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“Bohème” em cinquenta tons de cinza (11/12/2013)
Por Leonardo Martinelli

Sete meses depois da encenação da primeira ópera deste ano, o Theatro Municipal de São Paulo encerra com La bohème, de Giacomo Puccini, sua temporada 2013, marcada pela chegada do maestro John Neschling e por uma série de mudanças de ordem artística e administrativa na instituição.

O espetáculo conta com a direção musical e regência do próprio Neschling – à frente da Orquestra Sinfônica Municipal, do Coral Lírico e das crianças do Coral da Gente – e com a direção cênica, concepção cenográfica e desenho de luz de Arnaud Bernard. Com esta Bohème, o Municipal paulistano proporciona um belo espetáculo, equilibrado em seus diversos componentes, que alimenta altas expectativas para o que pode vir na próxima temporada.


Uma Paris fria e miserável é criada em tons de cinza [fotos: Fábio Mendonça/divulgação]

O elenco da estreia, em 10 dezembro, teve o casal protagonista encarnado pela soprano Alexia Voulgaridou (Mimì) e pelo tenor Atalla Ayan (Rodolfo). Não bastasse serem detentores de vozes privilegiadas, ambos encontram-se em ótimo estágio em suas respectivas carreiras, sabendo usufruir com segurança e musicalidade os momentos de intensa comoção previstos no primeiro ato, tal como nas árias Che gelida manina e Mi chiamano Mimì. Timbricamente equilibrados, uniram-se à dupla os barítonos Simone Piazzola (Marcello) e Mattia Olivieri (Schaunard) e o baixo Felipe Bou (Colline), todos atuando de forma igualmente competente tanto cênica como musicalmente.

Se houve um “desequilíbrio” ele ocorreu de forma virtuosa a partir da entrada em cena da soprano Mihaela Marcu. Sua Musetta investe de forma natural na sensualidade física sugerida pelo papel. Porém, Marcu vai além das aparências, e sua personagem se intensifica a partir de uma voz de vibrato franco e explícito, mas perfeitamente adequado ao contexto. Completaram o elenco, com breves e eficazes aparições, Saulo Javan (Benoît), Carlos Eduardo Marcos (Alcindoro) e Jean Nardoto (Parpignol).


A soprano romena Mihaela Marcu foi um dos destaques do elenco, no papel de Musetta

Senhor da narrativa musical da partitura de Puccini, Neschling foi o pivô de uma Bohème fluente, na qual destaca-se também o belo trabalho realizado pelos músicos da Sinfônica Municipal. Pontualmente o equilíbrio dinâmico entre palco e fosso titubeou em virtude do já conhecido “buraco negro acústico” pelo qual passam as emissões vocais realizadas a certa distância do proscênio (tal como nas cenas do primeiro e no terceiro ato). Embora visualmente exuberante, a balbúrdia natalina do segundo ato infelizmente estremeceu a sincronia entre os corais e a orquestra.

Realizada a partir de uma produção concebida em 2011 para o Teatro Mikhailovsky, de São Petersburgo, a montagem do diretor cênico Arnaud Bernard investe em matizes de cinza para a ambientar uma Paris fria e miserável, na qual todo e qualquer colorido provém apenas da música ou da emoção das personagens. Em sua Bohème, Bernard enfatiza o trabalho do cantor-ator, e para isso relativiza a proeminência do discurso visual de sua montagem, paradoxalmente criando imagens e símbolos de grande impacto, embora a chuva de rosas ao final do espetáculo pareça um tanto dispensável e clichê frente à elegância e o minimalismo empregado em todo o conjunto.

Mas, oras bolas, Mimì é morta, e se não nos permitirmos sermos sentimentais e piegas neste momento, quando então?

[La bohème fica em cartaz no Theatro Municipal de São Paulo até o dia 29 de dezembro; confira datas e outros detalhes aqui]

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Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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