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A “escola” do falsificador (24/5/2012)
Por Camila Frésca

Depois de ler a crítica do colega Leonardo Martinelli sobre André Rieu – com a qual concordo plenamente, por sinal – e conferir a repercussão do texto no mundo virtual, fiquei pensando no assunto e me lembrei de alguns relatos que, em outro contexto, tratam de situações bem parecidas. São textos que descrevem concertos do século XIX e surpreendem à primeira leitura. Afinal, pode-se pensar que esta espécie de vulgarização ou banalização da música clássica seja coisa recente, fruto de uma sociedade massificada e voltada para o espetáculo. Mas não pensem que os artistas e o público do século XIX eram todos sofisticados e cultivavam a “alta” cultura de forma idealizada. Muitas das apresentações de música clássica da época mais pareciam números de circo, com intérpretes fazendo todo tipo de bizarrices e executando um repertório de gosto extremamente duvidoso.

Vejamos por exemplo duas situações narradas no livro Storia della musica nel brasile – dai tempi colonial sino ai nostri giorni, do italiano Vincenzo Cernicchiaro. O músico, que viveu por muitos anos no Rio de Janeiro, atuou como violinista e professor e publicou sua história da música em Milão em 1926. Trata-se de um registro importantíssimo das atividades musicais do país, principalmente do século XIX. Como era violinista, Cernicchiaro dedicou atenção especial a essa categoria. No capítulo “Dos violinistas nacionais e estrangeiros (1844-1925)” ele afirma que, em 1845, um tal de Agostino Robbio (provavelmente italiano) deu alguns concertos no Rio de Janeiro. Num deles, o repertório era composto por obras como “Casta diva” de Norma; um “tema com variações para rabeca sobre motivos da ópera Sonnambula”; e “variações burlescas sobre motivos das valsas de Strauss”. Já sobre outro dos concertos de Robbio, um crítico da época escreveu: “As imitações do cantar dos pássaros, do ornejar do jumento e outras que ele faz com a perfeição conhecida pelas que tem ouvido, acrescentou a do chiar dos carros de transportar madeira etc., com espantosa semelhança”.

Outro exemplo é Antonio Saenz, violinista alemão que chegou ao Rio igualmente em 1845. Segundo Cernicchiaro, em seu programa de concerto, ao lado de peças triviais, estavam variações de Paganini tocadas numa corda, com a particularidade de que “o beneficiado tocará algumas delas com uma bengalinha (?!) em vez de arco; e, por último, as grandes variações ou miscelânea do concertista, executadas em 14 instrumentos...”. Após essa informação inusitada, uma nota à margem do programa esclarecia: “Bem convencido está o beneficiado de que é árdua a empresa da execução dos indicados instrumentos, posto que a variedade das embocaduras nos de vento, e os diferentes diapasões de cordas, apresentarão dificuldades gravíssimas, tais que o beneficiado se persuade que, pelo menos na América, é ele o primeiro que tem podido vencê-las; todavia conta com a indulgência generosa de um público tão inteligente e benévolo como o fluminense”. Ou seja, a promessa era de um espetáculo bizarro e de uma demonstração de virtuosidade em vários instrumentos. Porém, o músico já pedia de antemão a “indulgência generosa” do público, caso não desse conta de tanta estripulia...

Mas o registro que mais se aproxima do que faz André Rieu hoje em dia encontrei em outro livro de referência, 150 anos de música no Brasil, de Luiz Heitor Corrêa de Azevedo. Tratando do mesmo período, ele conta: “André Gravenstein, holandês que chegou ao Rio de Janeiro em 1859, fundou e teve grande êxito com os chamados ‘Concertos à Musard’, em que imitava os processos excêntricos que haviam feito a fortuna de Philippe Musard no Théâtre des varietés, de Paris (...) Com a sua orquestra de doze trombones cantantes e 14 cornetins, transformando em quadrilhas e galopes alucinantes os motivos de ópera mais em voga, ele criava, na sala de baile, uma atmosfera de delírio (...) Ao som de uma orquestra de cem executantes, a jeunesse dorée fluminense dançava a célebre quadrilha Chicocandou e ouvia os números de concerto enxertados no programa, inclusive solos de violino executados pelo próprio Gravenstein”. Está aí a ‘escola’ de Rieu” – ironicamente, os personagens de ontem e de hoje são similares até no nome...

Com a massificação dos produtos culturais e os eficientíssimos meios de comunicação que possuímos hoje, algumas coisas tomam dimensões verdadeiramente assombrosas, mas isso não significa que passaram a existir somente agora. Espetáculos popularescos e criados para ser em primeiro lugar um negócio lucrativo existem há muito. E outra questão que me ocorreu foi: será que o violino seria especialmente propício a este tipo de arte marqueteira e malabarística? Afinal, deixando de lado a música (que ainda assim não pode ser comparada à de um Beethoven ou Bach) e pensando somente nas lendas que envolvem Paganini, logo vem à mente as histórias de que ele chegava aos concertos coberto por um manto negro numa carruagem puxada por cavalos negros; que seu som e suas acrobacias ao violino eram tão extraordinários que as senhoras chegavam a desmaiar durante os concertos; e que, em algumas apresentações, misteriosamente, as cordas de seu violino estouravam uma a uma, restando-lhe apenas a Sol: mas ele continuava tocando, gloriosamente, até o final da música, para o espanto da audiência. A se pensar...





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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