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“O menino e a liberdade”: vamos encomendar óperas? (4/11/2013)
Por Irineu Franco Perpetuo

Do ano passado para cá, o Theatro São Pedro começou gradualmente a resgatar sua verdadeira vocação, com uma escolha de títulos adequada às suas condições físicas e logísticas. Com O menino e a liberdade, encenada na semana passada, a casa dá um passo adiante: sinaliza em uma direção que deveria ser seguida por outras instituições musicais brasileiras, com a encomenda de uma ópera contemporânea.

Breve (50 minutos), e vazada no mais tonal e “acessível” dos idiomas musicais, a partitura de Ronaldo Miranda é baseada no breve conto homônimo de Paulo Bomfim – ambientado, por sinal, a poucos metros do Theatro São Pedro, na praça Marechal Deodoro, onde uma mãe pega um lotação com o filho de 6 anos, que lhe pergunta o significado da palavra “livre”.

Ao elaborar o libreto da ópera, Jorge Coli operou uma engenhosa ampliação do relato de Bomfim – sem, contudo, trair seu caráter simples e conciso. Coli penetra na psiquê dos passageiros do lotação, revelando suas angústias e motivações internas, porém evitando cair nos clichês e armadilhas de pretensiosa grandiloquência a que se arrisca quem tenta definir em palavras a liberdade. Opta por um português brasileiro e contemporâneo, no limite da coloquialidade, polido com uma elegância que muito teria a ensinar a nossos sobrevalorizados letristas de MPB. Seus personagens querem ser livres “como um táxi”. Simples assim. Claro assim. Direto assim.


Todo o elenco da ópera nos coloridos figurinos de Milton Fucci [foto: divulgação]

Sendo o conto datado de 1957, a direção cênica de Mauro Wrona escolheu imprimir à encenação uma fisionomia “de época”. Não foi o caso, porém, de sobrecarregar o palco com signos de meio século atrás; mais do que reconstituir o período, Wrona parecia querer sugeri-lo, por meio dos coloridos figurinos de Milton Fucci, plasticamente articulados com a cenografia funcional e abstrata de Duda Arruk na construção de um todo que se revelou limpo e evocativo.

O sabor “retrô” também perpassa o mundo sonoro que Miranda construiu para a obra. A impressão que temos é que, se algum dos personagens da ópera ligasse um rádio, a música que dali brotaria seria bastante similar à que ouvimos no palco. O compositor segue a tradicional estrutura de “ópera de números” e, à exceção do número “latino” do Chofer (um tango que também tinha algo do bolero Bésame Mucho), as árias são de caráter seresteiro – algo entre Radamés Gnattali, a fase final de Villa-Lobos e a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, com generosas pitadas de Leonard Bernstein. Na fronteira entre a ópera, a opereta e o musical, Miranda escreve para as vozes (e não contra elas), com melodias que “colam” no ouvido, e favorecendo a articulação e compreensão do texto. Poder-se-ia pedir, talvez, um maior contraste entre os números musicais; e, do ponto de vista do tempo dramático, a cena da altercação entre o Senhor Distinto e os demais personagens (que inclui uma citação do Hino da proclamação da República, de Leopoldo Miguez) tende a soar um pouco longa e redundante.

Grande defensor da música brasileira, o maestro Roberto Duarte soube cuidar do equilíbrio entre as vozes e a Orquestra do Theatro São Pedro, por ele criada, que, sob sua regência, transmitiu todo o colorido “hollywoodiano” da instrumentação de Miranda.

O elenco teve um desempenho de nível similar, tanto do ponto de vista vocal, quanto do cênico. A soprano Caroline de Comi (A Moça) desincumbiu-se com facilidade e segurança de suas coloraturas e agudos, enquanto o barítono Inácio de Nonno, outro campeão do repertório nacional, revelou-se plenamente à vontade como O Chofer.

A mezzo-soprano Luciana Bueno repetiu, como A Mãe, o belo desempenho que teve no mesmo palco, em junho, em The Turn of the Screw, de Britten – reeditando a parceria com o talentoso Ivan Marinho (O Menino), de apenas 13 anos. O barítono Sebastião Teixeira encarou com verve a ingrata parte do Senhor Distinto, enquanto o tenor Flávio Leite (O Rapaz) demonstrou apuro em uma das mais líricas árias de amor homoerótico do repertório.

Estive presente à última das três récitas – no domingo, dia 3. Pelo que me disseram, no que se refere à recepção, o que vi por lá foi o mesmo cenário das apresentações anteriores: casa lotada, com público aplaudindo de pé, e entusiasmado. Resta torcer para que este sucesso garanta a continuidade da política de encomendas do São Pedro, e estimule outros teatros a seguirem seu exemplo.

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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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