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Neschling: o novo técnico do Municipal (22/2/2013)
Por Irineu Franco Perpetuo

Ainda não é hora de começar o ensaio, e a orquestra já está toda perfilada – músicos em seus lugares, com os instrumentos afinados, e sabendo perfeitamente o que devem tocar, já que levaram as partes para estudar em casa.

Corriqueira no cotidiano das orquestras germânicas, a cena acima só merece ser descrita pelo inusitado do local que a sediou. Essa foi a rotina do Teatro Municipal de São Paulo, na primeira semana de ensaios de seu novo diretor artístico, John Neschling – e demonstra de modo eloquente o clima que tem reinado na casa desde que o inventor da Osesp foi designado para o cargo.


John Neschling [foto: Revista Concerto/ Carlos Goldbrug]

Só alguém muito ingênuo vai achar que a recentemente auto-imposta disciplina dos corpos estáveis está dissociada da reputação de irascível autocrata que acompanha o regente. Por mais que o discurso atual de Neschling faça a linha “Johnnynho paz e amor” (nas palavras do próprio maestro), ainda reverberam nos ouvidos de todos as lendas sobre seus acessos de fúria e 'chibatadas' – conforme experimentaram na própria pele, inclusive, antigos membros da Osesp que buscaram refúgio no Municipal.

Por outro lado, talvez seja necessária dose ainda maior de simplicidade de espírito para imaginar que brados e chicotes sejam suficientes para pacificar a Praça Ramos de Azevedo. Fosse assim e o Municipal não necessitaria de um regente, mas de um domador de circo. Todos se lembram como, em anos recentes, maestros tentaram se impor aos músicos da casa na base dos impropérios em decibéis elevados, sem obter outro prêmio que não o escárnio e o descrédito generalizado.

É evidente que, muito mais do que pela “fama de mau”, Neschling se impõe por suas incríveis façanhas na Osesp, quando ele mudou a cara do meio musical brasileiro e estabeleceu um novo paradigma de excelência nessa área.

Deve-se a esse capital acumulado de credibilidade o fato de que, mesmo antes da chegada de Neschling ao Municipal, quando seu nome não era mais do que boato, tenha se instaurado no teatro um clima de “agora vai”. Uma sensação de que, após anos de descaso, em que os gestores da casa pareciam vê-la antes como fardo do que como patrimônio, ela finalmente teria à sua frente alguém que, em vez de se evadir dos problemas, tinha a clara disposição de enfrentá-los de frente – bem como as qualificações e o respaldo político para tanto.


John Neschling [foto: Revista Concerto/ Carlos Goldbrug]

E é exatamente nesses problemas que Neschling tem centrado o seu discurso. Ele e o novo diretor geral do teatro, José Luiz Herencia, herdaram da gestão anterior o mais kafkiano dos imbróglios jurídicos, uma fundação que parece ter sido concebida nos mínimos detalhes para não funcionar.

Em vez, contudo, de fechar novamente o teatro e se entregar a lamúrias sobre a herança maldita, ambos estão arregaçando as mangas e prometendo enfrentar de frente a tenebrosa precariedade administrativa do Municipal (que já abordei em diversos textos anteriores e, portanto, me eximirei de voltar a descrever aqui).

Faz parte da natureza de toda lua-de-mel ter uma data de vencimento bastante precoce. O que se espera não são anos de arrulhos e carícias entre regente e corpos estáveis, mas sim que esse clima inicial favorável ajude a estabelecer condições de trabalho profissional duradouro em uma casa notabailizada pela gambiarra.

Promessa, como se sabe, tem caráter de dívida. Quem desperta imensas expectativas deve estar consciente de que a cobrança virá em igual proporção. O Municipal é o time pelo qual toda a São Paulo musical torce: o novo técnico tem currículo vencedor, e todos nós queremos que ele dê certo. Mas estaremos prontos para apupá-lo e pedir sua cabeça se os resultados não aparecerem.


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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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