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Tinetti e Monteiro: pianistas e professores em CD (20/5/2013)
Por Irineu Franco Perpetuo

Que tenha tanta gente de São Paulo aparecendo entre os jovens talentos do piano brasileiro não é obra do acaso – mas tampouco tem a ver com esdrúxulas teorias de supremacia bandeirante, ou com a qualidade das águas dos rios Tietê e Pinheiros.

A razão é das mais prosaicas: a Pauliceia desfruta da sorte de abrigar alguns dos mais talentosos formadores de talentos pianísticos do Brasil. Lançamentos recentes do selo Lami, da USP, ilustram que, além de pedagogos infalíveis, Gilberto Tinetti e Eduardo Monteiro fornecem o melhor dos exemplos à juventude por meio da solidez e seriedade de seu fazer musical.

Em Pianíssimo, programa que comanda desde 1986 na Cultura FM, Tinetti é apresentado como “pianista e professor”. Poderia, sem falsa modéstia, reivindicar o título de decano do piano paulista. Lecionou na USP entre 1980 e 2002 e, aos 81 anos, continua não apenas ativo, como relevante.


Gilberto Tinetti e Eduardo Monteiro [fotos: divulgação]

A finesse da fase “madura” de Tinetti resplandece no primeiro dos dois CDs dedicados a ele, Homenagem a Gilberto Tinetti Vol. 1, no qual seu teclado se junta ao clarinete de Luis Affonso Montanha e aos membros do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo no Trio para clarineta, violoncelo e piano, Op.114, de Brahms, e no Quinteto para piano e cordas, op. 84, de Elgar – vigoroso e algo negligenciado documento do Romantismo tardio, que esta gravação dá vontade de ouvir com maior frequência.

Se o primeiro disco mostra a faceta de Tinetti como consciente e atento músico de câmara, o segundo nos remete a estágios anteriores de sua carreira, como advogado da música de dois dos maiores compositores brasileiros do século XX.

Em precioso documento de 1970, ele demonstra um pianismo exuberante e extrovertido no Concerto nº 4 para piano e orquestra de Villa-Lobos, com a Orquestra Filarmônica da ORTF, sob regência de Jean Fournet. O disco é complementado por um registro de 1960, no qual ele nos faz esquecer o por vezes ingrato som pianístico da Rádio MEC daquela época em uma saborosa e idiomática leitura das Quatro sonatinas de Camargo Guarnieri.

Quando Tinetti se aposentou da universidade, em 2002, a USP foi buscar no Rio de Janeiro um substituto à sua altura. Eduardo Monteiro, 46, tornou-se doutor em musicologia pela Universidade de Paris IV – Sorbonne, em 2000, defendendo uma erudita e iluminadora tese sobre Henrique Oswald (1852-1931), que muito valeria a pena ser publicada em livro.

Enquanto isso não acontece, Monteiro demonstra sua enorme familiaridade com o refinado idioma do compositor no CD Música de Câmara - Henrique Oswald, em que interpreta algumas de suas obras de câmara com os membros do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo.

Com fluente e esclarecedor texto de encarte assinado pelo próprio Monteiro, o disco traz algumas miniaturas deliciosas de ouvir, mas seu maior atrativo, evidentemente, são as obras de fôlego: o Quinteto para piano e cordas Op. 18 e o Quarteto para piano e cordas Op. 26.

Esse último recebe uma execução especialmente matizada, que coloca em relevo as sutilezas e encantos de nosso primeiro grande mestre da música de câmara – um compositor que o Brasil precisa finalmente assumir como seu, como o pianista e professor Eduardo Monteiro nos demonstra em sua eloquente aula de piano em formato de CD.


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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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