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Bis, para que te quero? (26/4/2013)
Por Leonardo Martinelli

Terça-feira passada fui à Sala São Paulo para conferir a segunda apresentação paulistana da Orquestra Sinfônica de Montreal, conduzida pelo seu titular, o maestro Kent Nagano. A orquestra, que é relativamente bem cotada no cenário, realizou uma boa apresentação, enfatizando a música programática de compositores russos e franceses dos séculos XIX e XX, com um menu trazendo finas especiarias de Berlioz, Ravel, Korsakov e Stravinsky.

Fui à referida apresentação com a ideia de fazer uma resenha sobre a atuação da orquestra, do maestro e do solista, mas os eventos que ocorreram após a apresentação no “tempo regulamentar” (se me permitem a metáfora futebolística) me fizeram mudar de ideia.

Findo o repertório programado com uma boa interpretação de Sheherazade de Korsakov, e embalado pelo seu final vigoroso e entusiasmante, nada mais natural que a audiência respondesse com uma entusiasmada salva de palmas. Depois de algumas idas e vindas do palco aos bastidores, Nagano subiu novamente ao pódio e anunciou a abertura da ópera Guilherme Tell de Rossini como bis.


Kent Nagano [foto: divulgação]

Trata-se de uma obra relativamente grande para ser usada como bis. Não raro ela é tocada dentro do programa regular. Em todo caso, a escolha se mostrou certa pelo motivo mais importante: sua interpretação soou uma das melhores coisas da noite.

Mas minha boa impressão com a orquestra canadense e o maestro Nagano mudaria em um instante. Ou evocando os versos da canção Não vale a pena, de Jean e Paulo Garfunkel, “De repente cai o nível / E eu me sinto uma imbecil”.

Aparentemente seguindo um estranho protocolo do gênero “concerto em modo plateia de terceiro mundo” maestro e orquestra atacam um dos trechos mais conhecidos da Suíte n° 1 de L'Arlésienne de Bizet. O problema não está necessariamente na peça e no apelo “levanta multidões” de seu conhecido tema, mas sim no desleixo, descompromisso e pouco interesse artístico que os músicos (maestro incluso) executaram (verbo de duplo sentido) a referida obra. Mas o pior mesmo estaria por vir.

No terceiro bis, começou-se a tocar o Bolero de Ravel da metade em diante. Como assim? Um dos grandes méritos desta famosíssima peça é justamente a sugestão de hipnose e transe musical que somente sua escuta desde seus primeiros compassos em pianissimo pode proporcionar.

E, no mal sentido, a Sinfônica de Montreal conseguiu se superar. Arcos se cruzando sem sincronia, sopros gritados, coesão sonora no nível zero tal como numa orquestra amadora. Alguns músicos sorriam e se entreolhavam de forma esquisita. De novo os versos de Garfunkel me voltaram à mente. “De repente cai o nível / E eu me sinto uma imbecil”...

O público que ainda estava na sala (muitos, bem à moda paulistana, já tinha fugido, mas apenas para evitar a fila na saída do estacionamento) adorou. Mas eles não têm culpa: cabe sempre aos artistas nivelarem por cima o que se propõe a fazer no palco, não importa as circunstâncias.

Não é a primeira vez que isso acontece (e temo pela certeza que não será a última). Por exemplo, ano passado, quando a Orquestra Sinfônica da Rádio Alemã de Berlim realizou incríveis apresentações sob a batuta de Vladimir Ashkenazy a boa impressão do excelente trabalho foi azedada por um bis infeliz, um arranjo de algum “krássico” da música popular brasileira travestido com uma roupagem sinfônica paupérrima, e pior, com uma interpretação destituída de qualquer senso de ritmo ou suingue, com um gingado bem teutônico. De novo, um claro exemplo de bis pensado para “plateias do terceiro mundo”.

Afinal, para que serve um bis?

Se dentre as muitas metáforas que podemos fazer com um concerto optarmos pela relação amorosa, um bis deveria ser o momento mais sublime de uma noite. Depois de concretizado todos os ritos e atos previstos na ação que levaram de livre e espontânea vontade as pessoas envolvidas àquela câmara ardente (ou seja, a sala de concerto-alcova) o bis é algo que se mostra pertinente somente após a constatação da experiência excepcional que acabou de ocorrer. Podemos e devemos deixar algo preparado, mas nem sempre é algo que devemos fazer.

Quando o bis se torna algo protocolar, uma obrigação, seu poder revela-se inversamente proporcional. Pior ainda são esses bis direcionados, que reforçam os piores estereótipos que tanto devemos nos distanciar no micro-mundinho da ópera e da música de concerto. De nossa parte, porque uma orquestra ou músico brasileiro que por ventura esteja no exterior precisa necessariamente encerrar sua apresentação com um “baião sinfônico”, uma “bossa nova de câmara” ou outros engodos musicais deste tipo?

Da próxima vez, juro que vou pensar muito antes de insistir com minhas palmas e me juntar à massa que clama por um bis, pois ultimamente o post coitum musical só anda decepcionando.





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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