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Diário Cartagena (7/1/2014)
Por Leonardo Martinelli

13/01/2014 – Homens de gelo não derretem no Caribe (e um final de festival com um suave toque de realismo mágico)

Um quarteto de cordas não é apenas um grupo instrumental: é também um estilo de vida. Em geral, os músicos que se dispõem a participar de uma formação como esta não estão apenas assumindo um mero compromisso profissional. Ele é, sem dúvida, o ponto de partida do qual se engendra toda uma dinâmica sócio-psicológica na vida destes quatro indivíduos, que na melhor das hipóteses se fundem em um corpo musical uno e orgânico. O reduzido número de participantes inviabiliza uma relação impessoal, teoricamente mais possível em meio ao batalhão de músicos que serve numa orquestra, por exemplo. Ou seja, constitui-se uma espécie de família, e como todos sabemos, o equilíbrio familiar é também uma arte.

Talvez seja por isso que os russos do Quarteto Borodin tenham se colocado um tanto quanto apartados do contexto tão específico que naturalmente se instaurou no Festival Internacional de Música de Cartegena, e que de certa forma é a raiz de seu charme.

Uma das grandes atrações do evento, o grupo foi programado para atuar em diversas ocasiões: um concerto noturno ao livre, dois diurnos (no mesmo dia) numa capela desacralizada e apenas um meio concerto no teatro. Em todos seus integrantes mostram-se incólumes ao calor que cola na pele, não se deixando influenciar pelo clima de exuberância e latinidade que em grande parte se fizeram presente nas interpretações das Irmãs Labèque, da Orpheus Chamber Orchestra, de Rinaldo Alessandrini e de toda uma programação crossover que correu ao largo do festival: muitos inclusive subiram ao palco vestidos com as vivas cores locais ou com elegantes guayaberas, camisas de linho muito comuns na costa colombiana, mesmo em situações formais. Nada disso comoveu “los borodinos”, que não abriram mão de trajes negros e do smoking.

Quarteto Borodin durante concerto na Capilla Santa Clara

Sempre a interpretar compositores russos (Borodin, Shostakovich e Tchaikovsky) eles se mantiveram como sólidos blocos de gelo que insistem em não derreter, não importando o quão quente a atmosfera e o público pudessem estar. E, em tempo, tudo isso o que digo é um elogio, pois na medida em que se mantiverem na dinâmica que sustenta esse equilíbrio musical e familiar, o quarteto nos convidou a uma escuta mais ativa, na qual coube ao público ceder para ouvir o que eles tinham a dizer. E, como sabemos, eles têm muito a falar e nos deleitar nesta singular oratória de câmara que há décadas eles promovem.

Finale (à la García Marquez)

Era uma vez um vilarejo que de tão pobre e miserável sequer foi possível encontrar nestes modernos mapas eletrônicos: Palenque, de cujas sílabas derivam a palavra palenquera, substantivo-título-epíteto que formosas mulheres de cor ébano orgulhosamente ostentam enquanto sustentam em cima de suas cabeças bacias com melancias, papaias, carambolas, bananas e mangas. Uma figura que aos brasileiros ora evoca a Carmen Miranda, ora as baianas em seus tabuleiros, aqui desprovidos de acarajés (ainda que sempre exista um vendedor de arepas por perto).

Em Palenque nasceu não apenas as palenqueras, mas também a champeta, ritmo de raízes africanas, no qual tambores e violões se entrecruzam freneticamente, mas que tal como muitas manifestações populares, não resistiu à eletrificação da modernidade e ao insano apelo de graves em sub-woofer tocados em volume colossal.

Um dia o dia-a-dia dessas ruas de terra batida, onde o calor se faz ainda mais presente, onde cães, ovelhas e leitões caminham tranquilamente tal como habitantes, onde os habitantes se tratam como familiares, onde, enfim, o dia-a-dia foi interrompido pela chegada de caminhões, carros, caminhonetas da cidade, que então ocupou o vilarejo. Ao lado da pequena igreja de paredes e vigas inconclusas logo se concluiu um palco. E se simulou a plateia de um teatro. E em suas cadeiras de plástico se sentou outra cepa forasteiros. E tal como sempre, as do vilarejo continuaram a passar ao largo delas: a cidade até poderia ter se instalado no vilarejo, mas isto não significava que elas se integravam.

Rua de Palenque, povoado do estado de Bolívar

Logo o véu noturno caiu, e com ele chegaram outras pessoas da cidade. Não a mesma daquela das que estavam sentados nas filas de cadeiras brancas da praça, mas de um lugar muito mais distante. Se diziam boêmios. E ciganos. E tinham algo para tocar. As champetas até foram silenciadas, mas já à mãe-terra não é possível dar ordens...

A mesma luz que abrilhantava o sorriso charlatanesco do violinista húngaro atraiu para seu entorno outros moradores locais. Munidos de pequenas asas, hábil velocidade e muito apetite para o sangue boêmio (verdadeira justiça poética a dar sorriso aos pontiagudos caninos do Conde Drácula), logo o violinista e sua intrépida trupe foram alvo de um verdadeiro banquete.

Na tentativa de se furtar do ataque destes indesejados companheiros nasceram outras harmonias, ornamentos, dissonâncias e golpes de arco para muito além dos spicatti, détachés e col legno battuto descritos nos livros de orquestração. Logo a espessa cortina de aleluias, moscas, libélulas, pernilongos e outros seres alados se fez mais forte que qualquer dissimulação, e após um pavoroso arranjo de uma famosa Rapsódia húngara de Liszt a mãe-terra venceu, e o espetáculo foi interrompido, para a tristeza da audiência local, que não deixou de se deleitar com o que já se começar chamar de “O suplício San Palenque”.

Um jornalista alemão procurou também definir a situação: Schadenfreude, algo como o prazer que a desventura alheia pode proporcionar. Afinal, que nunca riu de um tombo ou escorregão na terceira pessoa do presente do indicativo (embora a chave da felicidade seja o riso em primeira pessoa)?

Mas batalha vencida não significa guerra terminada, e de pronto se providenciaram ventiladores e latas de inseticidas. Um a um os seres da mata foram tombando, e logo o palco foi tomado por um lúgubre carpete de insetos mortos e moribundos, sobre o qual os músicos marcharam triunfantes para finalizar seu intento, ainda que não a contento.

Com o cair do pano (ainda que metafórico), logo o vilarejo voltou a ser o que é, e desta forma, muito rápido a champeta voltou a reverberar pelas ruas. A noite já avançava. Cartegena ainda estava a algumas horas de viagem. E outras tantas ainda me separam do Brasil. ¡Hasta luego Colombia!

Menino caminha sobre a muralha do centro histórico de Cartagena de Indias

 

O jornalista Leonardo Martinelli viajou a Cartegena de Indias a convite da Proexport Colombia.

Clássicos Editorial Ltda. © 2014 - Todos os direitos reservados.
A reprodução de todo e qualquer conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para a respectiva página.

 

11/01/2014 – La Cenicienta, ou o triunfo da voz

Um dos grandes diferenciais desta edição do Festival Internacional de Música de Cartegena é a encenação de um título operístico, algo que ocorre pela primeira vez nestes oito anos de existência do evento. Trata-se de uma empreitada de relevância, pois além de agregar valor artístico, a chegada do “dia da ópera” é recebida tal como uma lufada de ar fresco em meio ao quente verão caribenho, renovando o interesse de seu público depois de dias de concertos e apresentações essencialmente musicais.

Esta importante missão ficou a cargo maestro italiano Rinaldo Alessandrini, responsável pela direção musical de La Cenerentola (ou A Cinderela), de Rossini (leia abaixo o interessante bate-papo que tivemos com ele alguns dias atrás).

Para esta primeira produção lírica o festival optou por uma versão “semi-cênica” (tal como indicado no programa), o que naturalmente enfatizou ainda mais a importância do elenco vocal, fator este que, no entanto, não dispensa uma elogiosa nota ao trabalho do diretor cênico Jacop Spirel, que organizou com competência a movimentação dos cantores em um cenário de simplicidade espartana.

Como um todo, o elenco da Cenicienta cartagena foi integrado por cantores familiarizados com o título e, principalmente, com características vocais bastante apropriadas aos seus respectivos papéis.

A cargo do papel-título, a mezzo soprano italiana Daniela Pini se revelou detentora de um colorido vocal privilegiado: seu registro grave é encorpado e seguro, e o agudo brilhante e ágil, o que garantiu uma interpretação bastante precisa das coloraturas e coesão melódicas nos momentos de maior lirismo, tal como na ária Nacqui all’affanno. Não bastasse seu talento técnico, Pini também tem ótima desenvoltura dramática, e soube realizar os contrastes de humor que a partitura requer.

Em cena, a mezzo soprano Daniela Pini e o tenor Javier Camarena

Ainda que a desenvoltura dramática não tenha sido o forte do tenor mexicano Javier Camarena (Príncipe Ramiro), não há nada que coloque em dúvida sua competência técnica e senso de musicalidade, tal como demonstrado na ária Si, ritrovarla io giuro. Com seu Don Magnifico o baixo-barítono italiano Luciano di Pasquale foi também parte importante deste elenco inspiradamente equilibrado, que contou ainda com os também italianos Roberto de Candia (Dandini) e Maurizio lo Piccolo (Alidoro) e as colombianas Grabiela Ruiz e Karolyn Rosero, impagáveis como irmãs e algozes de Cinderela.

Da esquerda para direita, Karolyn Rosero, Grabiela Ruiz, Luciano di Pasquale, Daniela Pini, Roberto de Candia, Javier Camarena e Maurizio lo Piccolo.

À frente dos músicos da Filarmônica Jovem da Colômbia, e do naipe masculino do Coro da Ópera da Colômbia, Alessandrini imprimiu um ritmo até que bastante ágil a esta Cenerentola.

Digo isso porque no bate-papo ele havia declarado, em tom de reclamação, que hoje em dia se interpreta Rossini demasiado acelerado, “duas vezes mais rápido do que em sua época”. No entanto, sua interpretação não foi duas vezes mais lenta do que se costuma ouvir por aí. Mas, sem dúvida, em vários momentos, Alessandrini adotou um pulso mais tranquilo e sereno, o que foi fundamental para o excelente trabalho vocal apresentado na estreia (incluso aí a boa participação do coral).

Em relação ao trabalho orquestral, tal como podemos ouvir no Brasil, a Filarmônica Jovem da Colômbia é mais uma prova de que não há porque estigmatizarmos as orquestras jovens na cena clássica profissional.

Ainda que aqui e acolá pequeníssimos deslizes revelem não uma falta de proficiência técnica, mas sim uma compreensível imaturidade na ação musical em conjunto, o trabalho destes jovens músicos foi bastante digno e competente, o que ficou claro na demonstração de satisfação de Alessandrini: ao final do espetáculo, o regente não se limitou a apontar para a orquestra no fosso desde o alto do palco, mas sim a levou para lá, e juntos, experientes cantores profissionais e promissores instrumentistas celebraram um feito artístico que, espera-se, frutifique de forma generosa e exuberante, tal como ocorre com os próprio frutos que o solo colombiano germina.

O jornalista Leonardo Martinelli viajou a Cartegena de Indias a convite da Proexport Colombia.

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09/01/2014 – “Charla de música”: um bate-papo com Rinaldo Alessandrini

O caminho da projeção internacional almejada pelo Festival Internacional de Música de Cartegena passa necessariamente pela participação de nomes consagrados da cena clássica mundial. Neste ano, integram este time músicos como as Irmãs Labèque, a Orpheus Chamber Orchestra, o Quarteto Borodin e Rinaldo Alessandrini. Brilhante cravista, Alessandrini é também o fundador e o diretor musical de um dos mais importantes grupos de música antiga, o Concerto Italiano. Recente o músico italiano esteve no Brasil, onde em novembro conduziu os corpos estáveis do Theatro Municipal de São Paulo em uma aclamada interpretação do Réquiem de Mozart. Aliás, como regente, Alessandrini tem se destacado na regência de óperas do famoso compositor austríaco. Entretanto, aqui na Colômbia, ele se dedicará à direção musical de La cenerentola (ou “A cinderela”), de Gioachino Rossini, que terá sua estreia amanhã no festival. Ontem o maestro recebeu a mim e ao jornalista argentino Diego Fischerman, do diário Página/12, para uma entrevista que logo se transformou num descontraído e informativo bate-papo, cujos principais momentos você confere logo abaixo:

Sobre a experiência de reger uma ópera de Rossini:

“A relação entre a música de Rossini com o que havia antes tem que ser clarificada, pois ele é um dos poucos músicos que inventou um estilo totalmente novo. Claro, Rossini não estava sozinho, ele trabalhava com outros compositores e todos falavam o mesmo idioma. Mas ainda assim fez algo muito próprio e característico, apesar de não existir ruptura neste processo. Se fizermos uma comparação, podemos dizer que Haydn foi um artesão, Mozart um gênio da elegância, e Rossini, um inventor, pois ele questionou a música de uma forma distinta, em especial a relação entre cantores e a orquestra.”

“Há muitos problemas para entender das partituras de Rossini, em especial, as indicações de tempo. Por exemplo, Rossini compreende a palavra italiana vivace como algo menos rápido que allegro, mais calmo e majestoso. Mas hoje em dia, em geral, se faz o oposto disto, e creio que se toca Rossini numa velocidade duas vezes mais rápida do que na sua época. Isto é uma pena, pois a coisa mais interessante de sua música é um brilho que se perde nesta velocidade. Em La cenerentola, por exemplo, há uma enorme quantidade de indicações de articulação, ornamentação e dinâmica que devem ser renunciadas caso se insista em tocá-las nesta velocidade demasiado rápida. Precisamos nos perguntar: por que Rossini perderia tanto tempo marcando uma série de coisas que não se pode nem cantar e nem tocar?”

Sobre a noção de “tradição” no universo lírico:

“O elenco para esta montagem aqui em Cartagena tem muita experiência neste título, e, sobretudo, muita experiência naquilo que na Itália chamamos de ‘tradição’, que em meu ponto de vista é uma palavra entendida de forma um tanto equivocada. Tradição quase sempre significa o que foi feito pelo diretor anterior, mas particularmente penso que ela deveria se referir ao momento ao qual a ópera foi estreada e aos cincos anos que se seguem a sua estreia, ou seja, até o momento em que o compositor tenha controle sobre sua música. Depois disso ela se deteriora.”

“Hoje em dia este sentido de tradição foi substituído pelas gravações, e há muitos cantores que baseiam seu trabalho apenas ouvindo discos, que deste ponto de vista são um desserviço para a prática musical.”

Sobre a interpretação do repertório histórico com orquestra e instrumentos modernos:

“Quando vou para trabalhar com uma orquestra que não conheço evito chegar como se fosse um ser de outro lugar, de Saturno. Claro, faço minhas considerações em relação às articulações, ao fraseado, etc., mas procuro não impor algo ou ignorar o que já há de bom nos grupos. Isto seria ridículo. O trabalho deve começar extraindo tudo o que há de bom na orquestra, e adicionando coisas a isto, e não desconstruindo o que já existe.”

“O que se chama de ‘historically informed performance’ é uma forma de regressar – no sentido mais positivo – às melhores condições de execução da época, e não às piores. Hoje, claro, temos provavelmente muito mais exigências do que na própria época dos compositores dos séculos XVII e XVIII, por exemplo, pois não havia excelentes orquestras em qualquer canto. Mas o princípio é imaginar a melhor dessas orquestras.”

Sobre o atual mercado da música antiga:

“Atualmente na Europa ocorre algo que não me agrada, pois o mercado se transformou por conta da chegada de um grupo de cantores. Alguns cantores e cantoras muito famosos transformaram este mercado, pois eles se apoderaram do repertório antigo numa hora em que a música antiga já tinha seu público, e que agora perdeu seu repertório. Hoje em dia a música antiga se reduziu à ópera e à música vocal do século XVIII: tudo o que é de Händel ou Vivaldi, e que tenha um cantor ou cantora famosos, funciona bem. Com isso se perdeu a oportunidade de tocar a música orquestral e de câmara do século XVIII, mas, sobretudo, se perdeu a oportunidade de tocar o enorme repertório do século XVII, que nos últimos seis anos desapareceu tanto dos selos fonográficos como dos festivais especializados. Em minha opinião, a música antiga passa por um momento de crise.”

O jornalista Leonardo Martinelli viajou a Cartegena de Indias a convite da Proexport Colombia.

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08/01/2014 – Rússia a 32ºC

Como é comum a todo evento deste tipo, o Festival Internacional de Música de Cartegena também tem seus períodos de maior ou menor atividade, bem como dias de altos e baixos. Ontem foi o primeiro dia mais calmo do evento (por assim dizer), pois “só” estava programado um concerto ao livre e outro, designado como “Noche Rusa” (ou Noite Russa), naquele que se desenha como seu principal palco, o Teatro Adolfo Mejía, com sua misteriosa índia cartagena que a tudo escuta e observa do alto da boca de cena (o que diria dela nosso Antonio Carlos Gomes, que praticamente na mesma posição, também a tudo escuta e observa no Municipal paulistano?).

Detalhe da decoração da boca de cena do Teatro Adolfo Mejía

Nesta provisória (e abafada) São Petersburgo que por um par de horas se instaurou nos trópicos, a estrela que normalmente acompanha os músicos da Orpheus Chamber Orchestra fez valer esta noite um tanto irregular.

Como abertura, o pianista armênio Sergei Babayan interpretou uma famosa transcrição para piano solo de trechos de Petrushka, de Stravinsky. Ainda que pese o fato desta partitura investir numa espécie de “ultra virtuosismo”, no entanto, ela não carece de diversos momentos de sutileza e elegância, predicados estes que Babayan simplesmente abriu mão em prol de uma interpretação bastante expansiva. Uma coisa não exime a outra, mas aparentemente isto não foi uma preocupação do pianista.

Na sequência, o concerto se desviou da temática das fábulas, mas não da música russa, e acertou em cheio ao programar a Serenata op. 48 de Tchaikovsky, terreno fértil e generoso para mais uma demonstração de virtuosismo e inspiração camerística, tão próprias dos músicos desta maravilhosa orquestra.

(Em tempo, ao caminhar pelas estreitas ruas de Cartegena encontrei por acaso um grupo deles a caminho do jantar, e não resisti a um momento de tietagem. Papo vem, papo vai, eles não vêem a hora de voltar a se apresentar no Brasil, coisa que não fazem desde a década de 1980: fica a dica pro pessoal de nossas sociedades de concertos).

Músicos da Orpheus Chamber Orchestra caminham numa rua de Cartagena

Vista de longe, a ideia de programar Pedro e o lobo, de Prokófiev, para encerrar esta salada russa até parecia simpática. Mas na prática não funcionou. Ainda que a atuação do ator Omar Porras como narrador tenha sido comedidamente divertida, e a Orpheus Chamber Orchestra habitualmente impecável, no conjunto da noite esta peça de apelo notadamente infantil quebrou a curva ascendente que começava a se projetar. Paciência...

Que fique então o consolo da linda interpretação da Serenata de Tchaikovsky, que fez valer o dia.

O jornalista Leonardo Martinelli viajou a Cartegena de Indias a convite da Proexport Colombia.

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07/01/2014 – Francofonias (e um milagre de câmara)

Tal como antecipado no primeiro dia deste diário, uma vez que este ano o Festival Internacional de Música de Cartegena adotou como tema Fábulas: la narración fantástica em la música del siglo XX seria inevitável que parte considerável do repertório que contempla esta proposta tenha como origem a música feita na Paris da primeira metade do século passado. Claro, isto inclui compositores de diversas nacionalidades, mas evidentemente que ela está maciçamente baseada em compositores franceses. Desta forma, seria inevitável uma sobrecarga francesa no festival, tal como a verdadeira “francofonia” que se ouviu ontem nos principais concertos de Cartegena.

Em seção dupla – primeiramente pela manhã, e depois de tarde – as incansáveis Irmãs Labèque ocuparam o palco da Capilla Santa Clara, hoje parte de um hotel de luxo, para um concerto com trechos de Fêtes, de Debussy, em arranjo realizado por Ravel, de quem se ouviu ainda a versão para piano a quatro mãos de Ma mère l'oye.

Como lugar para concertos o espaço lembra muito o cenário bolado pelo cineasta italiano Federico Fellini para ambientar seu célebre Ensaio de orquestra. Porém, acusticamente, ele não se mostrou a melhor das opções para este de repertório, apesar da discreta “amplificação corretiva” preparada para a ocasião. O problema foi amenizado na segunda parte do programa, quando se ouviu uma expansiva interpretação de O carnaval dos animais, de Saint-Saëns, para a qual uniram-se às pianistas outros músicos que irão participar do festival. O conjunto entrou de forma inspirada no clima de despojamento e diversão que a peça sugere, e quando músicos de grande talento se divertem em seu ofício, o resultado será sempre puro deleite.

Músicos no palco armado na Capilla Santa Clara

A francofonia continuou a ditar o tom quando a noite caiu em Cartegena. Isto ao menos no Teatro Adolfo Mejía, pois a alguns quilômetros os brasileiros do Quinteto Villa-Lobos acompanhavam o violonista Guinga em mais uma “noche brasileña” no Auditorio Getsemaní (enfim, com espetáculos simultâneos, as escolhas são inexoráveis, e desta vez deixei o senso patriótico de lado).

No referido teatro, o concerto também assumidamente francês se iniciou com o duo entre o violista Laurent Verney e o harpista Emmanuel Ceysson, que tocaram de forma tímida e titubeante a Elegia, de Fauré, a Pièce en forme de Habanera e uma adaptação um tanto burocrática da Pavane pour une infante défunte, de Ravel. Como se diz nos restaurantes daqui, foi apenas uma “mala entrada” para o delicioso “plato fuerte” que se seguiria, servido pelos músicos da Orpheus Chamber Orchestra.

Orpheus Chamber Orchestra durante a apresentação de Ma mère l'oye, de Ravel, no Teatro Adolfo Mejía

Estamos acostumados a ouvir este repertório com grandes orquestras sinfônicas e seus naipes de cordas inflados à moda de um batalhão se apresentando para a guerra. Por isso, foi surpreendente e gratificante dar-se conta de que há outras opções, e que a desses músicos é necessariamente a coesão e o equilíbrio camerístico.

Assim escrito pode parecer um disparate propor o famoso Prélude à l’après-midi d’un faune, de Debussy, com apenas quatro violinos no total. Mas, de repente, a música começa a soar, e tudo funciona incrivelmente bem, sem qualquer sensação de vazio ou falta de peso que se poderia presumir. Já para a versão orquestral de Ma mère l'oye (a terceira do dia...) as cordas precisaram ser encorpadas dado o aumento do próprio efetivo de sopros. Mas eis a questão central no trabalho da Orpheus Chamber Orchestra: faz-se apenas o necessário, e muito bem. Pode parecer pouco, mas na verdade trata-se de um verdadeiro milagre de câmara, após o qual resta apenas a contemplar o silêncio, e em seguida a ovação do público.

O jornalista Leonardo Martinelli viajou a Cartegena de Indias a convite da Proexport Colombia.

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06/01/2014 – Hermanos y hermanas

Foi, provavelmente, uma coincidência, mas no segundo dia de atividades do Festival Internacional de Música de Cartegena não houve como não saltar aos olhos (e aos ouvidos) o fato das principais atrações estarem a cargo de duos integrados por irmãos.

Na manhã de ontem as Irmãs Labèque voltaram ao Teatro Adolfo Mejía para um repeteco do concerto de abertura realizado no sábado. Não bastasse isso, de noite elas foram a grande sensação do concerto ao livre realizado na Plaza San Pedro Claver, quando acompanhadas pelos percussionistas Gonzalo Grau e Raphael Seguiner interpretaram uma suíte a partir de trechos de West Side Story, de Leonard Bernstein (na sequência a Orpheus Chamber Orchestra ocupou o palco para dois movimentos da Serenata op. 48 de Tchaikovsky).


Orpheus Chamber Orchestra toca no palco armado na Plaza San Pedro Claver, em frente à Igreja de San Pedro Claver

Porém, antes desta grande celebração coletiva, outro bonito ritual entre irmãos ocorreu a um par de quilômetros deste sítio histórico, desta vez no moderno Auditorio Getsemaní, que abrigou a apresentação do Duo Assad.

Integrado pelos violonistas brasileiros Sérgio e Odair Assad, o duo ocupa lugar privilegiado no panteão da música instrumental popular de nosso país. Tal como suas colegas francesas, ambos consolidaram suas respectivas carreiras pelo trabalho em família, através de décadas de trabalho e cumplicidade cada vez mais raros em tempos de grande dinâmica econômica no meio musical, onde parcerias e acordos se fazem, ou se desmancham, com a rapidez típica das relações comerciais.

Exceto por Bandoneón, do argentino Astor Piazzolla, e por algumas valsas do venezuelano Antonio Lauro, a apresentação de ontem o Duo Assad se enveredou pelos grandes sertões e veredas da música popular brasileira, que incluíram conhecidos temas de Ernesto Nazareth, Radamés Gnatalli, Egberto Gismonti, Garoto, João Pernambuco e Baden Powell. A faceta clássica ficou a cargo das transcrições do original para piano de A lenda do caboclo e Alma brasileira, de Heitor Villa-Lobos.

Os violonistas Sérgio e Odair Assad durante a apresentação no Auditorio Getsemaní

Os Assad são, em amplo sentido, clássicos, e desta forma acima de qualquer crítica e suspeita. Para além do virtuosismo, seus arranjos são inteligentes e sensíveis, realçando as propriedades eminentemente líricas da música popular brasileira em meio a uma engenhosa teia contrapontística, temperada aqui e acolá com passagens mais rítmicas e rasgueadas. Sempre de cor, a interpretação foi um misto de precisão e naturalidade, ainda que a qualidade mediana do sistema de amplificação do teatro não tenha possibilitado uma escuta mais límpida das matizes tímbricas que estes músicos são capazes de explorar.

Se for possível fazer alguma ressalva, ela diz respeito à homogeneidade que o conjunto apresentado resultou ao longo deste espetáculo de quase uma hora e meia de duração, sem intervalo. Se individualmente cada peça é em si uma pequena jóia, disposta em fila elas careceram de contrastes mais contundentes, pois como um todo elas jamais se desviam de uma retidão tranquila e brejeira, predicados estes que talvez definam a própria essência dos Irmãos Assad.

O jornalista Leonardo Martinelli viajou a Cartegena de Indias a convite da Proexport Colombia.

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05/01/2014 – El concierto inaugural (à la française)

Ao som da música de artistas do Novo e do Velho Mundo, ocorreu na noite de ontem o concerto de abertura do VIII Festival Internacional de Música de Cartegena, na Colômbia, com a apresentação das pianistas francesas Katia e Marielle Labèque e dos instrumentistas da Orpheus Chamber Orchestra, de Nova York.

Uma das mais conhecidas cidades do Mar do Caribe, no passado Cartegena de Indias (nome oficial da cidade) foi um importante escoadouro de ouro e pedras preciosas, que lhe valeram o perpetuo assedio de piratas e nações inimigas e que explica as muitas fortalezas e a extensa muralha que modernamente define seu centro histórico, hoje convertido em cenário para um grande afluxo de turistas.

Fundado em 2007, o festival, promovido pela prefeitura local, é programado para ocorrer anualmente na alta da temporada de verão, estratégia esta ainda muito rara na cena clássica brasileira, na qual esse tipo de evento tende a se concentrar no inverno. Se a nós a combinação entre o calor, o mar e a música clássica pode parecer exótica, aqui em Cartegena ela se prova bastante feliz, vivendo em perfeita harmonia com os estilos populares locais e as atividades típicas de qualquer cidade litorânea durante as férias de verão.

Desde o ano passado sob a direção do músico e produtor italiano Antonio Miscenà, para 2014 o evento tem como tema Fábulas: la narración fantástica en la música del siglo XX, e que por consequência acabará por enfatizar a obra de compositores que viveram ou passaram por Paris na primeira metade do século passado, tal como simbolicamente representado no concerto de abertura, que promoveu o feliz encontro entre o Duo Labèque e os músicos do conjunto norte-americano, no Teatro Adolfo Mejía.

Fachada do Teatro Adolfo Mejía

Não há dúvidas que as irmãs francesas constituem um dos mais aclamados duos pianísticos da atualidade, e na apresentação de Cartegena elas demonstraram o porquê. Com a Rapsódia espanhola de Maurice Ravel as musicistas proporcionaram uma interpretação não apenas segura e ritmicamente precisa desta difícil partitura. Como de hábito, elas foram além, estabelecendo um diálogo equilibrado e fluído que explorou com requinte o bonito jogo de timbres e contrastes tão comum na música de Ravel.

Estes mesmos predicados marcaram a interpretação do Concerto em ré menor para dois pianos, de Francis Poulenc. Acompanhadas pela Orpheus Chamber Orchestra, trata-se de uma obra de fácil escuta, mas de difícil interpretação, fator este que se acentua neste contexto, quando lembramos que a orquestra em questão é famosa por atuar sempre sem regente. Desta forma, o que se ouviu foi menos uma obra “concertante” e mais a pura música de câmara em altíssimo nível.

Katia e Marielle Labèque são acompanhadas pelos músicos da Orpheus Chamber Orchestra

O festival está apenas no começo, mas não temo em arriscar que a atuação da Orpheus Chamber Orchestra na Suíte Pulcinella, de Igor Stravinsky, possa ser um dos pontos altos do evento. Testemunhar ao vivo uma orquestra exercendo sua atividade sem maestro algum à frente, com seus músicos imbuídos “apenas” de muita atenção e um discreto jogo de olhares é algo emocionante, ou mesmo vibrante quando, por exemplo, se constata o impecável modo como esses músicos passam com desenvoltura pelas já esperadas armadilhas rítmicas de Stravinsky. E, insisto, tudo sem maestro!

Desta forma, o primeiro dia do Festival de Cartegena terminou tal como toda noite de verão caribenha deve terminar: quente e cheio de boas promessas para as noites futuras.

O jornalista Leonardo Martinelli viajou a Cartegena de Indias a convite da Proexport Colombia.

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Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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Perdas e danos (Santa Marcelina incorpora Theatro São Pedro) Por Nelson Rubens Kunze (9/5/2017)
Pesquisa do Projeto Guri mostra resultados importantes Por Camila Frésca (3/5/2017)
Diana Damrau, uma artista de mais de 50 tons Por Irineu Franco Perpetuo (2/5/2017)
E Cristian Budu, finalmente, tocou com a Osesp! Por Irineu Franco Perpetuo (21/4/2017)
Olivier Toni Por João Marcos Coelho (20/4/2017)
“Uirapuru”, de Villa-Lobos: algumas considerações no centenário da obra Por Camila Frésca (12/4/2017)
Nasce uma estrela Por Jorge Coli (11/4/2017)
A festa do Concurso Maria Callas: competência e amor à música Por Jorge Coli (4/4/2017)
Theatro Municipal do Rio de Janeiro apresenta “Jenufa”, de Janácek Por Nelson Rubens Kunze (4/4/2017)
 
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São Paulo:

26/8/2017 - Banda Sinfônica Jovem do Estado e Trio Corrente

Rio de Janeiro:
29/8/2017 - Igor Carvalho - clarinete, Rodrigo Herculano - oboé e Carlos Bertão - fagote

Outras Cidades:
26/8/2017 - Itapetininga, SP - Ensemble São Paulo
 




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