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Mário de Andrade e o fim do Coral Paulistano (4/10/2013)
Por Nelson Rubens Kunze

No próximo dia 9 de outubro, Mário de Andrade completaria 120 anos. Um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros do século XX, Mário exerceu forte influência sobre o pensamento crítico da primeira metade do século passado, tendo sido um dos grandes ideólogos da cultura e da música brasileira de seu tempo. Nos anos 1930, foi ele um dos idealizadores do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo, órgão precursor da atual Secretaria Municipal de Cultura. No breve tempo em que dirigiu aquele Departamento, de 1934 a 1937, Mário implantou a discoteca municipal (hoje Discoteca Oneyda Alvarenga) e criou o Coral Paulistano e o Quarteto Haydn (depois rebatizado de Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo), todos hoje pertencentes à Fundação Theatro Municipal de São Paulo (informações obtidas do artigo de Camila Frésca da edição corrente da Revista CONCERTO, publicado exatamente por conta dos 120 anos de Mário de Andrade).

Apesar de eu conferir grande importância à história e às obras culturais do passado, acho saudável refletir sobre ideias e estruturas herdadas, e de questioná-las sobre a sua pertinência nos dias de hoje. Isso é correto e desejável, também para “racionalizar trabalho e diminuir custos operacionais”, como quer o diretor da Fundação Theatro Municipal, José Luiz Herencia, ao justificar o estudo da fusão dos históricos corais Lírico e Paulistano. Em sua entrevista ao jornal “Folha de S. Paulo” (leia aqui), Herencia ainda afirma que, “no momento em que o Municipal assume vocação para ópera, há a necessidade de ter um coro como os de teatros como o Colón de Buenos Aires e o Metropolitan de Nova York”, deixando claro que, nesta fusão, quem será sacrificado é o Paulistano, já que a vocação de coro de ópera é a do Coral Lírico.

John Neschling, diretor artístico do Theatro, também acabou se manifestando, em entrevista concedida a João Luiz Sampaio e publicada no jornal “O Estado de S. Paulo” (leia aqui). Neschling identifica duas vertentes de críticas à ideia da fusão (e do fim do Coral Paulistano), uma quanto à questão histórica, pelo fato do coral ter sido criado por Mário de Andrade, e outra quanto a um suposto descaso pela música brasileira. Com sua habitual verve, Neschling argumenta que o “historicismo puro e simples é algo calcificado e, se você se prende a ele, vira estátua de sal”. Quanto à música brasileira, o maestro não vê na fusão uma agressão a ela. E completa: “O que não dá é manter um coro de 38 pessoas em um teatro de ópera, fazendo concertos que nada têm a ver com a vocação do Municipal”.


Coral Paulistano na escadaria do Theatro Municipal [foto: Gal Oppido/divulgação]

Com tantas ações mais prioritárias para um funcionamento mais adequado do Theatro Municipal de São Paulo – todos sabemos que o modelo de gestão da fundação com a OS ainda está em fase de ajustes e o próprio Neschling enumera na entrevista as deficiências da orquestra e da área técnica – causou surpresa o Theatro Municipal levantar a ideia de fusão dos coros, já que, se não se pretende mesmo demitir coralistas, não deve ser expressiva a racionalização do trabalho e a diminuição de custos que a decisão ensejaria.

Mas a questão central é o prisma pelo qual se enxerga a tal da vocação do Theatro Municipal de São Paulo, historicamente um ente multifacetado e complexo. Pois não é uma vocação, são muitas! O Theatro Municipal não é apenas uma casa de ópera, com orquestra e coral, que queremos ver funcionando de maneira moderna com produções artisticamente relevantes. Ele é também a Praça das Artes, a Orquestra Experimental de Repertório, o Coral Paulistano, o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo (aquele mesmo também fundado por Mário de Andrade), o Balé da Cidade de São Paulo, a Escola Municipal de Música e a Escola Municipal de Bailado.

A proposta de fusão dos corais é o fim do Coral Paulistano. Com sua missão histórica de grupo de câmara dedicado ao repertório a cappella e à música brasileira, o Coral Paulistano deveria ser incentivado a desenvolver uma agenda própria, que não tenha necessariamente a ver com as óperas do Theatro Municipal. Se o projeto nacionalista que o concebeu venceu e está superado, que seja atualizado. Acredito que, em uma cidade como São Paulo, é muito fácil identificar a importância do trabalho que um coro dessas características poderia desenvolver.

Conforme a nota divulgada pela Fundação Theatro Municipal de São Paulo, o estudo da fusão dos corais Lírico e Paulistano será em breve submetido ao Conselho Deliberativo da Fundação. Esperemos que os membros deste conselho analisem a fusão e a decorrente extinção do Coral Paulistano em sua plenitude. O Coral Paulistano merece ser avaliado na perspectiva de sua história e tradição. E merece ser avaliado no seu potencial de renovação, para, se for o caso, requalificar-se na missão da difusão do canto coral e do fomento à música brasileira.





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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