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Musical ruim abre ano “lírico” do Theatro Municipal (8/5/2013)
Por Nelson Rubens Kunze

“Você tem que elevar o seu nível de exigência”, disse-me o maestro John Neschling em tom jocoso, em um almoço com jornalistas, quando assumiu a direção artística do Theatro Municipal de São Paulo. A tirada veio em resposta a minha declaração, de que tínhamos tido, no ano passado, uma das melhores temporadas líricas da história recente do teatro.

Recordei-me desse comentário ao sair ontem, dia 7 de maio, da primeira montagem da nova gestão do Theatro Municipal: a ópera Ça Ira – Há esperança, do músico Roger Waters, líder do histórico grupo de rock progressivo Pink Floyd. Não creio que esta Ça Ira atenda àquele nível de exigência ao qual o maestro Neschling se referia naquele almoço. É verdade, o maestro sempre manteve distância prudente desse título, que, como sempre disse, já veio incluído no pacote que recebeu ao assumir o teatro. Mas é um balde de água fria para a comunidade cultural que a primeira ópera a ser apresentada no Theatro Municipal este ano, após meses de silêncio lírico, seja um arremedo medíocre de musical.


Cena da ópera ÇA IRA – HÁ ESPERANÇA [fotos: divulgação / Carol Sachs]

A obra é ruim. Na partitura, o problema não é o fato de ser tonal ou baseada em uma linguagem do século 19. A música é simplória e desprovida de qualquer desenvolvimento dramático. São motivos que se encadeiam com pouca originalidade. As linhas melódicas vocais são acompanhadas de forma quase que paralela pela orquestra. Algumas passagens corais – se é que é possível denominar assim o canto em uníssono dos diversos registros – são francamente constrangedoras. Pelo menos, em algumas partes, a sonoplastia mesclada aos sons da orquestra ajudou a superar as carências da escrita.

O enredo, baseado em libreto de Étienne e Nadine Roda-Gil, é de frases justapostas, uma sequência de ideias ingênuas, prenhes de moralidade, que convergem para a grande mensagem final (banal) da fraternidade, igualdade e liberdade. A gente sabe o que foi a Revolução Francesa e os personagens (Marie Antoniette, Marie Therese, Louis XVI) dão algumas dicas. Contudo, quem não leu o texto introdutório do diretor André Heller-Lopes no programa dificilmente decifrará que aquelas figuras representavam o povo libertário deslocado, como loucos, para dentro de um manicômio. Heller-Lopes, conforme seu texto, utilizou-se do universo de Arthur Bispo do Rosário, genial artista que viveu a maior parte da vida internado em um hospital psiquiátrico. Os elementos de cena que eventualmente remetessem a isso, contudo, são pontuais.


Cena da ópera ÇA IRA – HÁ ESPERANÇA [fotos: divulgação / Carol Sachs]

Mas, dada a explicação, são o impactante cenário (Renato Theobaldo e Beto Rolnik), uma iluminação competente (Fabio Retti) e uma funcional e apropriada direção de cena (André Heller-Lopes) os pontos altos produção. Os dois atos se passam no mesmo ambiente de manicômio ladeado por uma biblioteca, em soluções cênicas bonitas e inteligentes.

Todos os protagonistas – e subiram ao palco alguns de nossos mais valorosos cantores líricos (Gabriella Pace, Leonardo Neiva, Marcos Paulo, Lina Mendes, Eduardo Amir, Giovanni Tristacci, Leonardo Pace, David Marcondes e Keila de Moraes) – cantaram microfonados com resultados, senão insatisfatórios, bastante desiguais (por que não se chama um cantor de musical para cantar um musical?). A orquestra, conduzida pelo maestro Rick Wentworth, foi irregular. Wentworth, como leio no programa, é o autor da orquestração e um especialista em música para cinema.

Nível de exigência pra cá, nível de exigência pra lá – eu sei mesmo é que me deu saudades da programação do Municipal do ano passado. Sabemos como é difícil estabelecer uma linha artística consistente e de alto nível dentro de uma programação anual. Com um recuo de alguns meses e assistindo agora a essa Ça Ira consolidou-se a minha certeza de que a temporada que tivemos no ano passado, com direção artística de Abel Rocha, foi mesmo excepcional. Que venha finalmente a nova temporada lírica do Theatro Municipal!


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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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