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China e sua olimpíada musical (11/8/2008)
Por Leonardo Martinelli

Desde o final da semana passada os olhos do mundo estão voltados para Oriente, onde está em curso a mais recente edição dos jogos Olímpicos, sediados em Pequim, capital da China. Milhares de expectadores viram pela TV e pela internet a cerimônia de abertura dos jogos. Devido a suas dimensões espetaculares, seus efeitos visuais e o colorido de sua pirotecnia alguns críticos a chamaram de "hollywoodiana", algo perfeitamente plausível se lembrarmos que quem a concebeu foi Zhang Yimou, diretor de cinema mundialmente conhecido por seu filme "O clã das adagas voadoras".
Mas paralelamente ao apelo visual do espetáculo, é importante notar a importância que a música teve para que a magnitude de seu impacto fosse total. Tal como num filme de Hollywood, a festa foi integralmente permeada por música orquestral típica do film music norte-americano. Fortemente impregnado por clichês pop, apenas esporadicamente emergiam referências às práticas musicais chinesas, de certa forma evitada para manter a áurea de música universal.
Nos jogos, a música está inserida de uma forma muito mais sistemática e calculada do que nosso ouvido de espectador esportivo pode deixar transparecer.
O responsável pela música desta Olimpíada é o compositor Chen Qigang. Tendo migrado na década de 1980 para Paris, quando Chen passou a compor para filmes - aproveitando a carona do "boom" do cinema chinês - ele logo se familiarizou com os clichês que dominam este mercado, sempre pronto a adicionar uma pitada oriental quando necessário.
Compositor de grande reputação em seu país - comparada apenas à de Tan Dun, que já regeu a OSESP anos atrás - Chen foi convidado para coordenar a parte musical das Olimpíadas, que em sua abertura aproveitaria também para mostrar ao mundo a empreitada que a China tem realizado através da música clássica. Além de compor, Chen coordenou uma equipe de cinqüenta compositores (sic!), que forneceriam material musical para as mais diferentes ocasiões dos jogos.
Tal como com a Olimpíada, a China tem levado a música clássica muito a sério ao longo das últimas décadas, principalmente após o relaxamento do policiamento cultural da "Revolução Cultural" (isto é, a versão oriental do jdanovismo soviético). Hoje em dia milhares de jovens estudam freneticamente instrumentos ocidentais nas muitas escolas espalhadas pelo país, e tal como ocorre com atletas promissores, aqueles que porventura se destacam na cena musical internacional caem nas graças do patronato do Partido.
Se para os jogos o governo construiu seu "ninho" (isto é, o Estádio Olímpico), a música, por sua vez, ganhou seu "ovo", nada mais que o suntuoso Centro Nacional de Artes Performáticas, um complexo arquitetônico que incluiu uma sala de concertos e outra de ópera.
Ultimamente tem se falado muito da China como a próxima super-potência clássica: milhares de estudantes, dezenas de orquestras, vários talentos e virtuosos que estão a fascinar o Ocidente e, dizem, prestes a desbancar europeus e americanos de norte a sul. Porém, já se faz tempo de um olhar crítico, pois facilmente se confunde "potência artística" com "mercado consumidor", coisas muito diferentes e que no caso da música clássica chinesa ainda está por se separar melhor o joio do trigo.
Enquanto Beethoven ganha terreno em solo longínquo é no mínimo irônico constatar que, neste ínterim, a fascinante música tradicional chinesa tornou-se cada vez mais distante de seu povo, estando hoje em dia praticamente reservada ao alcance dos turistas ocidentais.

 





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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