Banner 468x60
Banner 180x60
Bom dia.
Sábado, 25 de Maio de 2013.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   

Edição maio/2013




 
 
 
A música que nos devolve a humanidade (17/7/2012)
Por João Marcos Coelho

DER SPIEGEL – Você se apresentou em Gaza no ano passado sem a West-Eastern Divan Orchestra. Você levou músicos de três orquestras: de Berlim, a Staatskapelle e a Filarmônica; e de Viena, a Filarmônica.

DANIEL BARENBOIM – E recebi aquele que provavelmente é o mais belo cumprimento de minha carreira musical. Um homem me agradeceu tão efusivamente e tantas vezes por nossa performance que, a certa altura, tive de perguntar-lhe por que estava tão feliz. Ele me respondeu: "Temos a sensação de que o mundo se esqueceu de nós. Recebemos ajuda material, e somos gratos por isso. Mas o fato de você ter vindo aqui com sua orquestra nos devolve a sensação de que somos seres humanos”.

Todo mundo conhece Daniel Barenboim, 69 anos, judeu nascido em Buenos Aires, criado a partir dos 10 anos em Israel e hoje radicado em Berlim, pianista e maestro, ex-titular da Orquestra de Paris (1975-1989) e da Orquestra de Chicago (1991-2006) e titular da Deutsche Staatsoper de Berlim (desde 1992) e da Staatskapelle de Berlim (vitalício desde 2000). O que menos gente sabe é que a pergunta que ele dirigiu ao palestino só poderia ter sido feita após o encontro mágico com Edward Said.


Edward Said [foto: divulgação]

Topei com esta magnífica resposta de Barenboim numa entrevista do final do mês passado à revista semanal alemã. Não dá pra passar batido. Nela está a resposta a uma das perguntas mais difíceis relacionadas à arte dos sons. Para que serve? Tenho usado a expressão: ela nos torna mais humanos, ou melhor, nos devolve a sensação de que somos humanos, como diz acertadamente o palestino que assistiu ao concerto em Gaza.

Precisamos ter consciência de que a música é, para nós, tão preciosa e fundamental quanto para o palestino, que vive um dia-a-dia que ninguém inveja, na conflituadíssima área de Gaza, onde falta de tudo – de água a teto, de alimento a roupa – e sobram bombas, guerras e mortes.

Que bom que a música não existe num vácuo, dizia Edward Said, uma das cabeças pensantes mais brilhantes da passagem dos séculos 20/21, infelizmente morto aos 68 anos, em 2003. A música, a cultura e a política devem ser vistas como um todo. "O que é esse todo, tenho o prazer de dizer", afirmava, "nenhum de nós sabe explicar completamente, mas pedimos aos leitores, nossos amigos, que se juntem a nós para tentar descobrir".


Edward Said e Daniel Barenboim [foto: divulgação]

Palestino nascido em Jerusalém, foi criado no Cairo mas era cidadão norte-americano; foi crítico e professor de literatura na Universidade de Columbia em Nova York, ex-assessor de Arafat na OLP e articulista do jornal egípcio El-Ahram, e das revistas The Nation, London Review of Books e New York Review of Books. Ah, também foi pianista e autor de vários dos mais agudos ensaios sobre música do último meio século.

Mas, e de novo recorro a Said, nem tudo são rosas, “a música requer um tipo específico de educação que a maioria das pessoas simplesmente não recebe (...) Gente que conhece bem pintura, fotografia, teatro, dança, etc., não tem tanta facilidade para falar de música. E, contudo, como diz Nietzsche em A Origem da Tragédia, a música é potencialmente a forma de arte mais acessível, porque, com a junção do apolíneo e do dionisíaco, causa uma impressão mais forte e envolvente que as outras artes. E o paradoxo está em que, embora seja acessível, a música é incompreensível”.

Paradoxo que se pode explicar assim: a música é acessível porque produz um efeito imediato muito poderoso; mas, ao mesmo tempo, é uma arte extremamente esotérica, pois requer treino e disciplina muito parecidos com a de um jesuíta.

“O apartheid envolvendo a música é coisa que me parece exclusiva da nossa época”, adverte Said. “A música está perdendo a autoridade. Acho que o tipo de reflexão que nos interessa tem menos probabilidade de ocorrer hoje, no que se refere à música, do que cem anos atrás. Estou perplexo e assustado com isso”.

Quanto a Barenboim, ele completa 70 anos em novembro próximo e vive um momento especial: a arrogância diminui na medida em que alcança a maturidade plena. Deve ter tudo a ver com a convivência dele com Edward Said, um intelectual que fez da inteligência, independência e sinceridade seus nortes na vida. Juntos, eles fundaram a Orquestra West-Eastern Divan, unindo músicos do Oriente Médio inteiro, de judeus a libaneses, sírios, sauditas, jordanenses, entre outras etnias e nacionalidade.

Agora mesmo, neste mês, Barenboim está lançando uma integral das nove sinfonias de Beethoven com esta orquestra (enquanto a gravação não chega ao Brasil, é possível ouvir trechos no CD Beethoven for all). Pode não ser a mais refinada nem a mais rebrilhante gravação do monumento de Beethoven. Mas, com certeza, é a prova viva de que a música modifica de fato as pessoas. E isso está acima de tudo.


Clássicos Editorial Ltda. © 2012 - Todos os direitos reservados.
A reprodução integral deste conteúdo requer autorização.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

Mais Textos

Tinetti e Monteiro: pianistas e professores em CD Por Irineu Franco Perpetuo (20/5/2013)
Quase ópera, quase musical. "Ça Ira", um bom entretenimento Por Marcos Fecchio (10/5/2013)
Musical ruim abre ano “lírico” do Theatro Municipal Por Nelson Rubens Kunze (8/5/2013)
Modernos e antigos: quais são os melhores? Por Camila Frésca (7/5/2013)
Bis, para que te quero? Por Leonardo Martinelli (26/4/2013)
“Aida” estreia temporada lírica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro Por Nelson Rubens Kunze (22/4/2013)
José Eduardo Martins: Uma lição de música e de vida Por Ricardo Tacuchian (19/4/2013)
Nathalie Stutzmann: contralto em dose dupla Por Irineu Franco Perpetuo (17/4/2013)
Música para não esquecer o Holocausto Por Marco Aurélio Scarpinella Bueno (9/4/2013)
Músicas diferentes exigem escutas diferentes Por João Marcos Coelho (8/4/2013)
Violinos para milionários Por Camila Frésca (1/4/2013)
Na abertura da OSB, Yamandu Costa rouba o show Por Nelson Rubens Kunze (25/3/2013)
La Cenerentola e seu belo “lado B” Por Leonardo Martinelli (21/3/2013)
Cenerentola: São Pedro no caminho certo, a trancos e barrancos Por Irineu Franco Perpetuo (18/3/2013)
Auscultando a música: grandes compositores vão ao pneumologista Por Marco Aurélio Scarpinella Bueno (13/3/2013)
A música clássica, quem diria?, embala até romances pornôs Por João Marcos Coelho (12/3/2013)
O pontapé de Mozart e a embaixadinha de Mário Por Camila Frésca (28/2/2013)
Paz, amor, música e literatura Por João Marcos Coelho (26/2/2013)
Neschling abre temporada 2013 do Teatro Municipal de São Paulo Por Nelson Rubens Kunze (25/2/2013)
Neschling: o novo técnico do Municipal Por Irineu Franco Perpetuo (22/2/2013)
Glauco Velásquez revive em importante lançamento do Centro Cultural São Paulo Por Camila Frésca (26/12/2012)
Teatro Municipal de São Paulo: agora vai? Vai para onde? Por Irineu Franco Perpetuo (18/12/2012)
Charles Rosen se foi Por João Marcos Coelho (16/12/2012)
“O rouxinol”, ou a cereja do sundae Por Leonardo Martinelli (13/12/2012)
(Re)Nasce um importante espaço para a música de câmara de São Paulo Por Camila Frésca (7/12/2012)
“Werther” fecha temporada lírica do Theatro São Pedro Por Nelson Rubens Kunze (5/12/2012)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Maio 2013 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
29 30 31 1 2 3 4
5 6 7 8 9 10 11
12 13 14 15 16 17 18
19 20 21 22 23 24 25
26 27 28 29 30 31 1
 

 
São Paulo:

30/5/2013 - Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo

Rio de Janeiro:
30/5/2013 - Balé O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky

Outras Cidades:
31/5/2013 - Goiânia, GO - Orquestra Sinfônica de Goiânia
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2013 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046