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Quem tem medo de orquestra jovem? (13/3/2012)
Por Leonardo Martinelli

Em meus idos tempos de estudante de música – antes mesmo da longa graduação nesta especialidade – a expressão “orquestra jovem” causava arrepios aos ouvidos. Isto porque no não tão longínquo Brasil clássico a.N.O. (“antes da Nova Osesp”) até mesmo as orquestras profissionais que se apresentavam nos palcos paulistanos derrapavam ad libitum nos repertórios que se propunham executar (lindo verbo de intenso duplo sentindo neste nosso meio).

Simulacros de grupos profissionais insuficientes, as orquestras jovens desenvolviam trajetórias um tanto errantes devido a uma confluência de fatores, nos quais o já pressuposto descaso do poder público, em diversas esferas, mostrava-se, assim como hoje, o mais importante de todos. Em todo caso, na dúvida entre uma sessão de cinema ou um concerto de uma orquestra jovem, eu não titubearia em optar pelo escurinho do cinema.


Isaac Karabtchevsky ensaia Sinfônica Heliópolis [foto: divulgação]

Mas, ainda bem, algumas coisas mudaram para melhor em nosso mundinho, e uma delas foi, sem dúvida, o desenvolvimento das agremiações orquestrais integradas por jovens estudantes de música.

Aqui faz-se necessário realizar uma distinção entre uma orquestra formada por “jovens estudantes de música” e outra por “jovens músicos”. Por mais difícil que seja de realizar, na prática, uma distinção entre uma e outra, a primeira pressupõe um trabalho com pessoas ainda em estágio de aprendizado técnico-musical, e tem nestas limitações o pressuposto de seu funcionamento. Já a segunda refere-se a um estágio mais avançado, pré-profissionalização, e é por isto que, nestes termos, deixo de fora deste texto o excelente trabalho realizado há duas décadas por Jamil Maluf junto à Orquestra Experimental de Repertório.

Neste início da temporada clássica em São Paulo o público teve oportunidade de comprovar estas mudanças com os concertos da Orquestra Heliópolis e da Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo, ambas se apresentando no palco da Sala São Paulo.

Com uma trajetória improvável, a Orquestra Heliópolis é um dos raros grupos de respeito em que não há a presença direta do Estado (apenas indiretamente, por meio das leis de incentivo). Administrado pelo Instituto Baccarelli, a orquestra é integrada por jovens que realizam sua formação musical nas dependências da sede do instituto, simbolicamente cravada no meio da comunidade de Heliópolis.

Depois de um período de grande amadurecimento musical promovido desde 2004 por Roberto Tibiriçá, no início do ano passado o grupo passou a ser conduzido por Isaac Karabtchevsky, iniciando uma fase mais ambiciosa em termos de repertório. Este ano a orquestra começou a temporada com um grande desafio, o Concerto para Orquestra de Bartók. Uma das mais complexas obras do repertório orquestral da primeira metade do século XX, os jovens integrantes do grupo superaram com heroísmo as armadilhas plantadas pelo compositor em sua partitura. Os diversos naipes da Heliópolis mostram-se muito confiantes em suas capacidades, e isto se reflete de forma positiva na sonoridade que eles obtiveram na apresentação.

Apesar de ser ter sido fundada em 1979, a Orquestra Jovem do Estado de São Paulo (OJESP) inicia este ano praticamente “zerada”, tendo em vista o processo de reestruturação pelo qual passou recentemente. Então sob a direção do maestro João Maurício Galindo – e com seus meninos e meninas obteve notáveis feitos ao longo dos últimos anos – a  OJESP passa agora a ser dirigida por Cláudio Cruz, maestro e um dos spallas da OSESP, que junto com a administração da Santa Marcelina Cultura propõe um sistema inédito no país. Ao invés de ensaios poucos e regulares distribuídos ao longo de semanas, a “Nova OJESP” aposta no sistema de aglutinação. Nele, os ensaios são realizados de forma concentrada, e nos dias que precedem uma apresentação chegam mesmo a tomar dois períodos de um dia. Antes do início dos ensaios coletivos, seus integrantes são preparados por naipes por uma equipe de professores.

Em seu concerto de estreia, sob a regência do maestro inglês Frank Shipway, a OJESP deu o primeiro passo de uma longa caminhada. Na condição de grupo recém saído do forno, alguns de seus elementos revelaram-se crus, mas nada que comprometa o resultado geral da performance. Pelo contrário, cria-se expectativa mais que positiva pelos frutos futuros deste projeto.

Este sistema empregado na OJESP remete-se ao modus operandi tradicional de um festival de música, quando tudo é feito de forma intensa e num curto espaço de tempo. No caso da OJESP a ideia partiu da experiência de Claudio Cruz como regente da orquestra do Festival de Campos do Jordão de 2010 e 2011.

A propósito, pessoalmente acredito que foi justamente durante o famoso evento clássico na Serra da Mantiqueira quando o estigma de “orquestra jovem” começou a desmoronar, dado o incrível trabalho que o maestro Roberto Minczuk realizou em sua gestão com a Orquestra Acadêmica do evento.

Entretanto, na condição de orquestra de músicos em formação, os grupos jovens sempre estarão sujeitos a problemas sonoridades. Nestes termos, é sintomático constatar que, via de regra, elas tendem a se sair melhor em obras romântico-modernas por conta do grande volume e massa orquestral normalmente envolvidos neste repertório. A estrutura cristalina de uma sinfonia clássica, por exemplo, tende a ser terreno perigoso, na medida em que virtudes e defeitos tendem a ficar sonoramente mais explícitos.

Porém, foi-se a época em que concerto de orquestra jovem era obrigação de parente de estudante de conservatório. Além de propiciarem belos resultados musicais, todo empenho, garra e energia destes concertos são um espetáculo à parte. Tendo isto em vista, hoje facilmente troco o escurinho do cinema pela meia-luz de uma sala de concertos soando a juventude.





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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