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“Sagração”: 100 anos depois na Sala São Paulo (1/6/2013)
Por Nelson Rubens Kunze

A Sagração da primavera, de Igor Stravinsky, cujo centenário está sendo comemorado em 2013, é, como sabemos, uma das obras-primas seminais do século XX. Aqui no Brasil, quanto aos festejos de tão significativa criação, creio que não podemos reclamar: já tivemos neste ano a arrebatadora audição da Sagração pela sensacional Orquestra Sinfônica Simón Bolívar sob direção de Gustavo Dudamel; em julho, o Balé da Cidade de São Paulo remonta a coreografia de Luís Arrieta no Teatro Municipal de São Paulo; e, em agosto, o Teatro Municipal do Rio de Janeiro promete até a encenação da coreografia original de Nijinsky (a partir do dia 22 de agosto). Finalmente a Osesp, que nomeou sua temporada 2013 de “Sagrações da primavera”, apresentará a obra em dezembro, fechando o ano, sob direção de sua titular Marin Alsop.

Para não deixar passar em branco a emblemática data de 29 de maio, dia exato da conturbada estreia da Sagração em Paris, o diretor artístico da Osesp, Arthur Nestrovski, programou uma palestra com o filósofo e professor da USP Jorge de Almeida (no âmbito dos encontros Música na Cabeça) e a apresentação da versão para dois pianos na interpretação de Olga Kopylova e Paulo Álvares.

O ensejo acabou resultando em uma das melhores performances de música de câmara dos últimos tempos, com o excelente recital dos pianistas Olga Kopylova e Paulo Álvares. Olga é conhecida e admirada na cidade. Nascida em 1979, no Uzbequistão, a pianista formou-se no Conservatório Tchaikovsky de Moscou. Em 1999, mudou-se para o Brasil, onde assumiu o posto de pianista titular da Osesp. Já o brasileiro Paulo Álvares, que estudou entre outros com Aloys Kontarsky, reside na Alemanha há mais de 20 anos (ele é professor da Escola de Música de Colônia) e é reconhecido internacionalmente por suas interpretações de música contemporânea.

Na Sala São Paulo em “configuração” de câmara (um véu branco divide a plateia da sala criando, com o palco e o coro, um espaço menor e mais intimista), os músicos apresentaram Em branco e preto (1915), de Claude Debussy, Variações sobre um tema de Paganini (1941), de Witold Lutoslawsky, e finalmente a versão para dois pianos de A sagração da primavera, de Sravinsky (1911-13). Foi extraordinária a apresentação do duo, evidenciando grande interação e identificação artísticas. Enfrentando os desafios técnicos com linda musicalidade, os músicos interpretaram com alta competência as sonoridades matizadas de Debussy, o brilhantismo da obra de Lutoslawsky e especialmente as riquezas rítmica e expressiva da Sagração.

A Sagração da primavera, em dois pianos, na Sala São Paulo [Foto: Osesp]

É raro ouvir a formação de dois pianos nesse nível de qualidade técnica e instrumental. Olga Kopylova e Paulo Álvares celebraram o centenário da Sagração da primavera com uma apresentação memorável.





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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