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Para que serve a música? (16/4/2012)
Por João Marcos Coelho

Às 4 horas da tarde de 27 de maio de 1992, durante o cerco de Sarajevo, vários morteiros atingiram um grupo de pessoas que esperava para comprar pão. Vinte e duas morreram e pelo menos setenta ficaram feridas. Nos 22 dias seguintes, o violoncelista Vedran Smailovic, spalla dos cellos da Orquestra da Ópera da cidade, fez um tributo diferente aos mortos da cidade sitiada. Diariamente, às 4 da tarde, sem se importar com tiros, morteiros ou bombas, colocava um banquinho no local onde caíram os mortos, acomodava-se e solava o conhecidíssimo Adagio em sol menor do compositor italiano barroco Tomaso Albinoni (1671-1751).

O cerco, de fato, começara no dia 6 de abril. Por isso, foram colocadas, no ultimo dia 6, 11.541 cadeiras vermelhas na principal avenida de Sarajevo: uma para cada homem, mulher e criança mortos no cerco militar mais longo do século 20. Foram 44 meses, 11.825 dias. Seus 380.000 habitantes ficaram sem eletricidade e água neste período. Para quem não se lembra, a Comunidade Europeia reconheceu a antiga república da Bósnia como estado independente. Mas os sérvios não aceitaram o plebiscito, vencido pelos croatas e bósnios. O que houve nos quase quatro anos seguintes foi uma faxina étnica sangrenta.

Também retornou a Sarajevo, pela primeira vez desde 1992, o violoncelista Vedran Smailovic, que hoje vive na Irlanda do Norte, para concertos em sua cidade natal. Ele transformou-se num símbolo da resistência ao tocar 22 tardes, no mesmo horário, numa avenida com fogo cruzado e no meio de cadáveres espalhados pelo chão.

Smailovic fez uma apresentação para correspondentes estrangeiros no Hotel Holiday Inn em Sarajevo no dia 6, ao lado de membros do Sarajevo String Quartet. Ele recordou que o quarteto fez mais de 250 concertos durante o cerco de 1992-1995. E os jornalistas relembraram visitas significativas que ele recebeu vinte anos atrás – como a da cantora folk Joan Baez e de Susan Sontag, a magnífica intelectual norte-americana que montou uma peça com atores locais durante o cerco.

Estes fatos me marcaram demais, sobretudo depois de ler “O violoncelista de Sarajevo”, do escritor canadense Steven Galloway, lançado aqui pela editora Rocco em 2008. Na época, fiz uma resenha para o Estado de S. Paulo, que reproduzo a seguir:

“O romance que gira em torno das reações de três habitantes de Saravejo àquele gesto musical de intenso impacto emocional: Arrow, bela e jovem mulher que se transforma em atiradora a serviço de uma das milícias que defendem a cidade; Kenan, pai de família que todo dia, em perigosa missão, vai buscar água para a família e uma senhora vizinha; e Dragan, um aposentado de 64 anos que mandou a família para a Europa e trabalha na única padaria que ainda funciona na cidade.

A primeira acaba encarregada de proteger o violoncelista dos inimigos das colinas, que matam indiscriminadamente a população “como patos na lagoa”; Kenan demora para perceber que aquela manifestação musical não é apenas “um gesto fútil”, que não traz de volta os mortos nem garante os vivos; e Dragan raciocina, a certa altura: “Talvez ele esteja tocando para si próprio.Talvez seja tudo o que ele sabe fazer, e não está fazendo isso para que alguma coisa aconteça. O que o violoncelista quer não é uma mudança, ou trazer as coisas de volta novamente, mas impedir que as coisas se tornem piores”.

Para que serve a música?

Na realidade, Galloway escolheu a ficção para tentar responder a uma velha e importante pergunta: para que serve a música? Arte indefinida por excelência, ela diz tudo e nada ao mesmo tempo. É intraduzível em palavras. Um estudioso, Enrico Fubini, acena com a hipótese de que a música está estreitamente ligada à linguagem e representa até uma parte dela. “A linguagem não é inteiramente ordem e sintaxe, cálculo e reflexão: uma parte da linguagem é som, música, imagem do sentimento em estado puro”. Em outras palavras, “a música representa o pré-lingüístico subjacente em toda linguagem; portanto, revela, enfatiza e faz emergir o que na linguagem é recalcado ou permanece em estado latente”.


Vedran Smailovic [foto: divulgação]

Ou seja, cada um encontra nela significados latentes diferentes. Afinal, foi por causa desta falta de especificidade, deste poder infinito de sugestão, que o historiador Walter Pater escreveu há quase cem anos a famosa frase “todas as artes aspiram, o tempo todo, a condição da música”.

Nesse sentido, Galloway acerta em cheio. Parentes dos mortos, passantes e sobreviventes do cerco que não sabem se continuarão vivos no minuto seguinte dão-se ao trabalho de parar, ouvir o Adagio, depositar flores ao lado do músico. Arrow distrai-se com a música, “viaja” e baixa a guarda em sua vigilância ao atirador da colina que foi encarregado por seus superiores bósnios de matar o violoncelista. O próprio atirador inimigo é seduzido pela música, mantém-se visível e deixa-se abater por Arrow. Dragan pára para ouvir, carregando meia dúzia de vasilhames improvisados cheios d’água. E Kenan, finalmente seduzido pela mágica da música, delira ‘vendo’ uma outra Sarajevo, a cidade original com todos os seus encantos.

“Nada a fazer”

Num dos trechos mais impactantes do livro, Galloway descreve o encontro emocional de Arrow com a essência da música: “Arrow deixa a lenta vibração das cordas tomarem conta dela. (...) Os homens nas colinas, os homens na cidade, ela mesma, nenhum deles tinha o direito de fazer as coisas que fizeram. Nunca havia acontecido. Nunca poderia ter acontecido. Mas conhecia estas notas. Elas haviam se tornado parte dela. Elas lhe contaram que tudo tinha acontecido exatamente como ela sabia, e que nada podia ser feito a respeito. Nenhum lamento ou raiva, ou ato nobre poderia desfazer. Mas tudo poderia ter parado. Era possível. Os homens nas colinas não tinham que ser assassinos. Os homens na cidade não tinham que se rebaixar para ser como seus agressores. Ela não tinha que viver cheia de ódio. A música exigia que se lembrasse disso, que conhecesse uma total certeza de que o mundo ainda possuía a capacidade para a bondade. As notas eram a prova disso”.

Trocando em miúdos: nada a fazer, a não ser reafirmar por meio da música a dignidade humana. Não por acaso, Susan Sontag coloca como epígrafe de seu formidável artigo Esperando Godot em Sarajevo a expressão “Nada a fazer”, primeira linha da peça de Beckett que ela corajosamente montou na cidade sitiada, em julho de 1993.

A maior lição deste livro, Galloway provavelmente aprendeu-a com este artigo de Sontag. Arte não é entretenimento, mas transfiguração da realidade, diz ela: “Não é verdade que todos querem um entretenimento que lhes ofereça uma fuga da sua realidade. Em Sarajevo, como em toda parte, há um bom número de pessoas que se sentem revigoradas e consoladas quando o seu sentido de realidade é sustentado e transfigurado pela arte”.

Os personagens Arrow, Kenan, Dragan e o violoncelista que não diz uma palavra sentem na pele que a cultura séria é uma expressão da dignidade humana. De novo Sontag: “Não há concertos, exceto os de um solitário quarteto de cordas que ensaia todas as manhãs e se apresenta de maneira ocasional num espaço pequeno que também serve de galeria de arte, onde cabem 40 pessoas”. Isso muda a realidade? Sim e não. Pois “as pessoas em Sarajevo sentem que perderam, muito embora se saibam corajosas, ou estóicas, ou revoltadas. Pois também sabem que estão num estado terminal de fraqueza: aguardando, na esperança, sem querer esperar, cientes de que não serão salvos”.

Sontag emocionou o mundo com este artigo. E também o compositor contemporâneo Dave Soldier numa importante obra camerística intitulada Sontag in Sarajevo. Em dois movimentos, Fluor, Phosphor, Lumen & Candle e Dance for the Tetragrammaton, ela foi gravada por Regina Carter (violino), Dawn Avery (cello), Dave Soldier (guitarra elétrica e triângulo) e Anne de Maranis (acordeon) e está disponível no álbum duplo “Dave Soldier Chamber Music”, do selo Mulatta (www.mulatta.org).

Pé no chão

Mas ninguém é de ferro nem a verdade é sempre o que parece. “O violoncelista de Sarajevo” vem sendo best-seller no Canadá, Inglaterra e Estados Unidos desde seu lançamento, em abril passado. Vedran Smailovic, que hoje vive em Belfast, na Irlanda do Norte, agora cobra a conta. “Não é justo, é inacreditável, roubaram minha tragédia”, repetiu em várias entrevistas recentíssimas, disponíveis na internet. Ele argumenta que se estão ganhando dinheiro com o passado dele, então tem direitos.

Galloway parecia antever problemas dessa ordem, porque no epílogo escreve: “Suas ações inspiraram este romance, mas não baseei o personagem do violoncelista no Smailovic real”. Acho que nosso violoncelista tem razão. Ele é central – e tem direito de gritar bem alto:
“queromeu”.

A obra que Smailovic tocou por 22 dias seguidos em Sarajevo também tem origesn obscuras e discutíveis. É conhecida como Adagio de Albinoni, mas não é de fato dele. O musicólogo italiano Remo Giazotto (1910-1998) organizou o catálogo das obras e escreveu uma biografia do compositor veneziano do século 18. Em 1958 revelou publicamente que encontrara um fragmento de uma composição para cordas e órgão de Albinoni, contendo apenas a linha do baixo. Declarou ainda ter feito um arranjo. É este “arranjo” que se tornou um dos maiores hits do barroco. Detalhe: o fragmento original de Albinoni jamais foi encontrado. Ao contrário de Smailovic, que luta para contabilizar os ganhos de um gesto heróico do passado, Giazotto generosamente abriu mão dos direitos autorais. Preferiu curtir solitariamente seu sucesso. E contribuir para elevar o prestígio de seu ídolo Tomaso Albinoni”.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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