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Música para não esquecer o Holocausto (9/4/2013)
Por Marco Aurélio Scarpinella Bueno

Em sua mais recente visita a São Paulo, em encontro com jornalistas na Sala São Paulo, o maestro Gustavo Dudamel afirmou que a “música clássica não é a música dos nossos avós, dos nossos pais, é a nossa música também. Quando se toca ou mesmo quando se ouve música, há a percepção de uma infinidade de possibilidades, e isso ajuda no dia a dia. A arte pode ser uma forma de se comunicar com a realidade”.

Tal pensamento é bastante oportuno se levarmos em conta que no último dia 8 de abril (correspondente ao 27o dia do mês de Nissan segundo o calendário hebraico), a comunidade judaica recordou o Yom haShoá (Dia do Holocausto) com toques de sirene e cinco minutos de silêncio, para que o mundo se lembre dos seis milhões de judeus assassinados durante o Holocausto. A data hebraica remonta à véspera do Pessach (a Páscoa Judaica) de 1943, quando se iniciou o levante do Gueto de Varsóvia, símbolo da resistência judaica contra o nazismo.

Por vezes “comunicar-se com a realidade” envolve advertir a Humanidade para que tais barbáries não se repitam, e vários compositores usaram da sua arte para tal. Quando o “cerebral” Arnold Schönberg (que fugiu da Alemanha nazista em outubro de 1933) soube das atrocidades do Holocausto em 1947, compôs O sobrevivente de Varsóvia, para recitador, coro masculino e orquestra, a partir de relatos de um judeu polonês que sobreviveu ao gueto de Varsóvia. Escutem com atenção e sintam como a escrita dodecafônica pode se prestar à emoção! Em menos de dez minutos, Schönberg expõe todo o horror nazista. O Sobrevivente, que se expressa em inglês, é espancado ao testemunhar os amigos que são levados às câmaras de gás, enquanto o sádico oficial do campo ordena, em alemão, mais e mais brutalidades. No clímax, o coro de judeus entoa o hino litúrgico Shemá Israel Adonai Elohêinu Adonai Ehad (Escuta Israel nosso Deus é único), a mais importante profissão da fé judaica. É um verdadeiro soco no estômago!


Arnold Schönberg [foto: divulgação]

Cerca de 40 anos depois, o norte-americano Steve Reich completou Different Trains (1988) para quarteto de cordas e sons pré-gravados. Minimalista em sua essência, Trains foi escrita em três movimentos, e o segundo deles – Europa durante a guerra – também fala de sobreviventes e de suas experiências durante o Holocausto. Reich queria que “os depoimentos falados dessem origem ao material musical, de tal forma que a obra representasse tanto um documento histórico quanto uma realidade musical”.

Mas infelizmente os sobreviventes do Holocausto foram minoria na História. Que o digam os talentosos Viktor Ullmann e Erwin Schulhoff, exterminados no campo de Theresienstadt (atual República Tcheca), cuja parte da obra foi dignamente resgatada graças a um projeto organizado pela meio-soprano Anne Sofie von Otter. Também na República Tcheca fica a pequena cidade de Lídice, celebrada pelo eclético Bohuslav Martinů em Memorial a Lídice (1943), partitura orquestral que retrata o massacre de seus habitantes (não apenas judeus) pelos nazistas como vingança pela morte de um oficial da SS. Na então oficialmente ateísta União Soviética, Dmítri Shostakóvitch fez questão de não deixar que as autoridades varressem para debaixo do tapete o antissemitismo de Stálin e seus colaboradores, ao escolher os versos do poeta Ievguêni Ievtuchenko para escrever sua Sinfonia nº 13 (1962) para barítono e orquestra sintomaticamente intitulada Babi Yar, em referência à ravina existente em Kíev, onde cerca de 90 mil judeus ucranianos (e tantos outros ciganos, homossexuais e opositores do regime) foram levados à força e sumariamente fuzilados entre 29 e 30 de setembro de 1941.

Muito interessante é a ópera A passageira, do judeu-polonês-russo Mieczysław Váinberg. Nascido Weinberg, em 8 de dezembro de 1919, em Varsóvia, fugiu da Polônia depois de sua família ter sido assassinada pelos nazistas. Na fronteira da Bielorússia foi abordado por um guarda que lhe teria perguntado: “É judeu? Então será chamado de Moisêi Váinberg”, alegando que a grafia polonesa era muito complicada. Em 1985, durante a pierestróika, voltou a assinar Mieczysław, mantendo a transliteração russa do Váinberg. Aluno informal de Shostakóvitch, pianista talentoso e compositor prolífico, a vida de Váinberg daria um belo filme. Foi casado com a filha de Solomon Mikhoels, o ator-diretor ídiche mais importante de seu tempo, que se tornou inimigo nº 1 de Stálin ao reivindicar a criação de uma República Judaica Autônoma na Criméia. Em fevereiro de 1953 foi preso sob a acusação de ser um dos “agentes sionistas” envolvidos no plano de assassinar o Grande Líder; plano este supostamente idealizado por ninguém menos que o tio de sua esposa, o médico Míron Vovsi, e que entrou para a história como o “Complô Médico”, assinalando o ponto alto da paranoia antissemita de Stálin. Foi Shostakóvitch quem interveio em favor de Váinberg junto à KGB, e no final das contas a morte de Stálin, em março de 1953, livrou o compositor e o Dr. Vovsi da sentença capital. Para celebrar a soltura, Shostakóvitch e Váinberg jantaram à luz de velas que foram mantidas acesas com os papéis do processo judicial.


Cena da ópera A passageira, de Mieczysław Váinberg [foto: divulgação]

Completada em 1968, A passageira tem o libreto de Aleksandr Medvedev e baseia-se no romance homônimo da polonesa Zofia Posmysz-Piasecka sobre o reencontro de uma vítima e seu algoz em Auschwitz. Encenada pela primeira vez em 2010, no Festival de Bregenz (Áustria), é um espetáculo poderoso, tanto musicalmente quanto cenicamente. Feita prisioneira em Auschwitz aos 18 anos, Zofia Posmysz sobreviveu ao Holocausto e se tornou famosa em seu país natal após a transmissão radiofônica de sua novela A passageira da cabine 45, material que serviu de base para a novela literária publicada primeiramente em 1962. A própria Posmysz, hoje com 88 anos, conta como nasceu a história. Durante uma viagem a Paris, em plena Place de La Concorde, identificou no meio de um grupo de turistas alemães a voz de um dos guardas responsáveis por sua cela em Auschwitz. “É impossível esquecer!”, afirma a escritora.

A bordo de um transatlântico, o casal de alemães Walter e Lisa planeja a chegada ao Brasil, onde o marido assumirá um importante posto diplomático. Lisa, uma ex-oficial da SS, reconhece entre as passageiras a figura de Marta, uma jovem polonesa que fora sua prisioneira em Auschwitz, e que julgava morta há tempos. A revelação do segredo de Lisa estremece sua relação com o marido, que teme pelo futuro promissor. A partir de então a história transcorre entre o passado e o presente. No campo de concentração as lembranças não querem se calar! Marta sobrevive, juntamente com outras prisioneiras vindas de diversas partes da Europa, em uma rotina cruel, a de recolher os pertences das vítimas encaminhadas para as câmaras de gás. A então poderosa Lisa inveja a camaradagem entre as mulheres e, sabendo que Tadeusz, noivo de Marta, também é prisioneiro, tenta manipulá-lo, sendo sempre rechaçada. De volta ao navio, Lisa e Walter têm que se confrontar com a situação atual, tentando buscar justificativas para o que ocorreu, mesmo que cada encontro com Marta signifique reviver o doloroso passado.

Mais do que o mote de “estava apenas cumprindo ordens” defendido por Lisa, A passageira é uma história sobre a consciência dos atos, e Váinberg foi muito feliz do ponto de vista musical ao ilustrar esse fato. Há passagens belíssimas, como o momento em que uma das prisioneiras, Ivette, tenta ensinar francês à Bronka, uma simples fazendeira, tomando como ponto de partida a conjugação do verbo Vivre (Viver), ou então a canção folclórica russa Dolina-Dolinuschka (Vale, pequeno vale) cantada pela partisan Kátia enquanto sonha com o final da guerra. A principal alteração do libreto de Medvedev e Váinberg em relação à novela de Posmysz é fazer de Tadeusz um violinista, de tal forma que caberá a ele o surpreendente ato de rebeldia ao se confrontar com os oficiais nazistas na última cena. Era prática comum exigir dos prisioneiros músicos que se apresentassem aos oficiais nazistas em saraus, cujo repertório era previamente determinado (foi assim que se deu a estreia do Quarteto para o final dos tempos, de Messiaen). Mas ao invés da tão esperada “valsa do governador” exigida pelo alto comando, Tadeusz começa a tocar a Chacona da Partita para violino solo BWV 1004 de Bach, primeiro sozinho, depois acompanhado pela massa orquestral, o que só aumenta a carga emocional da música. Uma tentativa de colocar ordem no caos!

Clássicos Editorial Ltda. © 2013 - Todos os direitos reservados.
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Marco Aurélio Scarpinella Bueno - é médico e pesquisador musical.

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