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Diário da integral das sinfonias de Beethoven – 4º dia – “Finale” (5/8/2013)
Por Leonardo Martinelli

Leia aqui resenhas diárias das apresentações da Filarmônica de Câmara Alemã de Bremen.

DIÁRIO DAS SINFONIAS DE BEETHOVEN
Deutsche Kammerphilharmonie Bremen em São Paulo
Por Leonardo Martinelli


"Finale"
05/08/2013

Eis que então chegamos ao momento mais esperado de qualquer maratona, isto é, seu grande final.

Lógico, há de se reconhecer e fazer jus à gostosa ansiedade que cerca os instantes antes da largada e às belas paisagens pelas quais passamos ao longo do trajeto. Mas não há como negar a expectativa e o simbolismo do cruzar da linha de chegada após tantos dias e horas de intensa concentração, mergulhados na meia-luz dos teatros e imersos por uma das mais profundas expressões musicais já elaboradas por um ser humano. E nada poderia ser mais simbólico que finalizar a maratona realizada pela Deutsche Kammerphilharmonie Bremen justamente com o grandioso uníssono orquestral sobre a nota ré, que encerra de forma frenética o último movimento da última sinfonia de Beethoven, em si, o fim de uma era na história da música no Ocidente e, claro, ponto de partida para novos e modernos tempos.

Nesta última apresentação do ciclo (a segunda realizada na Sala São Paulo) foi então possível ter a visão geral que o maestro Paavo Järvi tem destas sinfonias, apesar da heterogeneidade de materiais musicais que encontramos ao longo destas nove peças.

Järvi é detentor de um gestual muito rico, sempre tendendo para o expansivo (quando não chegando à pura extroversão), porém, sem nunca perder de vista a precisão. Desta forma ele parece estabelecer uma comunicação fácil e fluída com seus músicos, e isso se mostrou fundamental para que a imensa gama de ideias que ele tem da música de Beethoven pudesse efetivamente se concretizar.

De uma maneira geral, Järvi conferiu tons mais ágeis para essas sinfonias, afastando-se de uma sonoridade paquidérmica – tão comum quando elas são interpretadas por sinfônicas-padrão – e ao se aproximar de um fio da meada essencialmente camerístico que podemos encontrar em todas elas, mesmo naquelas com evidente vocação para certo tipo de “majestade sinfônica”, tal como na Sinfonia n° 7 e na Nona, por exemplo. Desta forma, os andamentos lentos ganharam ares menos melancólicos, passando a soar mais como intermezzi de elegância comedida do que como estruturas musicais autônomas.

Além disso, ao longo do ciclo, o maestro estabeleceu duas linhas de diálogos.

A primeira delas se estabeleceu entre ele a partitura de Beethoven, que ora obedece à risca as indicações escritas, ora liberta-se delas para dar vazão à sua identidade musical. Nestes termos, a marca registrada de Järvi foi o modo como ele lidou com as dinâmicas, elaborando novos planos de contrastes e ampliando o desenho de diminuendi e crescendi.

A segunda linha de diálogo estabelecida ocorreu entre Järvi e os Músicos de Bremen. No Brasil, a expressão “músico de fila” não raro é utilizada de forma pejorativa, podendo designar uma atividade menos artística e mais braçal, na qual a criatividade não é essencial e cujo principal papel do músico é engrossar as filas de instrumentos de uma orquestra, limitado a realizar as ordens recebidas do pódio (tal soldados que se juntam à massa de um batalhão). Não vou aqui entrar no mérito se isto é ou não correto, mas efetivamente não é a maneira com a qual os integrantes da Deutsche Kammerphilharmonie Bremen realizaram sua parte da empreitada.

Detentores de um grande senso camerístico, eles estão acostumado a encontrar, por contra própria, soluções para os diversos tipos de desafios técnicos e artísticos que uma partitura pode oferecer. Entretanto, isto não significa que eles atuem de forma totalmente independente e nem que não podem ser co-autores de uma intenção musical mais ampla, elaborada por alguém que está lidando com este material de uma forma global, isto é, o próprio Paavo Järvi.

Ao longo do ciclo foi possível testemunhar diversas vezes esta dinâmica em funcionamento. Em alguns momentos todos estavam de olhos colados no maestro, realizando de forma orgânica uma passagem realizada em conjunto. Em outros eles se libertavam do maestro e dos colegas para realizar pequenos vôos solo, cujas trajetórias dependiam única e exclusivamente de seu talento e livre-arbítrio.

Foi a materialização destas atitudes e pensamentos que então marcaram a última noite do Ciclo Beethoven, que se iniciou com a interpretação da Sinfonia n° 8, op. 93, em fá maior. Obra relativamente curta, sua escuta foi parcialmente prejudicada pela acústica da Sala São Paulo (SSP) pelos mesmos motivos apontados no dia anterior durante a apresentação da Sinfonia n° 7. Porém, da mesma forma, a grande carga de energia dinâmica que emana da maioria de seus movimentos encontrou na SSP mais espaço para ser projetada, e vale a pena notar, sem que os metais se sobrepusessem aos demais naipes da orquestra.

Mas as centenas de pessoas que acorreram à SSP não foram lá para degustar o op. 93, mas sim para ficarem com olhos e ouvidos arregalados com a Sinfonia n° 9, op. 125, em ré menor, “Coral” (pequena digressão: apesar de não fazer o menor sentido lingüístico, ainda penso que o melhor epíteto para esta sinfonia não seja “Coral”, mas sim “A Nona”. Mas, continuemos...).

Para sua interpretação a orquestra lançou mão de alguns músicos-extras em atividade no Brasil para assim melhor equilibrar as forças musicais em atuação. Apresentou-se também um quarteto vocal solista (Claude Boyle, Stephanie Atanasov, Carsten Wittmoser e Erik Nelson Wener) e um coral. Para a ocasião, entrou em cena a maestrina Naomi Munakata, que responde pela direção do Coro da Osesp, mas que aqui ensaiou o grupo de coralistas profissionais especialmente arregimentados para este concerto através do Coro São Paulo.

No primeiro movimento da Nona, a visão camerística que o projeto propõe sobre as sinfonias de Beethoven se fez presente. Entretanto, sua realização foi um tanto deficitária, em especial na falta de precisão em algumas passagens de maior agilidade rítmica e mesmo no equilíbrio dinâmico entre os diversos naipes. Já no segundo movimento o conjunto pareceu se encontrar, mas novamente a acústica reverberante da SSP jogou contra esta música cheia de notas curtas e secas e de contrastes dinâmicos de grande amplitude.

Foi apenas no Adagio molto e cantabile que orquestra e sala entraram de acordo, quando então pudemos novamente ouvir a sonoridade equilibrada que havia marcado as apresentações no Municipal paulistano, ao mesmo tempo em que o lirismo desta partitura foi ternamente trabalhada pelos músicos.

No movimento final, foi gostoso ouvir a sonoridade coesa dos violoncelos e dos contrabaixos em seu famoso e longo solo, aqui com vibratos a conta-gotas. Quando iniciou-se a participação vocal da partitura, o conjunto estava solidamente equilibrado, e vale a pena lembrar não se tratar de tarefa fácil.

Quando enfim reverberou pela SSP o grandioso uníssono orquestral sobre a nota ré, chegou-se então ao fim a maratona Beethoven em meio ao clima de verdadeira celebração. Desta vez não houve bis, e penso que depois desta odisseia sinfônica, não há mesmo mais nada a ser complementado. Só resta o silêncio. Ou, melhor, palmas. Uma verdadeira (e merecida) ovação.

* * *

Para além da experiência artística, o Ciclo Beethoven – promovido pelo Mozarteum Brasileiro enquanto parte da sua temporada de concertos – dá margens também a reflexões de ordem sociais. Mas prometo não me alongar (até porque, tenho toda uma vida para retomar após esta maratona!).

Exceto pela primeira noite, podemos falar que o Ciclo teve casa cheia todos os dias. Não que em 1º de agosto o Municipal de São Paulo estivesse vazio. Pelo contrário, havia apenas alguns assentos livres, que foram fáceis de serem notados principalmente quando se tem em mente a quantidade de pessoas que gostariam de estar sentados neles.

Pelas redes sociais, recebi alguns comentários a respeito dos altos custos que mesmo um simples dia desta maratona poderia representar. Os ingressos variaram de R$ 160 a R$ 380, e os “pacotes” para a integral do ciclo custaram entre R$ 512 a R$ 1.216. Apesar de ser uma experiência “priceless”, é necessário reconhecer que se trata de valores altíssimos, e eu mesmo não teria condições de fazer esta cobertura não fosse a cortesia de imprensa gentilmente oferecida pela instituição. Os valores ficam ainda mais altos quando temos em mente que parte deste dinheiro é, em tese, público, na medida em que o patrocínio cultural no país é feito via Lei de Incentivo a Cultura. Na verdade, não se trata de um problema específico do Ciclo Beethoven, nem do Mozarteum nem do mercado clássico brasileiro, mas sim de todo um sistema de política cultural público-privado que há tempos precisa ser repensado. Grandes eventos como esse apenas colocam estes problemas em evidência.

Por outro lado, a experiência mostra que o público brasileiro é extremamente receptivo a projetos ousados e de alta sofisticação artística. Tivemos anos atrás, em Manaus, a tetralogia de óperas do Anel do Nibelungo de Wagner encenada numa talagada só ao longo de uma semana, com direito a repetição de todo o ciclo ao longo na semana seguinte, e até onde pude testemunhar in loco, com ótima participação de público e repercussão no meio cultural brasileiro.

Tenho certeza que depois deste Ciclo Beethoven estaríamos abertos a propostas igualmente arrojada: um Ciclo Mahler? Um novo Anel? Nova música nova? O céu é o limite. Metaforicamente, pois aqui na terra brasilis, já provamos que há sim público em quantidade, inteligente e questionador, ávido para sair do arroz-com-feijão que, por mais delicioso e essencial que nos seja, precisa ser temperado com manjares dos deuses como este que acabamos de provar a partir deste verdadeiro banquete de Beethoven.

Saravá!



"Nunca é o bastante"
04/08/2013

Aquele que porventura esteja acompanhando este intrépido diário desde a primeira postagem – escrito ainda horas antes do primeiro concerto do Ciclo Beethoven, promovido pelo Mozarteum Brasileiro – há de se lembrar que um de meus receios foi o cansaço que tal maratona poderia acarretar, apesar de também considerar que a música de Beethoven poderia agir como uma espécie de energético, que minimizaria possíveis fadigas físicas ou mentais.

Pois bem, o que eu não poderia imaginar é que além de nada disso ter acontecido estas noites mergulhadas na penumbra do Municipal paulistano aumentaram ainda mais meu apetite pelas sinfonias. Tanto que ontem pela manhã, numa viagem de carro que fiz pelo interior paulista, realizei todo o trajeto munido dos CDs de dois ciclos da integral das sinfonias (Karajan de 1963 e Norrington), e havia ainda um terceiro devidamente armazenado no MP3 (Harnoncourt).

E, acredite, depois de horas ouvindo Beethoven on the road, o apetite não estava nem de longe perdido, quando de noite enfim cheguei à Sala São Paulo para conferir a terceira etapa do ciclo que a Deutsche Kammerphilharmonie Bremen está realizando sob a regência de Paavo Järvi, que tinha no cardápio dois finos acepipes da alta gastronomia sonora de Beethoven: a Pastoral e a .

* * *

“A grande marcha começa com o primeiro tropeção” escreveu certa vez Millôr Fernandes na moral da história de uma de suas divertidas Fábulas Fabulosas, que aqui evoco apenas para relativizar o pequeno erro do oboísta logo ao início da Sinfonia n° 6, op. 6, em fá maior, popularmente conhecida por “Pastoral”. Em minha modesta e responsável atividade como crítico (eu juro que tento!) nunca dei muita bola para eventuais notas erradas, desafinações e outros acidentes de percurso. Desde que eventuais, acredito que eles não devam ser tomados como fiel da balança na impressão final que se tenha de espetáculo. Ao longo do concerto da noite passada, pude ouvir aqui e acolá mais destes pequenos deslizes, mas nada gritante ou comprometedor. E, como disse ontem no diário, acredito que sejam inexoráveis as imperfeições que certas perfeições encerram dentro de si. Afinal, é possível fazer uma maratona como essa sem dar um passo em falso sequer?

A partir de ontem o Ciclo Beethoven entrou em uma nova fase a partir de sua transferência para a Sala São Paulo (SSP). Dadas as enormes diferenças acústicas entre ela e o Theatro Municipal de São Paulo, é importante notar a quebra da identidade sonora que havia se estabelecido até então. Não é questão de, agora, eleger qual é a “melhor” e a “pior”. Em princípio trata-se apenas de espaços diferentes, que servem a propósitos musicais distintos: algumas coisas funcionam melhor num, outras não, e vice-versa. E é bom que se diga que, em tese, São Paulo ainda está à procura da “acústica ideal”, ainda mais depois da trágica destruição do Teatro Cultura Artística no incêndio de 2008.

A Filarmônica de Câmara Alemã de Bremen na Sala São Paulo [Foto; CONCERTO]

Espacialmente maior, o desenho da SSP proporciona uma acústica mais reverberante, menos seca, mais adequada a grandes massas sonoras. Além disso, dependendo do lugar onde se esteja sentado, a escuta pode ser bem heterogênea, quando não errante.

Dependendo do ponto de vista que se tenha, podemos dizer que a interpretação da Pastoral foi até beneficiada por este novo ambiente. A acústica ampla da SSP eventualmente reforçou o caráter idílico e bucólico desta obra de Beethoven. Foi o momento também dos músicos exibirem, como nunca até este momento do ciclo, sua faceta lírica, em especial as cordas e os sopros, ao longo do remanso do belo riacho musical desenhado no segundo movimento. Por sua vez, abriu-se mais espaço para a projeção dos metais, não apenas nos fortissimi do movimento da tempestade, mas também ao longo de suas aparições ao longo da obra, em especial, no movimento final.

Entretanto, se com a Pastoral Järvi e os Músicos de Bremen souberam fazer uma deliciosa limonada com o limão acústico que lhes caiu em mãos, a escuta da Sinfonia n° 7, op. 92, em lá maior teve seus ricos detalhes achatados pela sonoridade reverberante que a sala proporciona, apesar dos esforços feitos pela orquestra. Neste contexto, todas as notas secas e em staccato se perderam, e os ritmos pontuados perderam nuance.

Mas isso não impediu a escuta das ideias sempre muito inteligentes e bonitas do conjunto. Para fugir do desagradável (e já folclórico) barulho do acesso de tosse coletivo que temperou de forma inconveniente as mudanças entre movimentos da Pastoral, na Sétima Järvi realizou as mudanças sem pausa, como se Beethoven tivesse escrito a indicação attacca ao final de cada parte. Entre o primeiro e o segundo movimentos obteve-se um bonito e brusco corte, quase cinematográfico, e famoso Allegretto foi interpretado à risca, ressaltando a discreta sonoridade de marcha, mas sem cair no marcial; os temas foram executados de forma fluída e serena, sem cair numa melancolia forçada, tão comum de se ouvir por aí.

No quarto movimento foi mesmo comovente ouvir o plano dinâmico finamente elaborado pelo maestro e interpretado com excelência pela orquestra, reforçando os limites de crescendi de decrescendi e criando mudanças entre forte e piano, muitas vezes beirando o subito.

Mas como nunca é o bastante, maestro e orquestra fizeram questão de mostrar à audiência que há muito mais por detrás do Beethoven que eles estão percorrendo, ao realizar uma impressionante interpretação da Valsa Triste, op. 44 de Jean Sibelius, com pianíssimos que beiravam o inaudível e um complexo e fluído desenvolvimento do tempo musical.



Aplausos, após mais uma rodada cumprida [Foto: CONCERTO]

Para a sonoridade de câmara, precisa e cristalina da Deutsche Kammerphilharmonie Bremen, a SSP revelou-se um pedregoso terreno nesta terceira parte da maratona beethoviana. Que eles vão chegar ao fim dela, não há dúvida, mas ainda aposto que em termos de “som” – e não necessariamente de “música” – o melhor já foi ouvido no edifício da Praça Ramos de Azevedo.


“Dá vontade de aplaudir cada movimento!”
03/08/2013

“Dá vontade de aplaudir cada movimento!”. A frase dita pela minha companhia nessa maratona beethoviana (que no caso, e não por um acaso, vem a ser também minha companheira de vida) sintetiza bem o clima que imperou nesta segunda noite do Ciclo Beethoven, quando os músicos da Deutsche Kammerphilharmonie Bremen voltaram a ocupar o palco do Teatro Municipal de São Paulo, sempre sob a regência do estoniano Paavo Järvi. Foi curioso notar como o maestro foi ovacionado ao entrar no palco, antes mesmo de se ouvir a primeira nota; provável eco da ótima impressão que ele e seus músicos haviam deixado na noite anterior.

Nesta segunda etapa, o programa deu continuidade cronológica ao ciclo a partir da apresentação das Sinfonias n° 4 e n° 5. (Originalmente, o ciclo aqui seria interrompido com a apresentação da violinista Hilary Hahn, que acabou cancelando sua vinda ao Brasil “por motivos pessoais”; Hahn interpretaria um concerto de Henri Vieuxtemps.)

Logo que atacou o primeiro acorde da enigmática introdução da Sinfonia n° 4, op. 60, em si bemol maior ficou claro que a orquestra manteria o patamar de discreta grandiosidade impressa na interpretação da Eroica no dia anterior. O grupo abandonou de vez a sonoridade mais ligada à música do Classicismo utilizada na leitura da primeira e da segunda sinfonia, abraçando de vez uma interpretação que se aproxima mais da dramaticidade romântica, mas sem efetivamente chegar lá – o que, ao meu ver, é um ponto positivo.

No segundo movimento, não há como não destacar a sensível participação do primeiro clarinetista, que soube desempenhar, com inspiração e beleza, os solos reservados ao seu instrumento, sem jamais sucumbir à soberba de uma atuação como concertista. A Sinfonia n° 4 foi também outro ótimo momento para atestarmos mais uma vez a grande precisão dos músicos do conjunto, tanto nas ágeis linhas melódicas do último movimento como nos sempre ingratos pizzicati, tocados de forma irrepreensível.

Os músicos de Bremen

Uma das muitas lendas alemãs transformadas em conto pelos Irmãos Grimm é justamente intitulada Os músicos de Bremen (ou Die Bremer Stadtmusikanten). Trata-se de um singular quarteto integrado por um burro, um cão, um gato e um galo que, famintos, decidem cantar para chamar a atenção dos humanos. Com o perdão do trocadilho, deram com os burros n’água, pois o pessoal fugiu assustado. Mas este episódio é o começo de uma série de eventos que os tornaram mais unidos, e esta união é, na lenda, a explicação para a liberdade que estes simpáticos animais irão conquistar e representar.

Die Bremer Stadtmusikanten [Repodução]

Os músicos de Bremen que aportaram em São Paulo não colocaram ninguém para correr (e sim “acorrer” para dentro do teatro), e a lenda não deixa de ser simbólica ilustração para entendermos o que, afinal, torna esta orquestra um grupo tão especial. Como a tradução de seu nome bem indica, a Filarmônica de Câmara Alemã de Bremen é, em essência, um grupo camerístico. Isso se dá não apenas pelo reduzido número de integrantes se comparado a uma orquestra tradicional. Na verdade, seu grande diferencial está no modo como estes músicos desempenham seu trabalho.

Ainda que estejam sempre muito atentos aos comandos de Järvi, eles frequentemente se entreolham e dialogam musicalmente entre si. Cada um tem plena consciência de seu papel ao longo da interpretação de uma obra e o fazem com grande responsabilidade, mas sem nunca perder a espontaneidade, sempre atentos também ao papel que os demais colegas exercem em paralelo. Em um grupo como esse, um maestro é menos um comandante e mais um de seus integrantes, que por um acaso está lá, no centro do palco.

Tal como na lenda, aqui a união faz a força, passaporte para interpretações não apenas eficientes, mas musicalmente inteligentes e artisticamente comoventes.

Tchan-tchan-tchan-tchããããñ!

Foi breve, ágil e quase brutal este tão aguardado momento do Ciclo Beethoven. Ao retornar do intervalo, ainda sob uma saraivada de palmas, mal pisou em seu pódio Järvi atacou de forma súbita o começo da Sinfonia n° 5, op. 67, em dó menor. Quando as oito notas musicais mais famosas do planeta foram enfim executadas, ainda era possível ouvir o burburinho das pessoas se acomodando nas poltronas. Sorte que Beethoven escreveu um ritornelo para podermos ouvir novamente a versão de Järvi para o tema: rápido, vigoroso, fazendo a primeira fermata mais curta que a segunda.

Tamanha presteza fizeram com que o primeiro movimento acabasse rapidamente, e particularmente tive a impressão de que em alguns poucos momentos houve até certa dificuldade das madeiras realizarem com precisão esta melodia na velocidade imprimida por Järvi. Valeria até a pena reouvi-lo como bis (que acabou acontecendo, mas a partir de uma Dança húngara de Brahms).

A serenidade – algo que não cabe mesmo ao seu primeiro movimento – foi recuperada com uma ótima interpretação do segundo movimento, no qual Järvi voltou a flertar com uma sonoridade levemente marcial (tal como feito na Marcha fúnebre da Eroica) a partir da escrita por ritmos pontuados utilizada por Beethoven.

Com o movimento final da Sinfonia n° 5 chegamos novamente a um novo patamar da escritura e da música de Beethoven, agora promovido pela adição de vários instrumentos à “orquestra padrão”, tais como flautim, contrafagote e três trombones, ocupando de forma ainda mais plena o espaço sonoro do teatro.

A atuação de Järvi e dos músicos da Deutsche Kammerphilharmonie Bremen chega a ser tão impecável, que por diversos momentos soa sobrenatural. Por isso, ouvi até com sincera alegria uma nota errada, quase imperceptível, ocorrida exatamente no penúltimo acorde desta sinfonia. Anos-luz de ser um problema, este ínfimo “porém” acaba por constituir o grão mínimo de imperfeição que toda perfeição, por definição, precisa necessariamente abarcar.

***

A partir de hoje, sábado, a maratona se deslocará alguns quilômetros, para a Sala São Paulo, uma acústica radicalmente diferente em relação ao Municipal paulistano. Em princípio, trata-se de uma mudança preocupante, já que devida suas grandes dimensões muito do calor e da escuta cristalina desta formação camerística pode se perder em meio aos grandes espaços da famosa sala de concertos da Rua Mauá. A conferir...


A largada
02/08/2013

Ontem de noite, no Theatro Municipal de São Paulo, foi enfim dada a largada para a maratona que percorrerá todas as sinfonias de Beethoven com o maestro Paavo Järvi à frente da Deutsche Kammerphilharmonie Bremen, que integra a temporada do Mozarteum Brasileiro.

Nos momentos que precederam a apresentação, era possível sentir um tipo de energia especial circulando nos corredores e saguões do teatro. Afinal, não era um concerto comum, mas sim o início de uma grande celebração com músicos de grande reputação, o que deixou as expectativas nas alturas.

Aqui e acolá foi possível constatar nas rodas de conversas que o assunto dominante neste contexto era “qual sua sinfonia predileta?”. Pergunta difícil de responder, não? Gostei de um que começou a pinçar seus movimentos prediletos: primeiro da 5ª Sinfonia, segundo da Pastoral, terceiro da e assim por diante.

Mas ninguém havia cruzado a Pauliceia Desvairada em plena quinta-feira braba para bater papo, e assim que o acesso à sala foi liberado, os assentos foram tomados por um ótimo público, apesar de vários lugares vagos.


Deutsche Kammerphilharmonie Bremen, dia 01/08/2013 no Theatro Municipal de São Paulo [foto: Revista CONCERTO]

A largada para o Ciclo Beethoven foi realizada com a Sinfonia n° 1. Pode parecer uma escolha óbvia, mas é importante lembrar que há várias maneiras de se estruturar este ciclo. Quando feito ao longo de cinco apresentações é comum que a primeira noite seja reservada para as duas primeiras sinfonias, iniciando-se a empreitada com a n° 2 e deixando a n° 1 – mais conhecida do grande público – para a segunda parte.

Järvi e os músicos de Bremen percorrerão as sinfonias em apenas quatro apresentações, e na medida em que as sinfonias vão aumentando de duração, foi então necessário acomodar as três primeiras nesta primeira noite. Daí, foi um passo para se abraçar a apresentação do ciclo de forma linear (1ª, 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, 6ª, 7ª, 8ª e a Nona). E vale notar que, neste caso, a linearidade não é solução das mais óbvias.

Como a tradução de seu nome bem indica – Filarmônica de Câmara Alemã de Bremen – a orquestra que Järvi comanda é, em essência, um grupo camerístico, que nesta primeira apresentação atuou com cinco estantes nos primeiros violinos, quatro nos segundos, duas para violas e violoncelos e apenas três contrabaixistas (para termos uma referência, já ouvi orquestras tocarem Mozart com dez contrabaixos!).

O grupo não é o que se costuma chamar como “orquestra de época” (isto é, com instrumentos construídos de acordo com os padrões do século XVIII), mas, por outro lado, com seu instrumental moderno, eles procuram aproximar a técnica da linguagem pertinente à música e ao tempo de Beethoven. Uma das facetas mais visíveis disto (literalmente) está na disposição dos instrumentos utilizada nesta primeira noite, invertendo-se a posição dos naipes de cordas e deslocando-se o par tímpanos dos fundos para lateral direita. 



Esquema de disposição dos instrumentos na apresentação da  Filarmônica de Câmara Alemã de Bremen.

Logo nos primeiros compassos da Sinfonia n° 1, op. 21, em dó maior, Järvi e a orquestra imprimiram o clima que iria dominar parte da apresentação, isto é, um Beethoven ágil e elegante, de sonoridades surpreendentemente delicadas. Muito conhecida pela influência de Haydn, Järvi interpretou a Sinfonia n° 1 quase que à moda de uma suíte barroca, mitigando os contrates entre os andamentos. Não por acaso apenas nesta sinfonia o timpanista lançou mão de baquetas “duras”, que naturalmente evocam uma sonoridade mais oitocentista do que propriamente Romântica. No terceiro e no quarto movimentos os músicos mostram que não têm medo de se divertir nas diversas janelas de ironia que pululam ao longo das sinfonias de Beethoven.

Se por um lado em sua primeira sinfonia Beethoven ainda exala a influência de Haydn, foi notável a forma como a interpretação da noite passada valorizou as influências salierianas que podemos ouvir na Sinfonia n° 2, op. 36, em ré maior (sim, caro leitor, Salieri foi professor de Beethoven, nunca matou Mozart e a escuta de suas obras certamente vai te surpreender, caso ainda não as tenha escutado). A disposição da orquestra valorizou sobremaneira o diálogo entre os instrumentos, implícito na partitura da introdução do primeiro movimento.

Após o intervalo, foi a vez do Municipal paulistano reverberar com a Sinfonia n° 3, op. 55, em mi bemol maior, “Eroica”. E foi então que, pela primeira vez, o diferencial de estarmos num ciclo se fez presente.

Como inclusive coloquei na matéria da edição de agosto da Revista CONCERTO (não leu ainda? Tá esperando o quê?!), Beethoven passa a ser “Beethoven” a partir desta obra. Mas este senso comum da musicologia contemporânea ganhou um sentido mais visceral após a escuta seqüenciada das duas primeiras sinfonias. Ok, o primeiro movimento da Eroica tem lá suas singularidades, suas surpresas e quebras de convenções, mas ainda assim estaria muito bem dentro do itinerário traçado até então. Mas eis que chega o segundo movimento, a Marcha fúnebre, e é como se o mundo tivesse virado de cabeça para baixo. Até aquele momento, Beethoven não atingira em suas sinfonias tamanha intensidade dramática.

Penso que Järvi não deixou isto escapar, e fez deste movimento o ponto culminante da noite, algo que se delineia de forma natural quando colocamos de forma emparelhada as três primeiras sinfonias.

Outra peculiaridade de ouvir estas três sinfonias em sequência é perceber como, com praticamente o mesmo número de músicos, Beethoven expande o potencial sonoro da orquestra apenas empregando uma nova lógica de escritura e orquestração (em relação às sinfonias n° 1 e n° 2, a Eroica conta apenas com uma trompa adicional).

O senso dramático, quase narrativo, da Eroica, foi reforçado por Järvi a partir de uma interpretação sem interrupções entre movimentos (justamente a partir da Marcha fúnebre) e uma clara busca de contrastes dinâmicos: em momentos de grande intensidade, os instrumentos de sopros chegaram mesmo a projetar suas campanas ao alto, à moda de uma sinfonia de Mahler. Por outro lado, numa determinada passagem mais delicada do movimento final, o maestro chegou mesmo a enxugar todo o naipe de cordas a um singelo quarteto.

O entusiasmo ao final desta primeira noite foi grande, o bastante para um bis, o último movimento da n° 1, que deixou a plateia ainda mais alvoroçada.

Quem não ficaria?


Introduzione
01/08/2013
Daqui a algumas horas vai ser dada a partida da maratona que percorrerá ao longo de quatro dias todas as sinfonias de Ludwig van Beethoven (1770-1827). Os verdadeiros maratonistas serão os músicos da Deutsche Kammerphilharmonie Bremen, que atuarão sob a batuta do maestro estoniano Paavo Järvi, que desde já desponta como atleta principal deste desafio. Eu não irei literalmente (nem metaforicamente) correr esta maratona, mas sei que só de ficar nas arquibancadas terei também meus desafios para superar.

Järvi e sua orquestra vêm ao Brasil como parte da temporada internacional do Mozarteum Brasileiro para escrever mais um capítulo deste projeto iniciado seis anos atrás, que já levou a integral das sinfonias de Beethoven para Nova York, Paris e Bonn. A propósito desta ocasião tão importante, na edição deste mês de Revista CONCERTO assino a matéria de capa sobre a importância destas obras que mudaram a forma como ouvimos e fazemos música. Dado este retrospecto, nada mais natural que fazer uma cobertura deste momento.

Perfazer todas as sinfonias de Beethoven é uma “obrigação”, por assim dizer, que toda orquestra deve cumprir. Recentemente aqui no Brasil tivemos o ciclo realizado com a OSB, sob a batuta de Lorin Maazel, e ainda na era Neschling a Osesp também deu sua versão deste monumento sinfônico, que inclusive pode ser conferida em CD.

Entretanto, minhas primeiras lembranças de um Ciclo Beethoven remetem-se aos anos em que era jovem e bobo (hoje só sou bobo), quando, ainda meninote, comecei a estudar música e a frequentar concertos no Teatro Municipal de São Paulo.

Naquele palco – que coincidentemente será a linha de largada da atual maratona – acompanhei a integral que o maestro David Machado (1938-1995) empreendeu com a Orquestra Sinfônica Municipal. Até aquele momento, eu só havia escutado as sinfonias de Beethoven em gravações em fita cassete que eu comprava nas “baciadas” de lojas como Breno Rossi e Bruno Blois, hoje, nestes tempos de mega-stores e de downloads, todas devidamente extintas.

É difícil verbalizar o impacto da materialização ao vivo desta música que eu havia me acostumado a ouvir pelos alto-falantes de um aparelhinho de som bem mequetrefe – ao longo das sinfonias o deslumbramento só aumentava, para culminar numa emocionante primeira vez com a famosa Nona sinfonia.

A experiência deixou impressões profundas e, arrisco a dizer, foi decisiva para eu enfim optar pelo profissionalismo musical (seja lá o que isto venha a significar no Brasil).

Bem, mas reminiscências à parte, o fato é que há uma grande diferença entre apresentar um Ciclo Beethoven ao longo de semanas (ou mesmo meses e anos), tal como nos exemplos acima, e tocar todas as nove sinfonias numa talagada só, em quatro noites seguidas.

Como toda maratona que se preze, há de partida a expectativa do cansaço que esta jornada possa causar, mesmo para quem estará confortavelmente sentado na plateia, só ouvindo o que se passa no palco. Por outro lado, é preciso não menosprezar a música de Beethoven e, ao mesmo tempo, tenho grandes expectativas de que um eventual cansaço seja mitigado pela energia sobrenatural que emana desta música.

Quem viver, ouvirá!



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Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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Encomenda da Osesp mostra Mehmari maduro Por Irineu Franco Perpetuo (3/7/2017)
Fórum apresenta importantes orientações para “endowments” culturais no Brasil Por Nelson Rubens Kunze (10/6/2017)
Filme “Filhos de Bach” marca por sua sensibilidade e delicadeza Por Nelson Rubens Kunze (9/6/2017)
Transformação social e o futuro da música clássica Por Anahi Ravagnani e Leonardo Martinelli (30/5/2017)
Os extras contemporâneos de Isabelle Faust na Sala São Paulo Por João Marcos Coelho (25/5/2017)
Festival Amazonas de Ópera encena ‘Tannhäuser’ e comemora 20ª edição Por Nelson Rubens Kunze (23/5/2017)
Noites memoráveis com Isabelle Faust e Alexander Melnikov Por Camila Frésca (18/5/2017)
Com Faust e Volmer, a Osesp chega à excelência Por Irineu Franco Perpetuo (16/5/2017)
Foi um esplendor, mas... Por Jorge Coli (16/5/2017)
Perdas e danos (Santa Marcelina incorpora Theatro São Pedro) Por Nelson Rubens Kunze (9/5/2017)
Pesquisa do Projeto Guri mostra resultados importantes Por Camila Frésca (3/5/2017)
Diana Damrau, uma artista de mais de 50 tons Por Irineu Franco Perpetuo (2/5/2017)
E Cristian Budu, finalmente, tocou com a Osesp! Por Irineu Franco Perpetuo (21/4/2017)
Olivier Toni Por João Marcos Coelho (20/4/2017)
“Uirapuru”, de Villa-Lobos: algumas considerações no centenário da obra Por Camila Frésca (12/4/2017)
Nasce uma estrela Por Jorge Coli (11/4/2017)
A festa do Concurso Maria Callas: competência e amor à música Por Jorge Coli (4/4/2017)
Theatro Municipal do Rio de Janeiro apresenta “Jenufa”, de Janácek Por Nelson Rubens Kunze (4/4/2017)
 
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São Paulo:

25/8/2017 - Duo Celta

Rio de Janeiro:
26/8/2017 - Eduardo Monteiro - piano, Paulo Sérgio Santos - clarinete, Luiz Garcia - trompa e Fernando Portari - tenor

Outras Cidades:
25/8/2017 - Araraquara, SP - Grupo Balkãn Neo Ensemble
 




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