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“Crepúsculo”: mais um passo rumo ao “Anel” (14/8/2012)
Por Irineu Franco Perpetuo

O que já era interessante ficou ainda mais sólido. Depois de uma Valquíria promissora, o Teatro Municipal de São Paulo amadurece sua produção wagneriana com O Crepúsculo dos Deuses, abrindo o caminho para o que pode ser uma realização notável: o primeiro Anel do Nibelungo da terra da garoa. (Ah, aviso aos navegantes: fiz o texto do programa dessa produção de Götterdämmerung. Portanto, quem achar que isso me compromete com o espetáculo pode ficar à vontade para abandonar aqui a leitura do texto.)

Assim como na Valquíria de novembro do ano passado, o Crepúsculo teve direção musical de Luiz Fernando Malheiro e encenação de André Heller-Lopes, podendo ser visto ganhos na atuação de ambos.

Em 2011, a Orquestra Sinfônica Municipal ainda se ressentia de um longo período de inatividade. Um ano depois, graças a um longo e paciente trabalho dos regentes Abel Rocha e Luís Gustavo Petri, o grupo já mostra evolução.


Cena de O Crepúsculo dos Deuses no TMSP [foto: divulgação / Sylvia Masini] 

Embora seus músicos tenham xingado Wagner e Götterdämmerung de todos os nomes nas redes sociais, não se viu má vontade da parte deles na récita de estreia, domingo, dia 12. Claro que um título tão longo apresenta desafios de resistência e concentração. Houve inevitáveis desencontros, aqui e ali os cantores se viram encobertos e os solos, especialmente nos metais, se revelaram erráticos: contudo, dessa vez, Malheiro conseguiu imprimir uma leitura fluente e um bom andamento ao espetáculo, sem os problemas de continuidade que se viram na Valquíria.

Heller-Lopes também amadureceu o conceito de um Wagner “moderno e brasileiro”: não houve nenhum estereótipo de brasilidade ou “forçação de barra”, e um uso especialmente inteligente dos recursos de luz e do maquinário conferiram agilidade e funcionalidade às trocas de cena.

Direção de atores meticulosa e um sentido quase infalível de beleza plástica ajudaram a conferir solidez à realização teatral, com alguns momentos francamente memoráveis. Caso, por exemplo, da linda trama de fios das Nornas, no prólogo, do encontro das águas entre os rios Negro e Solimões na jornada de Siegfried pelo Reno, ou ainda do engenhoso jogo de espelhos entre Gunther e Siegfried na rocha de Brünnhilde, no final do primeiro ato. Isso para não falar na luz “Bob Wilson” sobre o rosto de Pepes do Valle na projeção do filme “São Paulo: Sinfonia da Metrópole”, que marca a aparição do nibelungo Alberich em visita ao sonho de seu filho Hagen.

Do ponto de vista vocal, há que se salientar que, fora do reino irreal e dourado das gravações, são inevitáveis oscilações de desempenho em papéis tão longos como os dos protagonistas Siegfried e Brünnhilde. Como todos estão ainda com as Olimpíadas frescas na cabeça, talvez não seja descabida uma metáfora desportiva: ninguém corre uma maratona no ritmo dos cem metros rasos.

Nesse aspecto, John Daszak parece ter dosado bem as forças. O tenor por certo poderia ser um Siegfried um pouco mais matizado do ponto de vista vocal: mas manteve a firmeza de emissão e a intensidade ao longo de toda a ópera, e se revelou bastante interessante do ponto de vista cênico.


Cena de O Crepúsculo dos Deuses no TMSP [foto: divulgação / Sylvia Masini]

Quem esteve no ensaio geral louvou a atuação de Eliane Coelho como Brünnhilde, mas, na estreia, sua atuação foi algo irregular – no segundo intervalo, depois de um trio final do segundo ato não muito equilibrado, vários membros da crítica especializada se mostravam preocupados com a saúde vocal da cantora.

Coelho chegou bem até o final, felizmente, como uma Brünnhilde de enorme entrega e dramaticidade, e seus momentos realmente bons compensaram largamente as passagens em que a ouvíamos menos, em que o interesse caía, ou em que ela simplesmente parecia abusar do recurso à voz de peito.

Tendo impressionado como Hunding na Valquíria, Gregory Reinhart voltou a trazer seus graves poderosos ao palco do Municipal, como Hagen. A seu lado, vozes brasileiras bem escolhidas, como Leonardo Neiva (Gunther), Denise de Freitas (Waltraute) e Claudia Riccitelli (Gutrune) contribuíram com performances de bom nível. Que venha o resto do Anel!


[Irineu Franco Perpetuo escreveu o texto do programa da ópera O Crepúsculo dos Deuses para o Teatro Municipal de São Paulo.]

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A reprodução integral deste conteúdo requer autorização.





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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