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Quarta-Feira, 19 de Junho de 2013.
 
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Edição junho/2013

 
 
 
Teatro São Pedro no divã (14/3/2012)
Por Nelson Rubens Kunze

Vi com bons olhos a reorganização das Organizações Sociais (OSs) em torno do Teatro São Pedro levada a cabo pela Secretaria de Estado da Cultura em fins do ano passado. Sempre tive a impressão de que dentro da OS Apaa (Associação Paulista dos Amigos da Arte) – entidade a qual o teatro estava submetida – o Teatro São Pedro não recebia a atenção diferenciada que merecia. Não raro reclamávamos por uma programação mais coerente, que fosse mais adequada às instalações físicas e técnicas do prédio. Assim, foi com esperança que tomei conhecimento da nova gestora do Teatro São Pedro, a OS Instituto Pensarte.

Com a intenção de “definir um perfil de programação e realizar adequações nas propostas feitas pela direção” (conforme nota da Secretaria), uma das primeiras ações do Instituto Pensarte foi a criação de uma conselho artístico. Não há notícia pública sobre a composição desse conselho, mas conversando aqui e ali descobri que ele é formado, entre outros, pelas seguintes pessoas: Heraldo Marin, presidente (que, aliás, também era o presidente na antiga Apaa), Bea Esteves, Cleber Papa, José Robert Walker, Julio Medaglia e Otto Baumgart. Acredito que representantes do Instituto Pensarte e da Secretaria também devam fazer parte.


Teatro São Pedro [foto: Thomas Susemihl / Revista CONCERTO]

Agora percebe-se que o consenso em torno de uma programação para o teatro é bem mais difícil do que se imaginava. Desentendimentos e quiçá alguma inabilidade no trato pessoal acabaram levando à decisão do maestro Roberto Duarte de se demitir da direção artística da casa. Duarte se queixa de não ser ouvido no conselho e de ver a sua programação ser repetidamente contestada e finalmente alterada. Como ele se manifestou, “na prática, o que se configurou foi algo inusitado: a remoção de quaisquer poderes de decisão, quanto ao repertório, daqueles que são os reais profissionais da área, isto é, o diretor artístico e o regente titular da Orthesp”. Para além da discussão em torno da “governança” (qual é o papel do conselho? quem finalmente decide o quê?), o conflito levanta a questão central do Teatro São Pedro, que é a de sua identidade e vocação.

Não creio que o Teatro São Pedro deva atuar como concorrente ou mesmo contraponto ao Teatro Municipal de São Paulo – não faz sentido, o São Pedro não tem estrutura nem dimensão para isso. Mas há um leque de alternativas possíveis para o posicionamento de um teatro “de câmara” com as características do São Pedro. A mais abrangente e direta é a de que o Teatro São Pedro sirva de abrigo para títulos “menores” (em termos de tamanho e não de importância, apresso-me em dizer). Claro que isso não resolve a questão, ao contrário: teremos muitos debates, a começar para tentar estabelecer quais seriam os títulos “maiores” a serem excluídos. Sem entrar no mérito de tendências, estilos ou épocas, um consenso em torno dessa questão já seria um importante passo na procura de uma identidade para o Teatro São Pedro.

Reforçando a opção por títulos “menores”, temos a realidade nua e crua dos recursos do Estado de São Paulo destinados à programação do Teatro São Pedro. Não sou grande especialista em custos de produções de ópera, mas confesso que fiquei embasbacado quando soube que o Teatro São Pedro pretendia fazer 6 (seis!) títulos – entre eles Il Trovatore e Lo Schiavo – com uma suposta verba de R$ 1,5 milhão (que, para piorar a situação, desconfio que não seja exclusiva para a programação). É isso que leva a resultados lamentáveis como o do Guarani que vimos no ano passado.

Se por um lado está na hora de conselho e direção se unirem em torno de uma programação adequada e apropriada para as dimensões e recursos do Teatro São Pedro, por outro a Secretaria da Cultura deveria assumir que estamos tratando do teatro de ópera do estado mais rico da federação. Nesse sentido, soou mal a declaração oficial da Secretaria de que “é importante esclarecer que não houve corte no orçamento do teatro, que é rigorosamente o mesmo dos anos de 2010 e 2011”. Não vou aqui começar a calcular a depreciação monetária que vivemos no nosso dia a dia para dizer que, três anos depois, R$ 1,5 milhão já não é R$ 1,5 milhão. Mas quero dizer, sim, que R$ 1,5 milhão é um valor absolutamente insuficiente para uma temporada anual de óperas...





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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