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Mozart Noir (13/9/2013)
Por Leonardo Martinelli

Uma pequena adaptação no adágio atribuído a Maquiavel parece explicar os rumos da concepção cênica do Don Giovanni que estreou ontem no Theatro Municipal de São Paulo: o final justificaria os meios?

Terceiro título da temporada lírica da principal casa de ópera paulista, este Don Giovanni é uma produção original do Teatro Municipal de Santiago, do Chile, criada pelo diretor de cena Pier Francesco Maestrini.


Cena do Don Giovanni, em cartaz no Municipal de São Paulo [foto: divulgação/Gabriel Novaes]

O libreto de Lorenzo da Ponte, unido com a sempre genial música de W. A. Mozart, permite várias leituras e releituras, e em princípio Maestrini nos propõe uma ideia instigante ao metamorfosear o famoso conquistador espanhol à vampiresca figura do Conde Drácula. Afinal, tanto um como outro nutrem-se da energia vital alheia para a manutenção de sua própria e mesquinha existência.

Ao longo do espetáculo a caracterização deste Don Giovanni-Drácula ocorre de forma eficiente, sem que o célebre personagem de Bram Stoker no seja proposto de forma forçada ou impertinente. Para isto, Maestrini faz com que a narrativa se desenvolva num clima de trevas, a partir de uma iluminação “noir” (se me permitem o paradoxo) de Pascal Mérat, luz essa que relativiza a ambientação século XVIII sugeridos pelos figurinos Luca Dall’Alpi e pela virtuosa cenografia de Juan Guillermo Nova. Apesar das nítidas referências visuais ao Drácula do filme de Francis Ford Coppola, dramaticamente ele caminhou mais para o divertido vampiro encarnado por Béla Lugosi.


Apesar das referências ao Drácula do filme de Coppola, ele caminhou para o vampiro de Béla Lugosi

Entretanto, quando nos aproximamos do final da ópera, no momento em que toda a ação passa a ocorrer na sala da casa de Don Giovanni, nos é proposto uma reviravolta radical. A sutileza é então abandonada. As luzes do palco finalmente se acendem. O realismo cenográfico cede lugar a um infernal tableau de inspiração surrealista, quando então nosso Don Giovanni-Drácula vê-se transformado num Drácula-Marquês de Sade, colocando-se o Don Giovanni para escanteio. Menos que uma reviravolta (que até poderia ser bem-vinda), ocorre mesmo uma quebra na proposta, ficando a impressão que Maestrini concebeu seu Don Giovanni de trás para frente, a partir desta cena final, e que tudo o que precede é um mero pretexto. Fiel à lógica do “fim justifica os meios”, suprimiu-se do palco a presença de Leporello na descida de seu patrão aos infernos, ao que tudo indica apenas para que ele pudesse trocar de figurino para o momento final da ópera, apresentado na versão resumida, sem as partes individuais das personagens que se reúnem para cantar em coro.

Cenicamente, o resultado final foi como se duas produções diferentes da ópera tivessem sido juntadas numa mesma ocasião. Seria uma menção subliminar ao romance de Mary Shelley?

Para a direção musical do espetáculo foi escalado o experiente regente Yoram David, à frente da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo e do Coral Paulistano (preparado por Bruno Greco Facio). Sonoramente falando, a orquestra continuou a dar provas de seu aprimoramento, mostrando na maioria das vezes coesão trímbrica em seus naipes e segurança nos momentos solistas que aparecem ao longo da partitura.

Na noite de estreia, porém, a regência de David foi bastante problemática. Ao longo do primeiro ato o maestro optou por tempos mais alongados, que aqui e acolá se mostraram um tanto arrastados. Também no primeiro ato foi especialmente problemático o desequilíbrio dinâmico entre as vozes no palco e a orquestra no fosso. A origem disto pode estar no isolamento do proscênio (dianteira do palco) por uma tela usada para projeções. Desta forma a atuação dos cantores se concentrou mais para o meio do palco, o que dependendo do cenário que os envolve, configura-se um verdadeiro buraco negro acústico. No segundo ato o problema foi minimizado, apesar de não totalmente sanado. Ao longo de toda a récita o regente ficou devendo na precisão e eficiência na transição entre os recitativos para as árias. A orquestra parecia ser pega de supetão, e até que maestro, cantores e instrumentistas entrassem em acordo, tinham-se alguns compassos de puro desengonço rítmico.


Criou-se um clima de trevas a partir de uma iluminação “noir” [foto: divulgação/Gabriel Novaes]

A irregularidade também se fez presente no elenco vocal da estreia. O ponto culminante ficou a cargo da soprano Andrea Rost, que nos ofereceu uma Donna Anna musicalmente cativante e dramaticamente consistente (ainda que tenha sido vítima dos tempos arrastados em Non mi dir, bell’idol mio). No papel-título o barítono Nicola Ulivieri fez uma apresentação musicalmente ascendente. Apesar de pontos de irregularidades sérios, como na ágil Fin ch'han dal vino, Ulivieri soube se safar musicalmente na famosa cena final, quando também ficou evidente a beleza da voz do baixo Jens-Erik Aasbo (Comendador).

No campo da eficiência, mas não necessariamente do convencimento, fica as performances de Enea Scala (Don Ottavio) e Monica Bacelli (Donna Elvira). Altos e baixos são comuns na atuação de qualquer cantor ao longo de uma ópera tão desafiadora como esta. Pena que os pontos baixos se localizaram justamente nos momentos de maior atenção cênica e musical de seus respectivos personagens. A marcha mozartiana está apenas começando, e há tempo mais do que hábil para que o barítono Norbert Steidl e a soprano Luísa Kurtz justifiquem suas presenças numa produção deste porte, algo que ao menos na noite estreia não ocorreu.

Se logo ao início da récita barítono Davide Luciano (Leporello) parecia protagonizar o desequilíbrio dinâmico entre o palco e o fosso no segundo ato ficou claro que se tratava de um problema sério. Afônico, teve que ser substituído. Foi quando entrou em ação Saulo Javan, que originalmente tomaria o papel apenas nas récitas dos dias 15 e 21. Preparadíssimo, tornou-se o herói da noite ao atuar como pivô de uma apresentação mais equilibrada ao longo de todo o segundo ato. Esta sim foi a reviravolta bem-quista que este Don Giovanni proporcionou ao público.

Clássicos Editorial Ltda. © 2013 - Todos os direitos reservados.
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Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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