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Faltou opereta, sobrou musical (25/10/2012)
Por Nelson Rubens Kunze

Claro, existem algumas vantagens na sonorização de espetáculos musicais, na amplificação de vozes e orquestra. Mas entre elas, certamente não está o incremento da sutileza de dinâmicas, dos harmônicos vocais e das cores orquestrais. Talvez tenha sido isso que ficou mais evidente, para mim, na nova e microfonada produção da opereta A viúva alegre, do Palácio das Artes de Belo Horizonte. Pelo menos para quem espera algo mais próximo do mundo da ópera do que do universo do musical, volumes equilibrados e texto inteligível não compensaram a radical sonorização, que filtrou e achatou as texturas sonoras. É uma pena, considerando que estavam em cena cantores que pertencem à seleção brasileira da música lírica, como Rosana Lamosa, Licio Bruno e Homero Velho.


Cena da ópera A viúva alegre, no Palácio das Artes de Belo Horizonte [foto: divulgação / João Marcos Rosa]

Mas se no quesito vocal esses valorosos artistas – bem como o restante do ótimo elenco, com destaque ainda para Giovannni Tristacci, Carla Cottini, Flávio Leite e Marcos Liesenberg – tiveram suas potencialidades engavetadas, tanto mais eles puderam investir em seus dotes histriônicos, com resultados bem convincentes (especialmente o inspirado Barão Zeta de Licio). E, nesse contexto, o ator Cassio Scapin integrou-se perfeitamente ao time.

A opereta A viúva alegre foi composta em 1905, em Viena, por Franz Lehár (1870-1948), sobre libreto de Victor León e Leo Stein. O título foi escrito em alemão, mas tem versões consolidadas em vários idiomas. Em Belo Horizonte foi apresentada a versão em português traduzida por Millôr Fernandes. A interpretação coube à Sinfônica de Minas Gerais, Coral Lírico de Minas Gerais e Balé Jovem do Palácio das Artes, com direção musical e regência do maestro Silvio Viegas.


Cena da ópera A viúva alegre, no Palácio das Artes de Belo Horizonte [foto: divulgação / João Marcos Rosa]

Um grande cenário (cenografia de Paulo Corrêa) com traços art nouveau que serviu de moldura para os três atos, uma movimentação de atores bem resolvida e figurinos coloridos e algo exóticos (figurinos de Fabio Namatame) compuseram uma encenação funcional e correta, de boa fluência. Com tudo isso, para além da opereta, A viúva alegre do Palácio das Artes resultou em um verdadeiro musical, com direito até de o público cantarolar junto as principais melodias (sem que as pessoas ao redor – fora eu! – se incomodassem). E é natural que atrás de uma concepção dessas estivesse o diretor cênico Jorge Takla, um dos mais refinados profissionais do gênero. Como Takla escreve nas notas de programa, A viúva alegre tem a leveza e a teatralidade de um musical da Broadway e é a matriz do teatro musical que tanto sucesso faz nos dias de hoje. A montagem mineira é prova de que ele tem razão...

O título e a encenação agradaram em cheio à entusiasmada plateia, e no site do Palácio das Artes lê-se que todas as récitas tiveram seus ingressos esgotados (o Grande Teatro comporta 1.700 pessoas!). Contudo, apesar de toda a alegria contagiante da fictícia Pontevedro e dos simpáticos mineiros, valeria a pena rever a exagerada sonorização do espetáculo e valorizar, assim, a riqueza sonora das grandes vozes e da inspirada partitura de Lehár.

[Nelson Rubens Kunze viajou a Belo Horizonte a assistiu à opereta A viúva alegre a convite do Palácio das Arte e da assessoria de imprensa Árvore de Comunicação.]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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