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Um escritor com música nas veias (28/3/2012)
Por João Marcos Coelho

“Com frequência, a pintura fez a minha caneta mudar de direção”. Quando li estas palavras na primeira página de um livrinho de bolso em italiano de Antonio Tabucchi, fiquei seduzido pela proposta de “viajar” num mar de histórias a partir de quadros. Tabucchi, um dos grandes escritores italianos da atualidade, que adotou Lisboa como sua, morreu semana passada, aos 68 anos.

Como dizia, comprei ano passado, quase por acaso, este que foi um de seus útimos livros, Racconti con figure, edição italiana de Sellerio Editore, de Palermo. Magnífica, mesmo sendo no tamanho de bolso. Cada um dos poéticos contos é motivado por um determinado quadro que impressionou o escritor ao longo de sua vida.


Antonio Tabucchi [foto: divulgação]

Mas o que me chamou mesmo a atenção foi a divisão dos contos em três partes: Adagi, ou seja adágios; Andanti con brio, ou andantes con brio; e Ariette, ou arietas. Esperava um amigo no café da Livraria Cultura do Conjunto Nacional. E me encantei com o curto texto de apresentação de Tabucchi. “Com freqüência”, começa ele, “a pintura fez a minha caneta mudar de direção. Se em uma longínqua tarde dos anos 1970 eu não tivesse entrado no Prado e me sentisse ‘prisioneiro’ diante de Las Meninas, de Velázquez, incapaz de sair da sala até o horário de fechamento do museu, jamais teria escrito Il gioco del rovescio. (...) Algumas páginas de Tristano muore não existiriam sem Cães sepultados na areia, de Goya”.

Uma tela, um conto. Tabucchi estudava literatura em Paris na década de 60 quando descobriu O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. E nunca mais foi o mesmo. Virou tiete de Pessoa. E de Portugal, sobretudo Lisboa, a cidade do autor de Tabacaria. Traduziu praticamente tudo de Pessoa para o italiano; chegou a escrever sua prosa poética em português. Mudou-se para Lisboa, a cidade de seu ídolo.

Convidado duas vezes para a FLIP de Paraty, não veio em 2010 por doença; e no ano passado para protestar contra a não-extradição de Cesare Battista. Mas é hora de voltar à maravilhosa apresentação do livro de Racconti con figure. Da imagem à voz, o caminho pode ser breve, se os sentidos estão alertas. “A retina”, diz Tabucchi, “comunica-se com o tímpano e ‘fala’ ao ouvido de quem vê; e para aquele que escreve, a palavra escrita é sonora: antes ele a sente na cabeça, na mente. Vista, audição, voz, palavra”. Vem à sua cabeça, e ele cita uma frase antológica de Giacomo Leopardi, o genial poeta, ensaísta e escritor italiano das primeiras décadas do século 19. “A alma imagina o que não vê”.  Me dá vontade de parafrasear Leopardi, mesmo pedindo desculpas pelo atrevimento: “mas a alma imagina o que ouve”. Vem daí o poder da música, quem sabe. Quem sabe – vale a pena repetir a expressão –, aí Tabucchi nos revele de passagem um de seus segredos mais bem guardados: o de que sua escrita, além de encharcada de poesia, também é mergulhada na música. Vista, audição, voz, palavra. “O território da escrita é a imaginação que vai além da imagem; é o conto das imagens, mas também o seu despertar e a sua multiplicação, o conto do ignorado que as circunda”. É como se as imagens pudessem acordar de sua imobilidade, adquirissem vida, tornando-se personagens e intérpretes de suas histórias.

Juro que sinto algo muito parecido quando ouço música. É como se os sons, que ao contrário da pintura são puro movimento, de repente fixassem, por uma melodia aqui, uma surpresa harmônica ali, um ritmo inesperado acolá, personagens e intérpretes de histórias que minha mente põe em funcionamento.

Não é à toa que estas sensações me invadiam na medida em que avançava na leitura destes contos enxutos ladeados por pequenas reproduções de quadros. Nos adágios, prevalece nos contos a melancolia; nos andantes, atmosferas mais brincalhonas beirando aos scherzi; e nas arietas, os temas são apenas insinuados, nunca mostrados por inteiro. Tabucchi escreveu um livro polifônico. Puro prazer do texto, gosto manifesto de um cromatismo que a gente costuma encontrar muito mais nos compositores.

Uma revelação final. Apesar de não ter vindo ao Brasil, Tabucchi deixou bem claro, neste que é seu último livro publicado em vida, a paixão por outro poeta, desta vez brasileiro. O título é Eureka, non-eureka, e o subtítulo é: Ommagio drummondiano all’amico Gérard Castello-Lopes, fotografo entrato in polemica con la legge di Archimede. Na página da esquerda, a foto de uma enorme pedra circundada pelo mar; na página da direita, este poema, que eu nem preciso traduzir:

In mezzo al mare
In mezzo al maré c’era una pietra
C’era una pietra in mezzo al mare
C’era una pietra
In mezzo al mare c’era una pietra.

Non dimenticherò mai quell’avvenimento
Nella vita delle mie retine stanche.
Non dimenticherò mai che in mezzo al mare
Gérard aveva posato una pietra
Avesa posato una pietra in mezzo al mare
In mezzo al mare aveva posato uma pietra”.

Querido Antonio Tabucchi, um italiano que amava os portugueses – e também os brasileiros –, sensibilidade de fino músico, como os maiores que a História já ouviu, descanse em paz.


P.S.: em português, você pode ler “O Tempo Envelhece Depressa” (2010, Cosac Naify), “Tristano Morre” (2007, Rocco), “Está Ficando Tarde Demais (2004, Rocco), “Os Voláteis do Beato Angélico” (2003, Rocco), “A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro” (1998, Rocco), “Os Três Últimos Dias de Fernando Pessoa” (1996, Rocco) e “Sonhos dos Sonhos” (1996, Rocco). Em italiano, sempre de seu editor de Palermo, Sellerio: “Donna di Porto Pim”, “Notturno indiano” e “La gastrite de Platone”.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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