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Um “Réquiem”, duas ressurreições (uma “sentimental”, outra “ingênua”) (25/11/2013)
Por Leonardo Martinelli

Quis o acaso que, numa mesma semana, a capital paulista abrigasse simultaneamente duas produções distintas do Réquiem de W.A. Mozart, sua derradeira obra, que deixada inconclusa, é portadora de intensa dramaticidade musical (quem quiser saber mais sobre esta peça, pode ler o texto que escrevi na seção “Repertório” da edição de novembro da Revista CONCERTO).

O Réquiem entrou tanto na programação da temporada da Osesp como na do Theatro Municipal de São Paulo (TMSP). No último sábado, dia 23 de novembro, foi mesmo possível ouvir as duas versões num mesmo dia: de tarde, na Praça Júlio Prestes, e de noite, na Praça Ramos de Azevedo. Entretanto, preferi distribuir a dose em dois dias distintos, sexta-feira com a Osesp, então regida por Nathalie Stutzmann, e sábado no Municipal, sob a direção de Rinaldo Alessandrini.

A situação não poderia ser mais interessante, menos por um improvável clima de rivalidade entre os corpos estáveis estaduais e municipais e mais pelas diferenças artísticas previsíveis em jogo.

Como era de se esperar, as diferenças determinantes entre as interpretações foram predominantemente conferidas pela atuação de seus respectivos regentes. Notabilizada como uma das grandes contraltos da atualidade, recentemente Stutzmann começou a realizar suas primeiras incursões no pódio orquestral. Por sua vez, Alessandrini tem um brilhante retrospecto ao cravo e com outros instrumentos de tecla, perfazendo trajetória de respeito na música antiga, culminada com a fundação do grupo Concerto Italiano. Ao contrário de sua colega francesa, o italiano atua já há um bom tempo como maestro e diretor musical.


Regentes Rinaldo Alessandrini e Nathalie Stutzmann [fotos: Éric Larrayadieu e Simon Fowler/divulgação]

Ao ouvir em um espaço de tempo tão curto versões tão distintas para este mesmo Réquiem veio-me à mente a distinção entre os dois tipos de poetas que Friedrich Schiller fez no ensaio Über naive und sentimentalische Dichtung (ou Sobre poesia ingênua e sentimental), de 1795. Sendo ele mesmo um poeta (mais conhecido na música clássica como autor dos versos da Nona de Beethoven), Schiller explica que o poeta ingênuo é aquele que realiza seu ofício de forma essencialmente natural e espontânea. Seu poema é fruto de uma visão essencialmente pessoal e sem vínculos fortes com critérios de ordem técnica e estrutural. De certa, o poeta sentimental objetiva a mesma naturalidade e espontaneidade. Porém, afligi-o o mero deixar-se levar das palavras, e ciente do mundo ao redor, lança mão de todos os artifícios e recursos técnicos disponíveis para construir seu universo poético. Em tempo, nenhum é melhor que o outro. Trata-se apenas de natureza e ímpetos artísticos distintos, que por sua vez, resultam de produtos artísticos igualmente diferentes.

Nestes termos, penso que a interpretação realizada por Stutzmann tendeu mais para o “ingênuo” (se o termo lhe parecer ofensivo – o que absolutamente não é neste contexto – use o galicismo “naïf”), no qual pesou mais sua intuitividade e vivência como cantora lírica para enfatizar a dramaticidade inerente a esta partitura, em especial no Introitus e no Agnus Dei, quando chegou mesmo a propor tempos e articulações bastante pessoais. Aqui e acolá a falta de domínio de gesto de Stutzmann levou o conjunto a pontuais mas perceptíveis imprecisões rítmicas.

Por sua vez, Alessandrini propôs um Réquiem cameristicamente articulado, retoricamente estudado, no qual as nuances dos diferentes níveis de escritura – coral, solista e orquestral – ficaram belissimamente explicitadas a partir de um intenso trabalho de articulação proposto aos músicos da Orquestra Sinfônica Municipal. Aqui e acolá a defasagem técnica do grupo fez-se presente (por exemplo, a afinação dos violinos nos primeiros compassos do Recordare), o que não tira os méritos de sua atuação como um todo.

Cada qual ao seu modo, os corais envolvidos nestas produções desempenharam seu papel de forma bela e eficiente. Na Sala São Paulo, o Coro Sinfônico da Osesp – preparado por Naomi Munakata – soube explorar a sonoridade reverberante do espaço e fundir-se com a massa instrumental de sua orquestra. Por sua vez o Coral Paulistano – preparado por Bruno Greco Facio – deu novamente mostra de seu importante trabalho e atuação. A acústica do TMSP é significativamente mais seca, o que coloca todo o trabalho de dicção mais a nu, o que neste caso foi um bônus para a atuação do grupo vocal.

Da mesma forma foram equilibrados e eficientes, mas não necessariamente comoventes, as atuações dos quartetos solistas integrados, na SSP, por Lisa Larsson, Wilke te Brummelstroete, John Mark Ainsley e Burak Bilgili; e no TMSP, por Mihaela Marcu, Luisa Francesconi, Stanislas de Barbeyrac e Marcelo Otegui. Ainda que alguns destaques individuais possam ser feitos, não foi nada que se ressaltasse frente ao conjunto de suas respectivas produções (e penso mesmo que o Réquiem não seja o lugar de especial brilho para os solistas, ao contrário do que ocorre no Réquiem de Verdi, por exemplo).

Apesar das duas produções terem proporcionado ao público duas belas e distintas “ressurreições” desta partitura, o ponto negativo de ambas as apresentações foi a concepção de concerto que as orientou.

Logo após a morte de Mozart, seu Réquiem iniciou notável trajetória como peça de concerto (vale a pena lembrar que ele foi originalmente concebido como música litúrgica, em tese composta para ser executada num templo católico, ao longo de uma missa pro defunctis). Entretanto, por diversos motivos, o Réquiem não é uma peça de concerto comum.

Eventualmente curta demais para ocupar todo um concerto, em ambas as ocasiões optou-se por programar uma peça instrumental a título de “abertura”. Com a Osesp a Sinfonia n° 1 de Mendelssohn foi um prelúdio da sonoridade romantizada que Stutzmann iria desenvolver, enquanto que no TMSP a Suíte Orquestral n° 3 de Bach ditou os rumos camerísticos da visão de Alessandrini. Ainda assim, em termos musicais, a inserção destas peças se mostrou essencialmente protocolar e burocrática (em tempo, suas respectivas interpretações nem de longe soaram assim) ao não estabelecer qualquer tipo de vínculo significativo com o Réquiem, o verdadeiro motivo para que todos os espectadores – tanto os vivos como os mortos – estarem ali reunidos.

Clássicos Editorial Ltda. © 2013 - Todos os direitos reservados.
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Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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