez história no universo do lied (sobretudo Schubert e Schumann), assim como, pelas mãos do maestro Helmuth Rilling, na música vocal barroca, sobretudo a alemã, e com destaque naturalmente para Bach Händel. E, pasmem, também no jazz, com ao menos dois CDs imperdíveis gravados na última década para a Deutsche Grammophon, sua gravadora.

Bem, vocês podem dizer, há muitos outros grandes cantores que também exibem feitos semelhantes em suas carreiras. Ok. Mas nenhum foi vítima da talidomida, não tem braços e é da estatura de um anão (1,34 metro). OK. Vocês também podem dizer: “Ah, bom, ele fez este sucesso todo porque mostrou ao mundo que conseguiu vencer barreiras físicas aparentemente intransponíveis, em mais um clássico caso de ‘superação’ devidamente explorado pela grande mídia”.


Thomas Quasthoff [foto: divulgação]

Aí vocês também se enganam. Ele jamais fez de sua deficiência física uma muleta mercadológica. Sempre foi fotografado apenas do pescoço para cima, sem que as mãos saídas quase diretamente dos ombros aparecessem. O seu passaporte para a fama justa foi apenas sua incrível e poderosa voz de baixo-barítono, de um timbre cristalino e ao mesmo tempo potente e enorme extensão.

Somente há nove anos ele concordou em aparecer diante do grande público em uma montagem internacional de ópera – a partir de um convite do maestro Simon Rattle para atuar numa ópera no Festival de Salzburgo em 2003.

Dois anos atrás, publicou uma autobiografia, que naturalmente se intitula A Voz, ainda sem tradução para o português. É nela que ele comenta sua estreia como Don Fernando no Fidelio de Beethoven no Festival de Salzburgo de 2003. “Me senti como Gregor Samsa na noite anterior à minha estreia”. Logo ele, uma das 12.000 crianças vítimas da talidomida – um calmante comercializado com o nome de Contergan na virada dos anos 50/60. A bula afirmava que as grávidas poderiam tomá-lo em qualquer quantidade, não havendo nenhum efeito colateral. Pois logo comprovou-se o contrário: o remédio causa atrofia nas extremidades do corpo. Os ossos dos braços e pernas reduzem-se a quase nada. O escândalo foi mundial, a talidomida proibida. Mas Quasthoff garante, em seu livro, que o calmante ainda é comercializado com outros nomes em países como o Brasil e os Estados Unidos.

Até então apenas as pessoas que o assistiram ao vivo, em concertos, sabiam de sua condição física. “Não quero ser conhecido nem chamado de gnomo ou anão”.

O trauma definitivo com a mídiaa aconteceu em 1992, logo depois de vencer o concurso internacional para jovens talentos ARD de Munique e gravar seu primeiro CD. Convidado para uma entrevista na televisão, só lhe fizeram perguntas sobre a talidomida e a deficiência física. Retraiu-se. Não se expôs mais. Ou melhor: decidiu que não faria de seus imensos problemas físicos uma alavanca para conquistar espaços no mundo da música e tornar-se cantor profissional.

Infelizmente, por recomendação médica, Quasthoff foi obrigado a cancelar sua agenda do segundo semestre do ano passado. Há três semanas, anunciou a aposentadoria definitiva. Ao jornalista inglês Norman Lebrecht, ele declarou, como bom boleiro, que não quer encerrar a carreira melancolicamente, como um Rivaldo qualquer. “Estou inteiramente feliz com a decisão (...) sempre joguei na Champions League, não poderia me satisfazer com menos do que isso”, querendo dizer que provavelmente não conseguiria mais manter o nível de qualidade que o caracterizou todos estes anos. Lebrecht revela dois fatores que bem podem ter desencadeado a decisão.

Em 2010, num espaço de tempo curto, seu irmão Michael, a quem era muito ligado, morreu vitimado por um câncer; e sua mulher Cláudia o abandonou, depois de um casamento feliz de muitos anos.

Ele continuará suas aulas na Academia Hanns Eisler, dará masterclasses e, claro, não deixará as canjas de jazz na noite de Berlim. Uma de suas declarações a Lebrecht me tocou particularmente. “Graças à minha deficiência, sempre tive um modo muito intenso de compreender as pessoas, e muito rapidamente. Se não tivesse sido cantor, acho que teria sido um psiquiatra”.

Haja força interior. Longa vida a Thomas Quasthoff – e torço para que ao menos ele abra algumas brechas na aposentadoria para continuar gravando. A música merece.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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