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Mignone em disco: que Viva México! (6/11/2012)
Por Irineu Franco Perpetuo

Devo confessar que não visto camisa canarinho nem durante a Copa do Mundo, mas o resquício de Policarpo Quaresma que há em mim fica orgulhoso e assanhado quando algum artista estrangeiro se interessa pela música brasileira - não a sempre tão incensada MPB, mas a “outra”, a impopular, a música brasileira de concerto, aquela para a qual nem os artistas e orquestras daqui dão bola.

Isso me fez desenvolver uma simpatia toda especial pelo Cuarteto Latinoamericano, que infelizmente nunca tive o prazer de ver tocar ao vivo, mas cujos discos ocupam um lugar de honra na minha vasta e arcaica coleção de CDs.

Dos quatro mexicanos que formam o grupo, apenas o violista Javier Montiel não morou no Brasil. Os irmãos Saúl, Arón e Alvaro Bitrán residiram no Rio de Janeiro entre 1966 e 1969 - os dois primeiros foram alunos de Alberto Jaffé, enquanto o último foi pupilo de Nídia Otero.


Cuarteto Latinoamericano [foto: divulgação]

Isso ajuda a explicar a ligação especial que eles têm com a nossa música. Ao longo de dez anos gravaram pelo selo Dorian a integral de quartetos de cordas de Villa-Lobos, e até já tocaram o ciclo completo mais de uma vez. Para além das dificuldades técnicas e musicais, tiveram de se defrontar com a notória dificuldade de acesso ao material, e até já lançaram mão de cópias em xerox.

Nada disso, contudo, diminuiu o entusiasmo do Latinoamericano pela música do Brasil, que eles defendem com um apuro e uma garra invejáveis. Seu Villa-Lobos é de referência, e agora, em 2012, celebrando os trinta anos de existência da formação, o grupo lançou, pelo selo Sono Luminus, "Brasileiro", um disco inteiramente dedicado a Francisco Mignone (1897-1986).

Mignone é um nome tão presente nos livros de História da Música no Brasil quanto ausente de nossas salas de concerto. Os autores louvam sua versatilidade, seu caráter prolífico e a riqueza de invenção melódica que fazem dele um dos principais compositores da geração posterior à de Villa-Lobos. Nem todos os panegíricos dos tratados, contudo, são suficientes para comover nossos intérpretes, orquestras e teatros, que se eximem alegremente de executar suas partituras.

"Brasileiro" traz os dois quartetos de cordas do compositor, de 1957, de idioma francamente nacionalista, bem como os Dois Ensaios para quarteto de cordas (1958) e a Seresta nº 2 (1956) para quarteto de cordas duplo - com a participação especial do La Catrina String Quartet -, além de peças menores.

Tocar e gravar essas obras já faria do Cuarteto Latinoamericano uma exceção, mas o que realmente conquista é o senso de estilo, o empenho e a convicção com que o grupo se entrega ao repertório. Comprar um disco hoje pode parecer uma atitude excêntrica e extemporânea, mas esse álbum do Cuarteto Latinoamericano bem vale a extravagância. Tão cedo você não vai ouvir música brasileira sendo tocada em tão alto nível, e com tamanho compromisso.


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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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