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“Dancem, dancem, senão estamos perdidos!” (18/4/2012)
Por Nelson Rubens Kunze

Está em exibição nos cinemas de São Paulo o mais novo filme do diretor alemão Wim Wenders, Pina. Trata-se de um documentário sobre a dançarina e coreógrafa Pina Bausch, diretora da companhia de teatro-dança de Wuppertal, na Alemanha. Wenders, famoso por filmes como O amigo americano, Paris, Texas ou Asas do desejo, foi surpreendido, no meio das filmagens, pela morte de Pina, por câncer, em meados de 2009. O filme acabou tornando-se um tributo póstumo a uma das mais importantes e significativas artistas alemãs do pós-guerra. E se o filme já não valesse por sua genialidade artística, ele ainda nos chega em versão 3D. E os efeitos das três dimensões são um espetáculo à parte...


Cena de Pina [foto: divulgação]

Com o seu teatro-dança, Pina Bausch inventou um novo gênero: uma arte em que os dançarinos teatralizam movimentos corporais, em que as expressões faciais e movimentações no palco contam histórias. São encontros e desencontros, alegrias e tristezas, euforias e medos, esperanças e desilusões, amores e ódios – cenas que atingem diretamente o centro nervoso de nossas emoções.

A multiplicidade de seus atores – jovens, velhos, mulheres, homens, altos, baixos – das mais diferentes nacionalidades, aboli diferenças e confere ao teatro-dança de Pina Bausch uma autenticidade extra, deslocando o espetáculo para mais perto de uma verdade, que se revela inalcançável. Movimentos repetitivos em cenas muitas vezes trivias dão conta de nosso isolamento insuperável, angustiante. Mas é um movimento de busca, de esperança, solidário com toda humanidade.


Cena de Pina [foto: divulgação]

Quando a atriz joga a carne sobre a cadeira e grita “isso é vitela!”, para em seguida dançar sobre as pontas dos pés em um cenário ao ar livre de uma planta industrial, ela coloca em suspensão a nossa realidade para viajar liberta num outro mundo – não sem esforço, não sem sofrimento. A mesma busca ritualística aflora na Sagração da primavera, em que, sobre a terra marrom, se desenham os conflitos de nossa existência. Uma existência frágil e vulnerável, que não desiste de enfrentar desígnios ininteligíveis.

O teatro-dança de Pina Bausch também deixa uma mensagem que questiona e afronta a lógica de nossos dias. Subversiva, sua arte resgata a essência do ser, descartando tudo o que não é essencial. Pina Bausch nos despe de todo artificialismo, reduzindo-nos a mais crua humanidade. Uma humanidade solitária e por vezes angustiante, mas que se redime na beleza e no amor. Sozinhos estamos diante de nossa existência, e é a humanidade que nos salva. A música, o movimento, a expressão da vivência que toca fundo na alma. Uma humanidade que é a essência última de nossa existência, e que faz valer a pena viver.

O filme de Wim Wenders é uma obra-prima em si. O cineasta planejou o documentário com a própria Pina, que ainda acompanhou a gravação de quatro peças, Le Sacre du Printemps (1975), Kontakthof (1978), Café Muller (1978) e Vollmond (2006). Com a morte da artista, Wenders alterou o projeto e acabou adotando um método próprio de Pina, que era o de questionar os bailarinos, fazendo-os responder por meio da dança e da linguagem corporal. Assim, a estrutura final apresenta excertos das coreografias gravadas, breves declarações e os solos de diversos membros da companhia, bem como materiais de arquivos que mostram Pina trabalhando, todos intercalados. Sequências coreográficas ao ar livre na natureza, em plantas industriais, nas ruas ou no trem suspenso de Wuppertal ampliam o espaço teatral em cenas memoráveis. Em conjunto com as trilhas sonoras dos diversos trabalhos apresentados – Tchaikovsky, cancioneiro popular alemão, Caetano Veloso, Stravinsky, música sefaradita, Henry Purcell e muitas outras – Wenders logra captar toda a arte de Pina com rara sensibilidade.

Bem, se você ainda não sabe o que fazer em seu próximo fim de semana, não perca Pina e descubra o universo de uma das mais extraordinárias personalidades artísticas de nosso tempo. Aliás, não de uma, mas de duas: Pina Bausch e Wim Wenders!





Cenas de Pina [fotos: divulgação]

 

 





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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