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“Werther” fecha temporada lírica do Theatro São Pedro (5/12/2012)
Por Nelson Rubens Kunze

Encerrou-se com a récita de ontem a última produção do ano do Theatro São Pedro, a ópera Werther de Jules Massenet (1842-1912). Baseada no livro de Goethe “Os sofrimentos do jovem Werther” e concluída em 1887, a ópera conta a história de tristeza e desesperança de Werther e Charlotte, que não podem se entregar ao amor em razão da promessa e do comprometimento de Charlotte com seu noivo e depois marido Albert. A direção musical e regência foi do maestro Luiz Fernando Malheiro e a direção cênica de André Heller-Lopes, mesma dupla que tem sido responsável por ótimas montagens nos últimos tempos.


Cena da ópera Werther, no Theatro São Pedro [foto: divulgação / Décio Figueiredo]

E foi a encenação um dos pontos altos da ópera, que teve um bom resultado geral. Com soluções simples – os espaços cênicos eram delimitados por longas cortinas em variadas posições (cenografia de Renato Theobaldo e Roberto Rolnik) –, uma iluminação eficiente (Fábio Retti) e figurinos caprichados (Marcelo Marques), Heller-Lopes criou um ambientação bonita e funcional. Se a opção de apresentar Charlotte grávida reforçou a presença do marido Albert como empecilho para a consumação de seu amor por Werther, ela infelizmente também acabou retirando força da identidade de Charlotte como mulher. Mas foi muito feliz a solução para o ato final, quando Werther se “separa” de seu corpo moribundo e sua morte se dá com sua saída de cena, potencializando todo o desespero e a solidão de Charlotte.

Esta récita apresentou a versão de Werther para barítono, preparada por Massenet em 1902 para o grande barítono da época, Mattia Battistini. E se na comparação com o registro de tenor a versão causa certo estranhamento, não foi pelo desempenho de Leonardo Neiva, que tem voz bonita e privilegiada e que fez uma interpretação muito convincente do papel. Mas o destaque da noite ficou mesmo para a ótima Luisa Francesconi como Charlotte. Apesar do recatamento que o papel exige, Luisa soube exprimir toda a intensidade de seu dilema, com uma voz de rico timbre e muita personalidade.


Cena da ópera Werther, no Theatro São Pedro [foto: divulgação / Décio Figueiredo]

Sophie, irmã de Charlotte, foi feita pela ótima soprano Gabriella Pace, que por sua exuberância destoou um pouco do clima emocional romântico da peça, que vai da esperançosa primavera ao trágico inverno. Já o barítono Vinícius Atique teve boa atuação tanto vocal quanto cênica interpretando o marido Albert. Thiago Soares (Schmidt), Max Costa (Johann), os atores Vanessa Portugal e André Dallan e o Coral Infantil Canarinhos da Terra também participaram da apresentação.

Mesmo tendo ganhado mais fluência a partir do segundo ato, a Orquestra do Theatro São Pedro ficou aquém do nível geral do espetáculo. É certo que o maestro Luiz Fernando Malheiro soube imprimir o caráter que a partitura exige, mas em um título em que a música é a grande protagonista – especialmente por sua inspiração melódica – a orquestra ficou devendo sutilezas de dinâmica, texturas mais equilibradas, até afinação e precisão rítmica.


Cena da ópera Werther, no Theatro São Pedro [foto: divulgação / Décio Figueiredo]

Faz exatamente um ano que a Secretaria de Estado da Cultura firmou o contrato com a Organização Social Instituto Pensarte para a renovação da então desgastada gestão do Theatro São Pedro. Após uma conturbada fase de transição que derrubou dois maestros (Roberto Duarte e Júlio Medaglia), parece que agora formou-se uma equipe harmoniosa, o que aponta para boas perspectivas para o futuro. Em todos os casos, o novo Theatro São Pedro pode registrar um bom balanço neste ano, com três consistentes produções – o excelente Elixir do amor em junho, o Barbeiro de Sevilha de Paisiello em setembro e esse Werther.

Para o Theatro São Pedro, 2012 foi um ano auspicioso. Torçamos para que os próximos anos entrem para a história do Theatro como aqueles em que a sua vocação lírica finalmente se consolidou em programações regulares e de qualidade.

[Emenda em 6/12: No elenco, esqueci-me de mencionar a participação de Murilo Neves como Le Bailli.]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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