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As delícias de uma ópera atropelada (24/9/2012)
Por Leonardo Martinelli

Antes que me interpretem mal, já aviso: o termo “ópera atropelada” é sugerido pelo historiador da arte Jorge Coli no texto contido no programa da mais nova produção do Theatro São Pedro (TSP) da capital paulista, O Barbeiro de Sevilha de Giovanni Paisiello.

O Barbeiro mais famoso da história é o criado por Rossini trinta e quatro anos depois da ópera de Paisiello, como uma espécie de afronta do jovem músico contra a velha ordem (como bem explica Coli).

É desnecessário explicar o porquê do Barbeiro de Rossini ser uma obra tão cativante e popular, mas é inexplicável o fato do título de Paisiello ter, na prática, caído no esquecimento (daí o termo “ópera atropelada”).


Cena final de O Barbeiro de Sevilha de Paisiello, no Theatro São Pedro [foto: divulgação / Décio Figueiredo]

Hábil compositor, Paisiello dominou como poucos o fino artesanato da escrita operística, aliando uma composição lírica de grandeza com um competente trato da parte formal e orquestral da partitura.

Ter a ousadia de escolher um título como este, e propiciar a seu público o contato direto com a bonita música do Barbeiro de Paisiello é, sem dúvida, um dos grandes méritos desta produção do TSP.

O elenco principal deste Barbeiro contou com o barítono Manuel Alvarez como Figaro, a soprano Artemisa Repa como Rosina, o tenor Luciano Botelho como Conde Almaviva, o baixo-barítono Alessio Potestio como Dr. Bartolo e o baixo Carlos Eduardo Marcos como Don Basilio.

Trata-se de um ótimo elenco, equilibrado em seu conjunto e com vozes adequadas às características musicais de seus papeis. Se ao longo da primeira cena da ópera o desempenho do duo entre Alvarez e Potestio foi um tanto titubeante, logo eles e seus companheiros de palco souberam crescer em suas atuações, tal como no estupendo quinteto na primeira cena do segundo ato. Além disso, é sempre um prazer à parte poder ouvir um timbre de soprano tão presente e seguro como da cantora albanesa Artemisa Repa ou os graves “com convicção” de Carlos Eduardo Marcos.


Fachada do Theatro São Pedro, em São Paulo [foto: divulgação / Décio Figueiredo]

Prazer também foi ouvir o trabalho realizado pelos músicos da Orquestra do Theatro São Pedro, que atuou sob a regência do maestro italiano Sergio Monterisi. Obras em estilo clássico como esta ópera de Paisiello encerram uma sonoridade cristalina que costuma deixar a nu um grupo orquestral. Os probleminhas aqui e acolá não anulam o fato de ser perceptível o avanço em termos de equilíbrio e coesão entre os naipes do grupo. A estrada é longa, mas pelo visto (e ouvido) já começou a ser trilhada. Em geral, Monterisi imprimiu andamentos interessantes, garantindo fluidez sonora ao espetáculo, ainda que em alguns pontos tenha sido bem perceptível certo descompasso entre o fosso e proscênio.

No final das contas, o calcanhar de Aquiles do Barbeiro do TSP foi sua concepção cênica, idealizada por Enzo Dara. O italiano se consagrou como um dos grandes baixos-bufos de sua geração, mas ironicamente não soube explorar o potencial cênico desta comédia de Paisiello.

O problema central foi encenar um Barbeiro de Paisiello como uma espécie de paráfrase do Barbeiro de Rossini, inundando o espetáculo com referência ao título deste, em especial por meio de breves citações musicais executadas pelo cravo do contínuo. Na primeira vez, soa engraçadinho, mas ao se tornar repetitivo, a piada não se sustenta.


Cena da ópera O Barbeiro de Sevilha de Paisiello, no Theatro São Pedro [foto: divulgação / Décio Figueiredo]

Ao mesmo tempo, desperdiçaram-se diversos momentos divertidos, tal como o terceto do segundo ato, quando Bartolo se vê na surreal companhia de um criado que só boceja e outro que só espirra. Os jovens cantores Ossiandro Brito e Marcelo Mesquita bem que se empenharam, mas a marcação que lhes fora delegada jogou contra.

Menos que uma proposta original, Enzo Dara pareceu transpor para a ópera de Paisiello uma ideia pensada para o Barbeiro de Rossini. Daí a condição de paráfrase de sua montagem, que talvez explique o tom demasiado infantilizado de sua ambientação, reforçado por um cenário mais afeito à decoração de um buffet infantil.

Mas a força da música de Paisiello se sobrepôs a estes revezes, e o Barbeiro do TSP é um espetáculo raro que merece ser ao menos ouvido (o que não é pouca coisa).





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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