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Mais vale Adriane que Ariadne (18/8/2008)
Por Irineu Franco Perpetuo

Tem uma cantora brasileira que o eixo Rio-São Paulo precisa descobrir urgentemente. É Adriane Queiroz, que ontem (domingo, dia 17) cantou a terceira e última récita como Mimì na montagem da ópera La Bohème, de Puccini, que abriu o II Festival Internacional de Ópera da Amazônia, em Belém.
Não foi a récita do domingo que eu vi - na mesma data, eu estava padecendo com a Zerbinetta de volume diminuto e afinação precária de Andréa Ferreira na pouco feliz montagem paulistana de Ariadne auf Naxos, de Richard Strauss. Estive no Teatro da Paz na segunda récita de Bohème, na sexta-feira, dia 15.
Para quem teve a fortuna de acompanhar a espetacular Ceci de Queiroz no mesmo teatro, no ano passado, no Guarany regido por Roberto Duarte, já não é mais possível se surpreender com o nível de amadurecimento vocal e cênico da cantora. Totalmente à vontade, em um papel que corresponde exatamente às possibilidades atuais de sua voz, Adriane foi uma Mimì comovente, dotada de um centro grave sólido, mas sem medo dos agudos. Seu timbre escuro evidencia que, talvez, com os anos, possa, no futuro, ingressar em um repertório mais dramático. Por enquanto, soa ideal nas partes de soprano lírico.
Trata-se de um talento que os regentes de São Paulo e do Rio de Janeiro, estranhamente, ainda não notaram. Mas que não passou despercebido de um certo Daniel Barenboim, que, quando conversamos no Aeroporto de Cumbica, em maio, me disse que acha a tal da Adriane "muy buena".
Bem, não por acaso, a paraense é membro, desde 2002, do elenco estável da Staatsoper - o melhor dos três teatros de ópera de Berlim, chefiado justamente por Barenboim. E, sob a regência do mítico e venerado Pierre Boulez, participou da gravação da Oitava Sinfonia de Mahler lançada pela Deutsche Grammophon.
A Bohème paraense teve ainda prestações sólidas de Manuel Alvarez e José Gallisa, respectivamente, como Marcello e Colline, e uma Musetta esforçada de Luciana Tavares. Para o futuro, vale ficar de olho em Atalla Ayan, que cantou Rodolfo com apenas 22 anos de idade.
Ayan possui um timbre muito belo, e bastante talento. Mas ainda há um grande trabalho técnico a ser feito. Resta torcer para que ele não repita a triste sina de vários tenores brasileiros, que aparecem cantando lindamente, mas se esquecem do aperfeiçoamento e, por se entregarem a papéis demasiadamente pesados, acabam arruinando suas vozes.




Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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