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Richard Wagner vai ao consultório médico (19/12/2013)
Por Marco Aurélio Scarpinella Bueno

O ano de 2013 está acabando e muito se escreveu sobre os 200 anos de nascimento de Richard Wagner (1813-1883). Vou acrescentar meus cinco centavos, mas “puxando a sardinha” para o meu lado. Não é novidade para os biógrafos de Wagner que sua saúde era complicada: infecções recorrentes de pele, alergias alimentares e mesmo o coração lhe pregou alguns sustos. Mas o que mais lhe causava problemas eram as crises de enxaqueca. Em diversas cartas endereçadas a Cosima, sua esposa, Wagner se referia às dores de cabeça recorrentes como “praga compulsiva” e “dor interminável”, termos usados pelo nibelungo Mime no início da ópera Siegfried. Só quem sofre de enxaqueca sabe quão ruim é.

A enxaqueca é uma forma comum de cefaleia (dor de cabeça) que afeta cerca de 12% da população geral (7% dos homens entre 30 e 39 anos). Classicamente a dor é recorrente e se manifesta através de crises que podem durar algumas horas ou mesmo dias. Um em cada quatro pacientes com enxaqueca apresentará a chamada aura: manifestações visuais (maioria), auditivas, sensoriais e até motoras que acompanham a intensa dor. Esta dor é geralmente unilateral, pulsátil e acompanhada por náuseas, vômitos e fotofobia (intolerância à luz).

Durante os vinte e seis anos (1848-1874) em que trabalhou na gênese do Anel do Nibelungo, Wagner apresentou inúmeras crises de enxaqueca que interromperam o árduo trabalho. Em setembro de 1856, quando se debruçava sobre Siegfried (a terceira ópera do ciclo), Wagner anotou em seu diário: “Tão logo comecei a abertura fui atacado pela maior praga da minha vida!” Alguns meses depois (janeiro de 1857) escreveu a Liszt sobre suas “dores de cabeça nervosas” e o receio de estar há dez dias sem conseguir escrever uma nota sequer: “Como reconquistarei minhas forças? Apesar de tudo, estava bem durante O ouro do Reno, mas A Valquíria me provocou tanta dor. No momento minha cabeça parece um piano muito desafinado, e é com esse instrumento que pretendo produzir Siegfried.”


Wagner se referia às dores de cabeça recorrentes como “praga compulsiva” e “dor interminável”

Pois bem. A edição de dezembro do British Medical Journal, um dos periódicos médicos mais respeitados do mundo, traz um artigo dos doutores Carl Göbel, Anna Göbel e Hartmut Göbel descrevendo como Wagner transportou para a música suas terríveis crises de enxaqueca. Os autores usam a cena 3 do primeiro ato de Siegfried para ilustrar a típica aura visual da enxaqueca.

O “leitmotif da enxaqueca” é exemplificado por uma “linha melódica cintilante e fugaz de padrão alternante” segundo os neurologistas. Sobre o leitmotif um irritado Mime canta: “Luz repugnante! Estará o céu em chamas? O que queima e brilha, brilha e queima? O que gira e pisca, pisca e cintila? Brilha mais que o Sol! Quem vem lá que cantarola de forma tão arrogante?” De fato trata-se de uma descrição bem vívida de quem sofre de enxaqueca.

E tem mais. Estudos bem conduzidos mostraram que a frequência de cintilação dos fenômenos visuais durante uma crise de enxaqueca atinge 17,8Hz. Wagner compôs este “leitmotif da enxaqueca” em um compasso 2/4 e os violinos e violas responsáveis pela “melodia cintilante” tocam 16 fusas por compasso. Isto corresponde a uma frequência de 16Hz assumindo-se um andamento de 120 batidas por minuto em um metrônomo. Tempo bastante próximo daquele em que os fenômenos visuais da aura ocorrem nos modelos experimentais.

Apesar das crises frequentes Wagner terminou o primeiro ato de Siegfried em dezembro de 1856, interrompendo o projeto no meio do ato seguinte. Só voltou a ele após 12 anos completando-o em 1864. A ópera só foi terminada em 1871. Durante os ensaios para a estreia (em Bayreuth, no dia 16 de agosto de 1876) Wagner deu instruções claras ao maestro Hans Richter para que usasse tempi mais rápidos. Seria uma tentativa de pôr em música o sofrimento causado pelas dores lancinantes?

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Marco Aurélio Scarpinella Bueno - é médico e pesquisador musical.

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