Banner 180x60
Bom dia.
Quarta-Feira, 18 de Outubro de 2017.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


 

Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes

 
 
 
Aventura musical pela cidade de São Paulo (6/8/2012)
Por Camila Frésca

Na semana passada, conferi no mesmo dia dois concertos incríveis, oportunidade que só uma grande metrópole – a despeito de todas as suas mazelas – pode nos proporcionar. Apenas no dia da apresentação é que consegui garantir meus ingressos para o concorrido recital do pianista Marc-André Hamelin na Sala São Paulo. Ainda comemorando o feito, fui convidada para assistir ao show extra do contrabaixista de jazz Ron Carter, que aconteceria no mesmo dia, no Auditório Ibirapuera. O primeiro impulso foi recusar, mas logo pensei, “por que não?” Afinal, Hamelin começava a tocar às 21h, e na primeira parte do concerto é que estavam as peças mais interessantes, na minha opinião; assim, saindo durante o intervalo, eu chegaria ao Ibirapuera a tempo de conferir a segunda sessão de Ron Carter e banda, às 23h.


Ron Carter e Marc-André Hamelin [fotos: divulgação]

E assim foi feito. O canadense Marc-André Hamelin é um pianista excepcionalmente dotado – de técnica e inteligência musical – e que construiu sua reputação fugindo do repertório standart do piano. Eu o conheci anos atrás através de um disco dedicado a Villa-Lobos e no qual ele tocava peças como As três Marias de uma maneira impressionante e que desde então ficou em minha cabeça. Recentemente, um disco só de composições próprias também me deixou boquiaberta. O repertório anunciado de seu concerto só confirmava sua mente criativa: com exceção de Rachmaninov, nada de nomes manjados de recitais de piano.

Hamelin, que tocou o programa todo de cor, iniciou o recital com a bela Sonata nº 1 de Alban Berg, ainda ecoando a linguagem romântica. A sequência teve duas peças de Gabriel Fauré, interpretadas com a sutileza e destreza necessárias, e nas quais os dedos do pianista pareciam ser de uma leveza sobre-humana. Mas os dois autores foram uma espécie de aquecimento para o que viria a seguir: uma interpretação arrebatadora do Rudepoema, de Villa-Lobos. Sua interpretação é de tal forma surpreendente que faz parecer que ninguém, até então, havia entendido o real sentido da peça. É difícil não ficar enumerando superlativos para tentar transmitir o que houve ali, e os colegas Leonardo Martinelli e João Marcos Coelho publicaram críticas ótimas nas quais esmiúçam esta noite memorável.

O fato é que, ainda sob o impacto do Rudepoema e lamentando não ver a conclusão daquela viagem musical, saí apressada da Sala São Paulo rumo ao Auditório Ibirapuera. Um público mais jovem e “descolado” deixava a primeira sessão desse lendário contrabaixista de jazz, que aos 75 anos mostrou energia suficiente para emendar um show no outro, tocando por mais de três horas praticamente ininterruptas. Acomodei-me para a segunda sessão e começou então uma nova “viagem”. Com a clássica formação jazzística de piano, baixo e bateria – na verdade, acompanhado pela pianista Irene Rosnes, o baterista Payton Crossley e o percussionista Rolando Morales –, Ron Carter nos levou a uma longa viagem na qual foi intercalando temas, canções e improvisos. De tempos em tempos, um dos músicos solava mostrando sua excelência. Tocaram sem pausa entre uma música e outra durante aproximadamente uma hora, na qual o público pode desfrutar a riqueza timbrística de Ron Carter e sua elegância extrema, que o faz ultrapassar a ideia do solista que quer demonstrar sua virtuosidade a todo momento. Não que ela não estivesse lá, implícita, seja quando ele e a banda nos desafiavam com ritmos complexos, seja quando seu contrabaixo simplesmente fazia a “cama” das canções, ou ainda em seus solos discretos. Mais uma sessão e, em aproximadamente uma hora e meia de show, pode-se apreciar um jazz clássico de alto refinamento e sofisticação.

Saí de lá feliz por não ter abortado essa segunda sessão na última hora, na tentação de ver Hamelin até o fim. Afinal, se toda escolha envolve uma perda, acho que saí no lucro ao poder conferir a maestria desses dois artistas que, embora formalmente em áreas distintas, estão muito próximos no que concerne ao domínio técnico, criatividade, inteligência musical e no resultado artístico – que vale qualquer correria.


Clássicos Editorial Ltda. © 2012 - Todos os direitos reservados.
A reprodução integral deste conteúdo requer autorização.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

Mais Textos

Primeiras impressões sobre a temporada da Osesp Por João Marcos Coelho (29/9/2017)
“Tosca” tem montagem competente no Rio de Janeiro Por Nelson Rubens Kunze (28/9/2017)
Refinamento e inventividade em “Brazilian Landscapes” Por Camila Frésca (28/9/2017)
Um “Nabucco” problemático no Theatro Municipal de São Paulo Por João Luiz Sampaio (26/9/2017)
Na estreia com a Osesp, Leonardo Hilsdorf encanta a Sala São Paulo Por Irineu Franco Perpetuo (22/9/2017)
Festival de Ópera do Theatro da Paz faz bom “Don Giovanni” Por Nelson Rubens Kunze (19/9/2017)
Penderecki e Szymanowski: uma noite musical maior Por Jorge Coli (18/9/2017)
Novo fôlego para a ópera no RS Por Everton Cardoso (8/9/2017)
Wagner de boa qualidade, mas sem lirismo e vigor dramático Por Jorge Coli (4/9/2017)
Finalmente Dudamel “suja” mãos e batuta com a “política” Por João Marcos Coelho (24/8/2017)
Dobradinha “Pulcinella & Arlecchino” tem boa realização no Theatro São Pedro Por Nelson Rubens Kunze (23/8/2017)
O bel canto colorido e expressivo de Javier Camarena Por Irineu Franco Perpetuo (10/8/2017)
Osesp faz belo concerto com programa raro Por Jorge Coli (9/8/2017)
Terceira edição do Festival Vermelhos consolida projeto cultural em Ilhabela Por Camila Frésca (8/8/2017)
Em busca da música Por João Marcos Coelho (28/7/2017)
Neojiba: o exemplo da Bahia para o Brasil Por Irineu Franco Perpetuo (24/7/2017)
Você conhece José Vieira Brandão? Por João Marcos Coelho (12/7/2017)
Campos do Jordão, Salzburg e a economia da cultura Por Nelson Rubens Kunze (12/7/2017)
Rameau em “dreadlocks” Por Jorge Coli (11/7/2017)
Isabelle Faust, Vadim Repin e Julian Rachlin: sobre expectativas, decepções e boas surpresas Por Camila Frésca (5/7/2017)
Encomenda da Osesp mostra Mehmari maduro Por Irineu Franco Perpetuo (3/7/2017)
Fórum apresenta importantes orientações para “endowments” culturais no Brasil Por Nelson Rubens Kunze (10/6/2017)
Filme “Filhos de Bach” marca por sua sensibilidade e delicadeza Por Nelson Rubens Kunze (9/6/2017)
Transformação social e o futuro da música clássica Por Anahi Ravagnani e Leonardo Martinelli (30/5/2017)
Os extras contemporâneos de Isabelle Faust na Sala São Paulo Por João Marcos Coelho (25/5/2017)
Festival Amazonas de Ópera encena ‘Tannhäuser’ e comemora 20ª edição Por Nelson Rubens Kunze (23/5/2017)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Outubro 2017 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
1 2 3 4 5 6 7
8 9 10 11 12 13 14
15 16 17 18 19 20 21
22 23 24 25 26 27 28
29 30 31 1 2 3 4
 

 
São Paulo:

25/10/2017 - Percorso Ensemble

Rio de Janeiro:
27/10/2017 - XXII Bienal de Música Brasileira Contemporânea

Outras Cidades:
20/10/2017 - Salvador, BA - Orquestra Infantil da Bahia
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2017 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046