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“Lulu” na selva dos sentidos (2/5/2012)
Por Leonardo Martinelli

Em sua 16ª edição, o Festival Amazonas de Ópera (FAO) confirma este ano sua notória vocação como principal evento da temporada lírica brasileira. Estas expectativas que se criam em torno do FAO resultam de uma constante artística que tem no desafio seu ponto de apoio.

Seria extremamente conveniente realizar um evento como este apenas com títulos consagrados do repertório Clássico-Romântico. Porém, não tem sido esta a tônica do festival, que paralelamente aos clássicos do teatro de ópera, nos últimos anos têm se proposto a desfiar as complexas teias da ópera moderna. Por exemplo, em 2007, o FAO levou ao palco do Teatro Amazonas uma inspirada produção de Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk, de Shostakovich, que foi, naquele ano, o título principal da edição.

Neste ano o evento apostou todas suas fichas na ópera Lulu, de Alban Berg, e a aposta-investimento mostrou-se mais do que acertada: ela confere ao FAO outro patamar, artisticamente mais sólido, institucionalmente imprescindível.


Cena da ópera Lulu, de Alban Berg, em montagem do Festival Amazonas de Ópera [foto: divulgação]

Junto com Wozzeck (também de Berg), Lulu é o grande marco da ópera moderna. Já embebido da escrita dodecafônica, Berg, entretanto, conferiu à música que conduz os sórdidos acontecimentos desta femme fatale um lirismo ímpar, mais afeito aos cantabiles puccinianos do que ao hermetismo melódico comum em seus pares da II Escola de Viena. Lulu (bem como Wozzeck) não é uma ópera de “música contemporânea”, mas sim obra obrigatória do grande teatro de ópera, o que, por sua vez, a torna um dos títulos mais desafiadores, tanto em termos técnicos como dramático-musicais.

Por tudo isto, é uma enorme satisfação testemunhar o que na prática foi a bonita e competente estreia da ópera em solo brasileiro: modestamente, o diretor artístico do FAO, maestro Luiz Fernando Malheiro, sempre fez questão de indicar a apresentação de dois dos três atos da ópera no Rio de Janeiro, em 1970, cantado em italiano (sic) e tendo Diva Pieranti no papel protagonista, regida por Ettore Gracis. Ressalva realizada, o FAO tem todo o direito de clamar para si a verdadeira estreia desta ópera em terra brasilis.

Sob a direção musical de Luiz Fernando Malheiro, e direção cênica de Gustavo Tambascio, a produção manauara de Lulu teve a soprano alemã Anke Berndt no papel-título, que contracenou com Matteo de Monti (Dr. Schön e Jack, O Estripador), Ulrika Tenstam (Condessa Geschwitz), Flávio Leite (Pintor), Juremir Vieira (Alwa), Pepes do Valle (Schigolch), Carolina Faria (camareira, ginasiano, valete), Eduardo Amir (domador, atleta) e Murilo Neves (diretor de teatro, médico, banqueiro, professor) e Gilberto Chaves (príncipe, mordomo, marquês), entre outros.


Cena da ópera Lulu, de Alban Berg, em montagem do Festival Amazonas de Ópera [foto: divulgação / Leo Ceolin]

Lulu é mais do que uma personagem. Para uma cantora, é um projeto de vida, que exige dedicação e planejamento bem específicos. Anke Berndt fez desta personagem o carro chefe de sua carreira, com a qual já se apresentou em diversas outras produções mundo afora. Tudo isto favoreceu para garantir a esta montagem um elevado patamar de qualidade vocal e dramática, pois na medida em que Berndt tinha absoluto domínio da virtuose parte vocal que lhe é reservada, ela atuou como uma espécie de coelho em corrida de cães, que quanto mais rápido corre, mas rápido movimenta todos que a seguem.

Merece especial menção o bonito de trabalho de Matteo de Monti na caracterização de seu Dr. Schön, da mesma forma que Ulrika Tenstam mostrou-se também à vontade como Condessa Geschwitz. As competentes atuações de Flávio Leite, Juremir Vieira e Pepes do Valle foram também essenciais para a completa caracterização deste circo de horrores e sensualidade do enredo que Berg teceu a partir da obra de Frank Wedekind. Este notável grupo de cantores proporcionou momentos de intensa musicalidade nos diversos (e complexos) conjuntos vocais que o compositor realiza.

Sob a direção cênica do argentino Gustavo Tambascio, esta montagem de Lulu teve alguns “poréns”, o que, no entanto, não prejudicaram o total de suas virtudes. Penso que Tambascio foi especialmente feliz ao desenvolver a ideia do “bestialismo” dos sentidos e desejos humanos sugeridos pelo próprio Berg no prólogo da ópera, e desta forma, fazer suas conexões (ainda que óbvias) com a fauna amazônica. Depois de um exuberante início, em que o Domador inicia sua atuação propositalmente enquanto o público ainda estava a procurar seus acentos, a fragmentação narrativa – em parte refletida pela profusão de personagens previstos em partitura – foi também sabiamente mantida por Tambascio, que propôs movimentações interessantes aos cantores. Porém, fiquei com a impressão que faltou ao diretor imprimir uma persona melhor definida à Lulu de Anke Berndt. Cantora superlativa e atriz notável, enquanto personagem dramático faltou a esta Lulu mais tonos na caracterização da femme fatale que necessariamente é esta singular personagem de ópera. Além disto, penso que o diretor, na prática, não justificou a contento o porquê das referências à cidade do Rio de Janeiro no cenário dos dois primeiros atos. Em geral bem realizado, o estupendo cenário (a cargo da companhia La Tintota) da última cena do último ato contrastou com a precariedade de concepção e realização de sua primeira cena.

Fruto de muitos meses de trabalho sobre uma partitura de imensa complexidade vocal e orquestral, Luiz Fernando Malheiro realizou um notável trabalho musical, no qual a função de regente se mesclou à daqueles artesãos que montam mosaicos. Isto porque, eventualmente, a dificuldade da partitura de Lulu não está nas notas em si, mas sim na união orgânica dos infinitos ladrilhos sonoros que se estendem ao longo do fluxo musical. A orquestra Amazonas Filarmônica mais uma vez surpreendeu pelo resultado geral obtido numa obra em que é “normal” que, aqui e acolá, alguns cacos deste mosaico se desprendam sem maiores comprometimento com a figura retratada.

No pré-conceito que reina no desinformado senso comum da música clássica, a música moderna e contemporânea é destituída de senso lírico, e um dos grandes méritos desta estreia brasileira de Lulu é ter proporcionado ao público um espetáculo de grande pujança lírica e melódica que esta obra tão especial traz consigo.






Cenas da ópera Lulu, de Alban Berg, em montagem do Festival Amazonas de Ópera [foto: divulgação / Leo Ceolin]

[Leonardo Martinelli viajou a Manaus a convite do Festival Amazonas de Ópera]





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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