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Um "Macbeth" para guardar na memória e no coração (29/11/2012)
Por Irineu Franco Perpetuo

Foi o ponto culminante de uma temporada de alto nível. Cantores de primeira linha, orquestra tocando em sua melhor forma, e uma direção cênica não menos do que deslumbrante: o Macbeth recém-encenado em São Paulo é uma produção histórica, daquelas que grudam na retina e na lembrança de todo mundo que viu, com vocação para serem comentadas com nostalgia décadas e décadas depois de sua estreia.

A cooperação internacional arrancou o até então provinciano Teatro Municipal de São Paulo da obscuridade, e lançou-o na arena das grandes montagens líricas. Foi um privilégio ver estreada aqui a encenação encomendada e coproduzida pelo Teatro Comunale de Bolonha, uma produção do Change Performing Arts, de Milão, concebida por esse genial visionário chamado Bob Wilson.


Cena da ópera Macbeth, no Teatro Municipal de São Paulo [foto: divulgação]

Neste ano, São Paulo teve o privilégio de passar por uma verdadeira imersão em Bob Wilson. Ele demonstrou seu talento superlativo como ator no monólogo beckettiano A Última Gravação de Krapp, para depois comandar os atores excepcionais do Berliner Ensemble em uma inesquecível A Ópera dos Três Vinténs, de Brecht/Weill, e Lulu, de Wedekind.

Macbeth comprova a versatilidade de Wilson e coroa esse desfile paulistano de suas múltiplas habilidades. Eu já havia me deslumbrado com várias de suas montagens operísticas em DVD (Alceste e Orphée et Eurydice, de Gluck, e Madama Butterfly, de Puccini), mas ao vivo, evidentemente, o impacto é muito maior.

Estão lá as marcas de seu estilo, como as máscaras, o gestual hierático e estilizado do teatro japonês, o sentido de plasticidade que confere a cada cena a beleza de uma instalação, o virtuosismo vertiginoso do jogo de luzes, uma criatividade que surpreende com soluções novas e deslumbrantes a cada cena.


Cena da ópera Macbeth, no Teatro Municipal de São Paulo [foto: divulgação]

Só que tudo isso prestando extrema atenção na música de Verdi e em suas intenções dramáticas. As marcações dos cantores, por exemplo, eram todas na boca de cena - ninguém era obrigado a ficar cantando no fundo do palco e se esgoelando para se fazer ouvir.

E esses cantores se revelaram plenamente à altura tanto do desafio cênico de realizar a movimentação altamente estilizada de Wilson, quanto do desafio vocal da partitura verdiana. Macbeth foi a primeira ópera a qual assisti, em 1982, e, nesses 30 anos, não me lembro de ter visto no Municipal de São Paulo um elenco tão equilibrado e de tão alto nível.

O maior destaque, para mim, foi a Lady Macbeth de Anna Pirozzi, que não saiu do personagem nem na hora dos agradecimentos, e mostrou volume, projeção, intensidade e entrega. Angelo Veccia, no papel-título, revelou-se um barítono verdiano de vocalidade robusta, enquanto Carlo Cigni, como Banco, impressionou a todos pela solidez de seu registro grave.


Cena da ópera Macbeth, no Teatro Municipal de São Paulo [foto: divulgação]

No fosso, Abel Rocha se revelou plenamente à vontade com o estilo verdiano; imprimiu fluência e ritmo ao espetáculo e soube acompanhar os cantores de modo sensível, com a Orquestra Sinfônica Municipal rendendo o que ainda não havia rendido em 2012.

Essa produção de Macbeth coroa uma linha adotada pelo Municipal desde o ano passado que faz, pela primeira vez desde que eu me lembro, o que acontece dentro daquela casa dialogar com a rica, vibrante e inovadora cena teatral da cidade. Com maior ou menor êxito, todas as produções vêm buscando uma linguagem atualizada, plasticamente sólida e teatralmente convincente. Seria um retrocesso dos mais lamentáveis se tal linha fosse abandonada.





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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