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Piano presente: música contemporânea sem concessões (21/8/2013)
Por Irineu Franco Perpetuo

Na Bíblia do piano, o Velho Testamento é o Cravo Bem-Temperado, de Bach; o Novo, as sonatas de Beethoven. Rapazes de antebraços musculosos e manoplas avantajadas devem empreender proezas atléticas em Liszt e Rachmainov, enquanto moçoilas de mãozinhas delicadas estão destinadas às sutilezas de Mozart e Chopin. Ah: se nascido no Brasil, o tecladista pode cumprir tabela com uma ou outra miniatura de Villa-Lobos ou Nazareth.

Uma passada de olhos pelos programas de recitais pianísticos induz a pensar que essa é a mentalidade hegemônica dentre os artistas que se aventuram, entre nós, pelo mundo preto e branco das teclas. Não deixa, assim, de representar uma renovadora e colorida lufada de ar o CD Piano Presente, no qual o selo Sesc – cujas escolhas ousadas e inteligentes deveriam ser objeto de reflexão junto às instituições encarregadas de fazer e pensar a música no Brasil – nos brinda com um variegado panorama da produção contemporânea brasileira, por Joana Holanda.

Confesso que, antes do disco, não a conhecia nem de nome. Foi, assim, com o espírito totalmente desarmado que me lancei em sua jornada por nove peças de criadores brasileiros de diferentes gerações, estilos e poéticas.

Proposto por mãos femininas, o percurso vai de mulher a mulher, começando com a “mãe fundadora” Marisa Rezende (n. 1944) e seus Contrastes, urdidos em torno de dois conjuntos de alturas, e concluindo com a radicalidade de Tatiana Catanzaro (n. 1976) e os avassaladores fragmentos sonoros de seu (tomo fôlego antes de escrever) Kristalklavierexplosonsschattensplitter.

No meio do caminho, há muita coisa interessante a explorar, da visceralidade do Estudo II, de Marcílio Onofre (n. 1982), à (relativa) placidez do Pampa I, de Rogério Constante (n. 1974), passando por Sora, de Gabriel Penido (n. 1987), Iri, de Rogério Vasconcelos (n. 1962), Calisto, de Carlos Walter Soares (n. 1970), Contours...distances, de Alexandre Lunsqui (n. 1969), e pelas sonoridades inusitadas conjuradas por Bruno Ruviaro (n. 1976) em Instantânea.



Joana Holanda [foto: divulgação]

Ao abordar musicas que escapam aos clichês tradicionais da escrita para o instrumento, Holanda demonstra dominar um variado repertório de recursos pianísticos, dos quais lança mão para caracterizar, de modo peculiar e único, cada um dos peculiares e únicos mundos sonoros dos diferentes compositores.

Para evitar reclamações, advirto de antemão aos desavisados que não se trata de um disco de “escuta fácil”, “acessível”, cheio de “melodias cantáveis”, que se disponha a ser “música ambiente”. Se você não estiver habituado a essa linguagem, algumas obras vão soar de modo tão surpreendente que você pode até se perguntar se aquele instrumento que está tocando é mesmo um piano. Sem concessões, Piano Presente não traz música “de fundo”, e sim, “de frente”, para ser ouvida de forma concentrada e atenta por quem está à caça de sonoridades que traduzam, sintetizem, decodifiquem e desconstruam esse complexo, vibrante e contraditório Brasil do século XXI.



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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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