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Gênios da publicidade ridicularizam a música clássica (26/9/2012)
Por João Marcos Coelho

Não sei se vocês já viram, na TV, em horário nobre, um comercial de cerveja com um pessoal sarado beliscando churrasquinho, bebendo, cantando pagode e até arriscando passinhos trôpegos de dança. Se não viram, conto a sequência: de repente, um cara sentado no mesão toma um gole de uma latinha de cerveja sem marca – imediatamente, incha e fica como um tatu-bola gigante. E, também imediatamente, a música muda. Ele cantarolava um pagode, agora se apruma e dá uma de tenor lírico atacando “La donna è móbile”, do Rigoletto. Entra o locutor em off dizendo: tomou cerveja quadrada, dá nisso. Ele toma cerveja de outra lata, desta vez da Skol, e o pagode extrovertido retorna, junto com mulheres incrivelmente gostosas e quase peladas.


Cena da propaganda da cerveja Skol [imagem: reprodução Youtube] 

Ou seja, é um tremendo sarro na ópera e na música clássica em geral. Aparentemente, é só um comercial inofensivo que pega carona na música popularesca mais rasteira pra vender o seu peixe. Só aparentemente, porém. Porque, na verdade, a atitude é preconceituosa, gratuita e deseducativa – pra ficar só nos primeiros adjetivos que me acodem. Na verdade, igualmente, e sem trocadilho algum, a propaganda nunca teve, não tem nem jamais terá compromisso algum com a verdade. Sua meta é vender, não importam os meios (vide Goebbels, um dos pioneiros e mais eficientes publicitários do século 20, modelo de tantos ganhadores de leões de ouro, prata e bronze...).


Cena da propaganda da cerveja Skol [imagem: reprodução Youtube]

Com certeza, já tem gente aí resmugando “como este cara é retrógrado, não aceita uma brincadeirinha inocente”. Epa! Brincadeira inocente nada. Existe um discurso subliminar neste tipo de propaganda que usa preferencialmente a música clássica, ou de concerto, ou de invenção, como coisa esdrúxula, quadrada, de maluco, que não vale a pena etc.etc. É um discurso perverso na essência, porque injeta preconceito no grande público com relação a esta música. Mais; afugenta de vez pessoas que, se não fossem instrumentalizadas para ridicularizar a música clássica, possivelmente até gostariam dela. Olhem só a letra traduzida de “La donna è mobile”, que o comercial ridiculariza:

A mulher é volúvel
Como pluma ao vento,
Muda de sotaque
E de pensamento.

Sempre um amável,
Gracioso rosto,
Em pranto ou em riso,
É mentiroso.

A mulher é volúvel
Como pluma ao vento,
Muda de sotaque
E de pensamento.

E de pensamento.
E de pensamento.

É sempre um infeliz
Quem a ela se entrega,
Quem lhe confia
Incautamente o coração.

Também nunca sente-se
Feliz em cheio
Quem naquele seio
Não saboreia amor.

A mulher é volúvel
Como pluma ao vento,
Muda de sotaque
E de pensamento.

E de pensamento.
E de pensamento!

Pra ficar no mesmo baixo nível da propaganda rasteira, parece que ela está descrevendo a Carminha e o Tufão, da novela global “Avenida Brasil”. Tá certo, Verdi pegou leve – a vilã é muito mais maldosa que a personagem na ópera, e Tufão bem mais imbecil do que seu homônimo lírico. Mas as linguagens da indústria cultural – telenovela, propaganda, música popularesca – são mesmo simplórias, caricatas. E por isso deveriam ser ridicularizadas, devolvo solenemente.


Karl Kraus (1874-1936) [foto: divulgação]

O comercial também me remeteu a um dos sujeitos mais inteligentes que o século 20 acolheu: o jornalista austríaco Karl Kraus (1874-1936), que por 37 anos, entre 1899 e 1936, foi factótum de um tablóide chamado “A Tocha”. Existem algumas traduções para o português de seus aforismos, mas no ano passado a Editora Acantillado, de Barcelona, publicou uma suculenta amostra dos seus artigos em “Die Fackel” (este é o título original do seu jornalzinho), em 550 páginas notáveis. É de lá que pincei “Viagens publicitárias ao inferno”, de novembro de 1921. Ele se horroriza com este anúncio publicado no jornalão vienense “Die Neue Freie Presse”:

“Passeios de automóvel pelos campos de batalha, organizados por Basler Nachrichten. Viagens publicitárias de 25 de setembro a 25 de outubro a preços reduzidos, de 117 francos. Sensações inesquecíveis. Particularmente recomendado como viagens de outono”.

Resumindo: o anúncio convida o leitor a visitar o campo da batalha de Verdun, entre França e Alemanha, na 1ª Guerra Mundial, no qual morreram 1,5 milhão de franceses e outro tanto de alemães, em uma batalha que durou quase um ano inteiro, de fevereiro a dezembro de 1916.

Uma coisa dessas, diz Kraus, incrementa o turismo, “mas certamente não vai elevar o nível moral da humanidade” já tão degradado. O artigo precisa ser lido na íntegra, mas cito só o final: “Só pelo fato de termos nascido”, é dolorido saber que pertencemos a uma “humanidade” cheia de canalhas, “que profana inclusive o sangue vertido” de ambos os lados.

O artigo está ficando trágico. Por isso retorno ao “inocente” comercial de cerveja para – não resisto – citar um daqueles aforismos fulminantes, que caem como luva na ilustre equipe de criação publicitária que desovou comercial tão preconceituoso e idiota: “O segredo do demagogo é se fazer passar por tão estúpido quanto sua plateia, para que esta imagine ser tão esperta quanto ele”.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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