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Quase ópera, quase musical. "Ça Ira", um bom entretenimento (10/5/2013)
Por Marcos Fecchio

Sabe quando um amigo recomenda aquele doce especial, que você não pode deixar de comer de tão divino? No dia seguinte você vai atrás daquela iguaria certo de encontrar o manjar dos deuses, e fica um pouquinho decepcionado, de tão grande que era a expectativa. Pois bem, o contrário também deve ser verdade. Apesar de ter sido o editor do programa da ópera ÇA IRA - Há Esperança (coloco aqui minha parcela de parcialidade no caso e, como diz Irineu Perpetuo, se preferir pare a leitura por aqui), não vi os ensaios e somente consegui assistir à última récita – não havia um ingresso sequer, tamanha a procura!! E minha prévia leitura da crítica de Nelson Kunze [leia aqui] havia me deixado tão preparado para assistir a um show de horrores, que ao chegar ao Municipal de São Paulo tive uma experiência curiosa.

Em um primeiro momento o choque é grande. Como assim uma ópera com cantores microfonados? Como assim uma ópera contemporânea pra lá de tonal, com uma música banal e uma escrita baseada em clichês e versões simplificadíssimas dos grandes mestres do romantismo? Como assim uma ópera que é uma colcha de retalhos, de uma história que não evolui? Como assim sonoplastia o tempo todo, de pássaros, trovões, vento e sons de guilhotinas? Como assim, o coro canta em uníssono!!!?? Uma a uma as palavras de Nelson Kunze iam fazendo sentido, para uma crítica justa a uma ópera. Mas aí é que está a questão de Ça Ira, do roqueiro Roger Waters. Ela não é uma ópera, pelo menos não como costumamos rotular por aqui. E acho que nem pretende ser. Após esse ‘clic’, vale recomeçar a escuta.


Cena da ópera ÇA IRA – HÁ ESPERANÇA [fotos: divulgação / Carol Sachs]

Quem já não chegou na vídeo locadora e pensou “acho que hoje não quero rever O Sétimo Selo, vou pegar uma comédia romântica com a Meg Ryan”. Com Ça Ira musicalmente vale a pena deixar o cérebro na chapelaria do teatro. E lá dentro o que você vai ouvir é uma trilha sonora, feita e regida por um especialista em trilhas sonoras de Hollywood, o maestro Rick Wentworth, responsável pela orquestração das canções de Roger e que foi o autor das músicas dos principais filmes de Tim Burton, como Alice no País das Maravilhas, A Fantástica Fábrica de Chocolates e Noiva Cadáver. E se Wentworth trabalhou a partir de melodias de Roger Waters, vale lembrar que com um violão e três ou quatro acordes se toca a maior parte dos célebres rocks dos Beatles e companhia.

A sorte nesse caso é que o ‘filme’ que fomos ver no Municipal tinha alguns dos melhores atores/cantores da nossa praça. Gabriella Pace, Leonardo Neiva, Marcos Paulo, Lina Mendes, Eduardo Amir, Giovanni Tristacci, Leonardo Pace, David Marcondes e Keila de Moraes mostraram qualidades vocais e cênicas, apesar do microfone especialmente descalibrado do narrador Leonardo Neiva. E também para nossa sorte, o cenário de Renato Theobaldo e Beto Rolnik é bem pensado e com uma ótima realização, e fica mais valorizado com a luz de Fabio Retti. Pra amarrar tudo isso, a concepção e direção de André Heller-Lopes soube criar uma movimentação cênica dinâmica e interessante, explorando a biblioteca, os véus nas macas-beliche e a profundidade do palco, principalmente no primeiro ato – o segundo cansa um pouco pela repetição dos modelos.


Cena da ópera ÇA IRA – HÁ ESPERANÇA [fotos: divulgação / Carol Sachs]

Com o encéfalo devidamente acondicionado, é até divertido perceber uma pitada do The Wall do próprio Roger - quando no comando do Pink Floyd - na entrada militar dos médicos do manicômio; ver Leonardo Neiva em um momento Gene Kelly em Cantando na Chuva, com seu giro de guarda-chuva em punho; perceber a medonha dancinha sincronizada do coro à la Michael Jackson em Thriller. E tem também canção com tambores que lembra os desenhos da Disney e mais um punhado de referências, algumas de gosto duvidoso, devidamente acompanhadas por linhas melódicas não menos referenciadas.

Ao final, apesar da queda de ritmo do segundo ato, o público que abarrotava o Municipal, que assistia àquilo que entendi como puro entretenimento, veio abaixo em aplausos e assobios. Olhando para aquelas pessoas, muitas delas bem distintas do público que costumamos encontrar nas óperas, dá pra pensar que o pseudo-musical, pseudo-ópera de Roger Waters pode sim estar naquela lacuna que procuramos encontrar, da ponte entre o erudito e o popular, sem entrar no crossover. Eu mesmo fui comprar o vinil com o Réquiem de Mozart após ouvir a Lacrimosa que aparece no filme Amadeus de Milos Forman. Meu ‘MP3’ tinha na época uma fita de 90 minutos com Assim falou Zaratustra no lado A e The Wall no B. Quem sabe o público que gostou de Ça Ira e de estar no belíssimo Municipal de São Paulo não volta ainda este ano para ouvir uma ópera ‘de verdade’ na temporada do Municipal ou do Theatro São Pedro.

Na saída, quase esqueci da chapelaria.



Cena da ópera ÇA IRA – HÁ ESPERANÇA [fotos: divulgação / Carol Sachs]


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Marcos Fecchio - é editor de web da Revista CONCERTO, coordenador de comunicação e projetos especiais da CLÁSSICOS Editorial e editor do Theatro Municipal de São Paulo.

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