Banner 468x60
Banner 180x60
Bom dia.
Terça-Feira, 24 de Outubro de 2017.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


 

Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes

 
 
 
Richard Wagner vai ao consultório médico (19/12/2013)
Por Marco Aurélio Scarpinella Bueno

O ano de 2013 está acabando e muito se escreveu sobre os 200 anos de nascimento de Richard Wagner (1813-1883). Vou acrescentar meus cinco centavos, mas “puxando a sardinha” para o meu lado. Não é novidade para os biógrafos de Wagner que sua saúde era complicada: infecções recorrentes de pele, alergias alimentares e mesmo o coração lhe pregou alguns sustos. Mas o que mais lhe causava problemas eram as crises de enxaqueca. Em diversas cartas endereçadas a Cosima, sua esposa, Wagner se referia às dores de cabeça recorrentes como “praga compulsiva” e “dor interminável”, termos usados pelo nibelungo Mime no início da ópera Siegfried. Só quem sofre de enxaqueca sabe quão ruim é.

A enxaqueca é uma forma comum de cefaleia (dor de cabeça) que afeta cerca de 12% da população geral (7% dos homens entre 30 e 39 anos). Classicamente a dor é recorrente e se manifesta através de crises que podem durar algumas horas ou mesmo dias. Um em cada quatro pacientes com enxaqueca apresentará a chamada aura: manifestações visuais (maioria), auditivas, sensoriais e até motoras que acompanham a intensa dor. Esta dor é geralmente unilateral, pulsátil e acompanhada por náuseas, vômitos e fotofobia (intolerância à luz).

Durante os vinte e seis anos (1848-1874) em que trabalhou na gênese do Anel do Nibelungo, Wagner apresentou inúmeras crises de enxaqueca que interromperam o árduo trabalho. Em setembro de 1856, quando se debruçava sobre Siegfried (a terceira ópera do ciclo), Wagner anotou em seu diário: “Tão logo comecei a abertura fui atacado pela maior praga da minha vida!” Alguns meses depois (janeiro de 1857) escreveu a Liszt sobre suas “dores de cabeça nervosas” e o receio de estar há dez dias sem conseguir escrever uma nota sequer: “Como reconquistarei minhas forças? Apesar de tudo, estava bem durante O ouro do Reno, mas A Valquíria me provocou tanta dor. No momento minha cabeça parece um piano muito desafinado, e é com esse instrumento que pretendo produzir Siegfried.”


Wagner se referia às dores de cabeça recorrentes como “praga compulsiva” e “dor interminável”

Pois bem. A edição de dezembro do British Medical Journal, um dos periódicos médicos mais respeitados do mundo, traz um artigo dos doutores Carl Göbel, Anna Göbel e Hartmut Göbel descrevendo como Wagner transportou para a música suas terríveis crises de enxaqueca. Os autores usam a cena 3 do primeiro ato de Siegfried para ilustrar a típica aura visual da enxaqueca.

O “leitmotif da enxaqueca” é exemplificado por uma “linha melódica cintilante e fugaz de padrão alternante” segundo os neurologistas. Sobre o leitmotif um irritado Mime canta: “Luz repugnante! Estará o céu em chamas? O que queima e brilha, brilha e queima? O que gira e pisca, pisca e cintila? Brilha mais que o Sol! Quem vem lá que cantarola de forma tão arrogante?” De fato trata-se de uma descrição bem vívida de quem sofre de enxaqueca.

E tem mais. Estudos bem conduzidos mostraram que a frequência de cintilação dos fenômenos visuais durante uma crise de enxaqueca atinge 17,8Hz. Wagner compôs este “leitmotif da enxaqueca” em um compasso 2/4 e os violinos e violas responsáveis pela “melodia cintilante” tocam 16 fusas por compasso. Isto corresponde a uma frequência de 16Hz assumindo-se um andamento de 120 batidas por minuto em um metrônomo. Tempo bastante próximo daquele em que os fenômenos visuais da aura ocorrem nos modelos experimentais.

Apesar das crises frequentes Wagner terminou o primeiro ato de Siegfried em dezembro de 1856, interrompendo o projeto no meio do ato seguinte. Só voltou a ele após 12 anos completando-o em 1864. A ópera só foi terminada em 1871. Durante os ensaios para a estreia (em Bayreuth, no dia 16 de agosto de 1876) Wagner deu instruções claras ao maestro Hans Richter para que usasse tempi mais rápidos. Seria uma tentativa de pôr em música o sofrimento causado pelas dores lancinantes?

Clássicos Editorial Ltda. © 2013 - Todos os direitos reservados.
A reprodução deste conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para esta página.





Marco Aurélio Scarpinella Bueno - é médico e pesquisador musical.

Mais Textos

Primeiras impressões sobre a temporada da Osesp Por João Marcos Coelho (29/9/2017)
“Tosca” tem montagem competente no Rio de Janeiro Por Nelson Rubens Kunze (28/9/2017)
Refinamento e inventividade em “Brazilian Landscapes” Por Camila Frésca (28/9/2017)
Um “Nabucco” problemático no Theatro Municipal de São Paulo Por João Luiz Sampaio (26/9/2017)
Na estreia com a Osesp, Leonardo Hilsdorf encanta a Sala São Paulo Por Irineu Franco Perpetuo (22/9/2017)
Festival de Ópera do Theatro da Paz faz bom “Don Giovanni” Por Nelson Rubens Kunze (19/9/2017)
Penderecki e Szymanowski: uma noite musical maior Por Jorge Coli (18/9/2017)
Novo fôlego para a ópera no RS Por Everton Cardoso (8/9/2017)
Wagner de boa qualidade, mas sem lirismo e vigor dramático Por Jorge Coli (4/9/2017)
Finalmente Dudamel “suja” mãos e batuta com a “política” Por João Marcos Coelho (24/8/2017)
Dobradinha “Pulcinella & Arlecchino” tem boa realização no Theatro São Pedro Por Nelson Rubens Kunze (23/8/2017)
O bel canto colorido e expressivo de Javier Camarena Por Irineu Franco Perpetuo (10/8/2017)
Osesp faz belo concerto com programa raro Por Jorge Coli (9/8/2017)
Terceira edição do Festival Vermelhos consolida projeto cultural em Ilhabela Por Camila Frésca (8/8/2017)
Em busca da música Por João Marcos Coelho (28/7/2017)
Neojiba: o exemplo da Bahia para o Brasil Por Irineu Franco Perpetuo (24/7/2017)
Você conhece José Vieira Brandão? Por João Marcos Coelho (12/7/2017)
Campos do Jordão, Salzburg e a economia da cultura Por Nelson Rubens Kunze (12/7/2017)
Rameau em “dreadlocks” Por Jorge Coli (11/7/2017)
Isabelle Faust, Vadim Repin e Julian Rachlin: sobre expectativas, decepções e boas surpresas Por Camila Frésca (5/7/2017)
Encomenda da Osesp mostra Mehmari maduro Por Irineu Franco Perpetuo (3/7/2017)
Fórum apresenta importantes orientações para “endowments” culturais no Brasil Por Nelson Rubens Kunze (10/6/2017)
Filme “Filhos de Bach” marca por sua sensibilidade e delicadeza Por Nelson Rubens Kunze (9/6/2017)
Transformação social e o futuro da música clássica Por Anahi Ravagnani e Leonardo Martinelli (30/5/2017)
Os extras contemporâneos de Isabelle Faust na Sala São Paulo Por João Marcos Coelho (25/5/2017)
Festival Amazonas de Ópera encena ‘Tannhäuser’ e comemora 20ª edição Por Nelson Rubens Kunze (23/5/2017)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Outubro 2017 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
1 2 3 4 5 6 7
8 9 10 11 12 13 14
15 16 17 18 19 20 21
22 23 24 25 26 27 28
29 30 31 1 2 3 4
 

 
São Paulo:

28/10/2017 - Fabio Luz - piano

Rio de Janeiro:
28/10/2017 - XXII Bienal de Música Brasileira Contemporânea

Outras Cidades:
26/10/2017 - Ribeirão Preto, SP - Festival Música Nova Gilberto Mendes
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2017 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046