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Festival de Ópera do Theatro da Paz produz primeiro Wagner de Belém (25/9/2013)
Por Nelson Rubens Kunze

Foi uma grande realização O navio fantasma, de Wagner, terceira atração lírica do Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém. E foi o apoteótico terceiro ato, com grandes efeitos, o clímax da encenação dirigida por Caetano Vilela (também responsável pela concepção e iluminação). Se pareceu exagerado o excesso estroboscópico luminotécnico que, incorporando a plateia, transformou o teatro quase que em uma pista de dança de discoteca, a cena também foi uma demonstração do virtuosismo do diretor cênico, e não deixou de se encaixar perfeitamente na concepção geral do espetáculo. Sem dúvida, a montagem deste Navio fantasma reafirma a posição de Caetano Vilela como um dos mais instigantes e criativos diretores brasileiros da atualidade.

A encenação é consistente, repleta de ideias e boas soluções, algumas especialmente felizes, como o tecer dos fios em uma tela suspensa no segundo ato (em substituição às arcaicas cadeiras de fiação do século XIX normalmente vistas na cena). Com os fios, Caetano também desenvolve interessantes sugestões quanto à prisão moral e comportamental de Senta, comprometida com o bom moço Erik, e sua fuga inconsciente simbolizada na sua entrega ao holandês errante.

Outra imagem impactante e de grande força dramática é apresentada logo na abertura da ópera, quando um espelho reflete a imagem de Senta debatendo-se na água (fiquei um pouco frustrado em não rever a inspirada cena no momento derradeiro do espetáculo...).


Cena da montagem de O navio fantasma [foto: Elza Lima/divulgação]

A encenação se passa em um armazém portuário com paredes que lembram contêineres (cenografia Duda Arruk). Sobre o palco desce, suspenso pelas varas, o navio fantasma (vê-se o casco), em meio a lampejos de flashes, qual uma nave intergaláctica. A justaposição de elementos díspares poderia sugerir uma estética pós-moderna, mas nem por isso Caetano abre mão de um roteiro narrativo em perfeita sintonia com o enredo da ópera. E se por um lado a profusão de luzes e efeitos cênicos afasta uma leitura mais profunda dos dilemas pessoais que movem os personagens – a maldição eterna do holandês, o interesse pecuniário de Daland ou os recalques de Senta –, por outro os recursos são empregados de forma consciente e plena de significado.

O destaque vocal do espetáculo foi a ótima atuação do barítono Rodrigo Esteves no papel do holandês. Rodrigo tem uma bela voz, rica e homogênea em toda a extensão, e é dono de uma natural atuação cênica. Com este material, o artista construiu o melhor personagem da noite. Denis Sedov, o baixo russo que fez Daland, o pai de Senta, tem uma voz possante e fez seu papel com correção (apenas sua pronúncia do alemão deixou um pouco a desejar). Senta foi feita pela soprano Tati Helene. Apesar de mostrar dotes vocais como poderosos agudos, Tati cantou com pouca variedade interpretativa. Faltou-lhe também um maior envolvimento com o personagem, especialmente nos importantes duetos do segundo ato (aliás, um intervalo entre o primeiro e o segundo ato talvez tivesse sido revigorante para artistas e plateia...). Ressalte-se que Senta é papel chave no Navio fantasma, que exige uma cantora de maturidade, pois o personagem é o pivô de todo drama da redenção pelo amor.


O barítono Rodrigo Esteves foi o principal destaque vocal do espetáculo [foto: Elza Lima/divulgação]

Teve boa atuação como Erik o tenor Ricardo Tamura, enquanto que a mezzo soprano Jéssica Wisniewski pareceu ainda não pronta para o papel de Mary. Completou o quadro de solistas o tenor Antonio Wilson de Azevedo como timoneiro.

A regência foi do maestro Miguel Campos Neto, jovem e talentoso titular da Sinfônica do Theatro da Paz, que soube conduzir com competência o discurso musical wagneriano. Porém, sua determinação e rigor um pouco exagerados – talvez em função do desafio que a partitura encerra para a orquestra –, fizeram com que faltasse um melhor acabamento no resultado final sonoro. Problemático foi o desempenho do coro, que tem importante função especialmente no terceiro ato. Na récita de segunda-feira (dia 23/9), o coro esteve desequilibrado, com fortes exagerados e expostos, por vezes bastante destoantes.

A produção deste O navio fantasma em Belém, primeira ópera de Wagner do centenário Theatro da Paz, festeja os 200 anos do compositor alemão e, junto com o Trovador, de Verdi (também aniversariante do ano) e do Elixir, de Donizetti, fecha mais uma criteriosa e ambiciosa temporada do Festival de Ópera do Theatro da Paz (ainda haverá uma récita do Navio hoje, dia 25, e um concerto de encerramento no dia 28). Eventuais desníveis não comprometem o bom resultado artístico geral, e fazem parte da correta proposta de incorporar na produção os talentos da cena lírica paraense e nacional.

[Nelson Rubens Kunze viajou a Belém e assistiu a O navio fantasma a convite do Festival de Ópera do Theatro da Paz]

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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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