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“La Traviata”: que venha o ano Verdi! (26/3/2012)
Por Irineu Franco Perpetuo

“Que ópera mais descolada”, exclama uma moça sentada à minha fileira, no Teatro Municipal de São Paulo, na última quinta-feira, dia 22, na estreia de La Traviata. Beleza plástica, solidez estética, credibilidade dramatúrgica, cantores de nível, realização musical convincente: essa Traviata parece ter realizado todas as expectativas suscitadas – e frustradas – pelo Rigoletto do centenário do Municipal, em outubro do ano passado.

É certo que, no intervalo, ouvia-se o nhenhenhém de uma parcela mais conservadora do público que se queixava da concepção de Daniele Abbado. Bem, como diria a cantora Luka, “tô nem aí” para os nostálgicos das mofadas encenações de brechó e bricabraque. Em sua primeira Traviata, o filho do mítico Claudio Abbado levou à cena uma concepção visualmente contemporânea que, contudo, não apenas respeitou como soube colocar em relevo as tensões e intenções dramatúrgicas da obra de Verdi.


Cena da ópera La Traviata, no Teatro Municipal de São Paulo [foto: divulgação/ Heloisa Bortz]

Em vez de impor suas alegorias ao público, como fazem tantos encenadores, Abbado optou por uma leitura despojada, em que a ausência de elementos cênicos e o minimalismo dos figurinos, aliados a um inteligente jogo de luz, permitiam que o foco estivesse centrado nos protagonistas.

Tudo isso unido a um forte sentido de funcionalidade: em forma de caixa, o cenário ajudava as vozes dos cantores a serem projetadas para a frente, permitindo que eles fossem para o fundo do palco sem se tornarem inaudíveis.

E as marcações, embora tivessem o sentido de dispor os cantores de forma geométrica e arquitetônica no palco, estavam sempre subordinadas à situação dramática que se queria representar. Personagens estáticos, “cada um no seu quadrado”, sem se entreolhar, enquanto Violetta vai fenecendo na sua frente: poucas vezes o desamparo e a solidão da protagonista verdiana na hora da morte foram representados de modo tão convincente. Depois de tanta “vergolha alheia” que andou rolando no Municipal do ponto de vista dramático, já estava na hora de uma ópera que fosse teatralmente convincente.

Na récita da estreia, meu destaque pessoal foi o tenor Roberto de Biasio, de classe internacional, com uma concepção bastante pessoal e inteligente de Alfredo. A voz do renomado barítono Paolo Coni pode dar a impressão de balançar ligeiramente em uma ou outra passagem, mas sua autoridade e domínio da parte de Germont são inegáveis.

A russa Irina Dubrovskaya é bela, jovem e cenicamente crível. Não muito grande e leve, sua voz rende melhor no primeiro ato, com o devido mi bemol agudo na cena final. À medida que a ação se desenrola, contudo, sente-se falta de peso vocal.

Peso foi o que não faltou na récita de sexta-feira, dia 23, que alguns definiram como um elenco de Tosca cantando Traviata. Gostei de ouvir o tenor Marcello Vannucci – de dicção impecável – cantando uma parte menos pesada do que de hábito, que lhe permitiu uma emissão bem mais natural. Rodolfo Giugliani possui um dos mais belos e gloriosos timbres de barítono que já ouvi ao vivo; espero que continue tendo esse tipo de oportunidade, para poder amadurecer do ponto de vista musical.

Confesso ter me assustado com o primeiro ato de Adriane Queiroz; a soprano paraense radicada em Berlim está mudando de “Fach” (registro vocal), e, mesmo com toda a técnica, as coloraturas do começo da Traviata foram bem difíceis de sair.

Mas a grandeza e a dificuldade da ópera de Verdi residem justamente no fato de a escrita vocal para a protagonista ir mudando ao longo da récita. À medida que o drama ia se desenvolvendo, Adriane se apropriava da parte, construía um arco de tensão, e dominava a apresentação. Seu “Amami Alfredo”, no segundo ato, alcançou uma intensidade fora do alcance de Dubrovskaya. E todo o terceiro ato, a partir da leitura da carta (sim, ela sabe declamar sem microfone, e muito bem, por sinal), não foi menos do que arrepiante, destinando-se a se inserir de forma indelével na memória dos felizardos que puderam vivenciar aquele momento.

No fosso, um Abel Rocha plenamente à vontade no estilo verdiano garantiu fluência e agilidade ao espetáculo (nada a condenar no corte da cabaletta de Germont ou da repetição de “Addio del passato”), e extraiu da Orquestra Sinfônica Municipal o tipo de sonoridade que é lícito ao público esperar dela. Que venha o Ano Verdi, em 2013!

 





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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