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Wojciech Kilar: entre as salas de concerto e as salas de cinema (21/1/2014)
Por Marco Aurélio Scarpinella Bueno

Criado em outubro de 1956, o Festival de Outono de Varsóvia foi um divisor de águas na música clássica polonesa do século XX por levar pela primeira vez ao leste europeu todos os ismos que formaram a vanguarda musical pós-Darmstadt. A liberdade artística expressa no Outono de Varsóvia revelou ao mundo nomes como Wiltold Lutoslawski, Henryk Górecki, Krzysztof Penderecki e Wojciech Kilar, cuja morte ocorreu em Katowice, no último 29 de dezembro.

Kilar nasceu na cidade ucraniana de Lviv (então território polonês) em 17 de julho de 1932. Graduou-se em composição (Katowice, 1955) e participou do curso de verão de Darmstadt (1957). Graças a uma bolsa de estudos do governo francês foi estudar em Paris com Nadia Boulanger (1959-1960). Neste período compôs a radical Riff 62 para orquestra (1962), um dos símbolos da rebeldia musical contra a tradição, muito bem acolhida em Varsóvia e que lançou seu nome no cenário mundial.

Com a chegada dos anos 1970, Kilar descobriu o minimalismo, e com ele a crença de que era possível escrever música quase hipnótica: “Nada é mais bonito do que um tom ou um acorde que dure para sempre. Isso representa a forma mais profunda de sabedoria”, chegou a afirmar após completar Para cima e para baixo (1971) para coro de sopranos e orquestra.


Compositor polonês Wojciech Kilar, que morreu em dezembro de 2013 [foto: divulgação]

O apreço pela música folclórica das montanhas da Polônia fez que Kilar compusesse obras que rapidamente agradaram ao público de concerto, mesmo que tenha perdido crédito perante seus pares enquanto representante da vanguarda polonesa. Em obras como Krzesany (Alpinismo, 1974), Kóscielec (1976), Geada branca (1979) ou Orawa (1986), Kilar buscou captar a “essência espiritual” das montanhas Tatra, uma região dos Cárpatos historicamente disputada entre Polônia e a antiga Tchecoeslováquia. Em Kóscielec 1909, por exemplo, homenageou o compositor romântico polonês Mieczyslaw Karlowicz, soterrado por uma avalanche no sopé do monte Kóscielec com apenas 32 anos de idade.

Estamos falando de obras que abandonaram por completo qualquer estética de vanguarda. Kilar opta pela simplificação da linguagem musical, dando ênfase à melodia e expansivas massas sonoras. A mesma técnica composicional foi empregada em diversas obras religiosas (muitas delas para coro e orquestra) e no cinema, meio para o qual Kilar contribuiu com mais de cem trilhas sonoras.

Dentre as obras sacras destacam-se Exodus (1981), usado no filme A lista de Schindler, de Steven Spielberg, e o famoso Requiem para o padre Kolbe (1994), originado do filme Uma vida por uma vida, de Krzysztof Zanussi, que conta a história do padre Maximilien Kolbe, morto em Auschwitz em 1941. Após ter trabalhado junto aos mais importantes diretores poloneses, entre eles Krzysztof Kieslowski e Andrzej Wajda, Kilar recebeu o convite de Francis Ford Coppola para que escrevesse a trilha sonora para a bem sucedida adaptação cinematográfica de Drácula, em 1991, e que lhe valeu o Prêmio ASCAP (Sociedade Americana de Compositores, Autores e Editores) no ano seguinte. A partir daí as portas do cinema internacional se abriram para o compositor, que escreveu para filmes de Jane Campion (Retratos de uma dama, 1996) e de Roman Polanski: A morte e a donzela (1994), O último portal (1999) e O pianista (2002).

A partir do final dos anos 1990, Kilar voltou à composição de obras “sérias”, deixando de lado o cinema e retornando ao “neoromantismo” um tanto datado, com seus acordes minimalistas que tanto irritam os críticos (e agradam ao público em geral). Destacam-se um Concerto para piano (1997), três sinfonias – Sinfonia setembro (2003), dedicada ao maestro Antoni Wit; Sinfonia do movimento (2005); e Sinfonia do advento (2007) –, além de música religiosa.

Wojciech Kilar faleceu aos 81 anos e ainda trabalhava ativamente. Como ele mesmo afirmou: “Seja lá o que for assumo o compromisso de fazê-lo como se estivesse entre a vida e a morte. Gostaria de ser lembrado como um ser humano de bem, alguém que trouxe alguma felicidade, esperança e reflexão para este mundo tão carente de fé e religiosidade. Se souber que apenas uma única pessoa foi tocada pela minha música, morrerei feliz”.

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Marco Aurélio Scarpinella Bueno - é médico e pesquisador musical.

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