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Theatro Municipal apresenta grande “Aida” (10/8/2013)
Por Nelson Rubens Kunze

Tem um corte tradicional – apesar dos cenários abstratos – a montagem de Aida que abriu oficialmente ontem, dia 9 de agosto, a primeira temporada do maestro John Neschling à frente do Theatro Municipal de São Paulo. A grande produção, que tem direção cênica do italiano Marco Gandini, é o cartão de visitas do que o maestro John Neschling quer como patamar de qualidade para o teatro.

Para contar a história do amor proibido entre a princesa etíope escravizada Aida e o guerreiro egípcio Radamés, o diretor Marco Gandini e seu cenógrafo Italo Grassi criaram grandes volumes geométricos, que, em deslocamentos verticais e horizontais, configuram os espaços da cena. Mais que a suntuosidade de um Egito dos faraós, contudo, os elementos – por conta também dos tons escuros e de uma iluminação indireta – conferem uma ideia de confinamento, reforçada pela quantidade de pessoas no espaço reduzido, especialmente nos dois primeiro atos. Mas há momentos de alívio, quando o afastamento das paredes resulta em um espaço mais aberto – em uma das cenas descortinando um bonito céu amarelado na contraluz (desenho de luz de Virginio Levrio). Nos dois atos finais, justamente quando há menos personagens no palco – sempre em tons escuros e relativamente pouca luz – a encenação ganha uma nova fluência e fornece moldura apropriada para os momentos mais emocionantes do espetáculo.

Fim do Ato 2 [Foto: CONCERTO]

Concorreram para a concepção tradicional os figurinos de Simona Morresi, que talvez tenha exagerado um pouco em seu afã de um exotismo oriental. Já os balés (coreografia de Marco Berriel), sempre um calcanhar de Aquiles nas encenações do gênero, por seu caráter de época, acabaram se encaixando bem no conceito geral da produção.

Se a encenação serviu corretamente a seus propósitos, foi o ótimo desempenho musical que entusiasmou e fez a diferença. Com condução ao mesmo tempo segura e sensível, explorando as riquezas da partitura, o maestro John Neschling levou a Orquestra Sinfônica Municipal a um crescente rendimento ao longo do espetáculo, resultando em um performance lírica como há tempos não se ouvia daquele conjunto.

Também foi muito bom e equilibrado o elenco, majoritariamente composto por estrangeiros. Em primeiro lugar, a soprano uruguaia Maria Josè Siri como Aida. Com bonita e possante voz, Siri protagonizou alguns dos melhores momentos da noite. E seu timbre combinou de modo muito feliz com as características vocais de Amneris (a mezzo soprano finlandesa Tuija Knihtlä) e de Radamés (o tenor Gregory Kunde), ambos igualmente convincentes em seus papeis. Se Amneris já demonstrou seus dotes desde suas primeiras intervenções, o Radamés de Kunde cresceu durante a récita para alcançar seu máximo, bonito e emocionante, na segunda metade do espetáculo. Já Amonasro (o rei etíope pai de Aida), realizado pelo barítono inglês Anthony Michaels-Moore, que, de início, por um timbre mais aveludado, pareceu um pouco apagado ao lado de seus colegas, acabou por se revelar uma perfeita complementação tímbrica ao conjunto (até por representar um personagem de geração mais velha), dando novas cores às harmonias e demonstrando uma boa atuação musical e cênica.

Ramphis foi interpretado pelo ótimo baixo brasileiro Luiz-Ottavio Faria, de privilegiada voz, acompanhado pelo bom baixo Carlos Eduardo Marques no papel do Faraó. O tenor Eduardo Trindade fez o papel do mensageiro e a soprano Laryssa Alvarazi, o da sacerdotisa. Ainda contribuiu determinantemente para o sucesso da estreia a boa participação do Coral Lírico do Theatro Municipal.

Solistas e maestro recebem os aplausos [Foto: CONCERTO]

Esta Aida propõe um retorno à grande ópera do século 19 em uma linguagem tradicional e sem ousadias, mas em grande estilo. É o ponto de partida do projeto do maestro Neschling de formar um repertório com montagens de títulos seminais da história, que possam no futuro ser remontados e intercambiados com outros teatros.  





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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