Banner 468x60
Banner 180x60
Bom dia.
Segunda-Feira, 18 de Junho de 2018.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes

 

 
 
 
A resistência da música nova nos anos de chumbo (31/7/2008)
Por João Marcos Coelho

A história da resistência às ditaduras latino-americanas entre as décadas de 60 e 80 costuma ser contada como um dos momentos mais heróicos das músicas populares em vários países do continente. Esquece-se, porém, que também a música contemporânea lutou bravamente nesta trincheira. Uma história praticamente desconhecida, que só agora começa a ser melhor conhecida, graças à excelente tese "A Utopia no Horizonte da Música Nova", defendida há dois anos na Universidade de São Paulo por Teresinha Prada. Este é, com certeza, um estudo que exige publicação urgente em livro.

"Há muitos textos sobre a atuação da música", diz ela, "via canção de protesto, frente às ditaduras militares na década de 70 no Brasil e na América Latina, mas esquece-se de que a música erudita também enfrentou problemas sérios e apresentou um tipo de resistência ao establishment. Houve significativo relacionamento e trânsito de músicos eruditos, irmanados numa mesma luta, estética e política, no Festival Música Nova de Santos e nos Cursos Latino-americanos de Música Contemporânea".

O Festival teve sua primeira edição em 1962. Interrompeu-se de 65 a 67 por causa do golpe, e retornou em 68, mantendo-se até hoje (em setembro, teremos, em São Paulo e Santos, a 43ª edição). Gilberto Mendes reconhece que "o aperto da repressão de 68 motivou a guinada mais à esquerda, primeiro por nossas próprias convicções políticas de esquerda, e logo depois pela ligação com o Curso Latino-americano". Este sim, teve inspiração direta nos conturbados e importantíssimos acontecimentos de maio de 68 em todo o mundo.

Teresinha mostra como o Festival, a partir do surgimento dos Cursos, em 1971, forma uma linha de frente onde a estética de vanguarda – até então o critério básico – é substituída pela exigência ideológica: "A partir de certo momento, a programação não seria mais feita por uma opção estética, mas também como alternativa ideológica".

Amor & Revolução

O compositor italiano Luigi Nono (1924-1990) foi o primeiro a vir para os Cursos Latino-americanos, em Piriápolis, em 1971. Como Cohn-Bendit, Nono seguiu à risca, em sua estada no Uruguai, os famosos versos pichados na Sorbonne em maio de 68: "Quanto mais faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução/quando mais faço a revolução, mais tenho vontade de fazer amor." A ponto de, segundo Gilberto Mendes, ter sido "chamado às falas para o assunto principal, a música. Afinal, ele vivia correndo atrás das belas e jovens instrumentistas, compositoras e participantes do curso."

Entre aventuras amorosas casuais e discussões políticas, Nono encontrou tempo para escrever um artigo de quatro páginas sobre o evento (disponível no livro "Ecrits Complets", Ed. Contrechamps, Paris, 2008). Ele elogia o que chama de "discussões antiacadêmicas e antiautoritárias" e denuncia os cursos de música europeus, "que têm caráter acadêmico e autoritário, e baseiam-se na ‘personalidade’ individual e unilateral de músicos, e cujo pior exemplo são os cursos de verão de Darmstadt, que se limitam a impor sua própria visão estético-técnica, segundo o ‘mito da tecnificação como progresso’, o que corresponde à posição da música oficial e governamental, européia e norte-americana, verdadeiro instrumento cultural que dá sustentação à dominação capitalista e imperialista atual".

Nono considera "populismo turístico tentar repetir hoje as experiências de Villa-Lobos ou Chávez" e aponta Bartok como modelo a ser seguido: "Ele pratica uma linguagem musical contemporânea que penetra na essência da estrutura interna da linguagem musical popular e não se limita a citações como Stravinsky." Lista o dever de casa de todo músico latino-americano: "Necessidade de analisar, ultrapassar e romper a dominação cultural européia e norte-americana; instituir uma prática criativa própria e original; destruir a superestrutura cultural imposta há séculos pela dominação estrangeira; reconhecer a matriz autóctone e reconhecer-se a si mesmo nela, em sua própria origem; romper a hegemonia eurocentrista; inventar novas técnicas, novos instrumentos expressivos, novos meios de comunicação e novas formas que correspondam às exigências do momento de luta atual na América Latina."

Uma cartilha mais do que nunca válida ainda hoje.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

Mais Textos

Julia Lezhneva: Triunfo barroco na Sala São Paulo Por Irineu Franco Perpetuo (12/6/2018)
Movimento Violão, 15 anos de atividades eternizadas num lançamento de fôlego Por Camila Frésca (4/6/2018)
Dois elencos, duas Traviatas Por Jorge Coli (28/5/2018)
Uma grande surpresa e um grande concerto para piano Por João Marcos Coelho (25/5/2018)
Suisse Romande: Master class na Sala São Paulo Por Irineu Franco Perpetuo (15/5/2018)
Um matrimônio espirituoso, vivo e musical Por Jorge Coli (8/5/2018)
“Fausto” é novo marco artístico do Festival Amazonas de Ópera Por Nelson Rubens Kunze (7/5/2018)
Clássico em terreno popular: o encantador recital de Cristian Budu na série “Tupinambach” Por Camila Frésca (3/5/2018)
Um "Faust" digno dos grandes teatros internacionais Por Jorge Coli (2/5/2018)
Cristian, Jamil e OER empolgam o Municipal lotado Por Irineu Franco Perpetuo (30/4/2018)
Verdi futurista aterrissa no Theatro Municipal do Rio Por Nelson Rubens Kunze (30/4/2018)
Ótima "Traviata" estreia em Belo Horizonte Por Nelson Rubens Kunze (27/4/2018)
A Camerata Romeu e a reinvenção da música Por João Marcos Coelho (26/4/2018)
Primeira escuta: Ronaldo Miranda estreia obra com a Osesp Por Nelson Rubens Kunze (25/4/2018)
Oito olhos azuis e muita música Por Jorge Coli (19/4/2018)
‘Missa’ de Bernstein é destaque no Theatro Municipal de São Paulo Por Nelson Rubens Kunze (10/4/2018)
“O Corego” e os primórdios da representação operística Por Camila Frésca (6/4/2018)
Natalie Dessay: uma expressão que transcende as palavras Por Irineu Franco Perpetuo (5/4/2018)
Os Músicos de Capella fazem primorosa ‘Paixão’ de Bach Por Nelson Rubens Kunze (29/3/2018)
A música não mente Por João Marcos Coelho (27/3/2018)
Enfim, uma sede para a Ospa! Por Nelson Rubens Kunze (26/3/2018)
A Osesp, Villa-Lobos e o “voo de galinha” Por João Marcos Coelho (23/3/2018)
Jan Lisiecki: para uma temporada de austeridade, um pianista nada austero Por Irineu Franco Perpetuo (14/3/2018)
“Lo Schiavo” em Campinas: encantamento e melancolia Por Jorge Coli (12/3/2018)
Villa-Lobos, a Semana de Arte Moderna e o Brasil Por Camila Frésca (8/3/2018)
“Sexta” de Mahler coroa trabalho artístico do Instituto Baccarelli Por Nelson Rubens Kunze (5/3/2018)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Junho 2018 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
27 28 29 30 31 1 2
3 4 5 6 7 8 9
10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23
24 25 26 27 28 29 30
 

 
São Paulo:

18/6/2018 - Caio Guimarães e Lucas Nogara - pianos

Rio de Janeiro:
19/6/2018 - Maur Trio

Outras Cidades:
19/6/2018 - Recife, PE - Orquestra Sinfônica de Recife
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2018 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046