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Mariinsky: onde os contemporâneos também têm vez (13/2/2014)
Por Irineu Franco Perpetuo

Em época de Olimpíadas de Inverno, todo mundo está sabendo da dinheirama (R$ 105 bilhões) que a Rússia torrou para organizar, em Sótchi, os jogos mais caros de todos os tempos. A ocasião poderia servir também para refletirmos sobre a força da cultura em um país cujo PIB, no fim das contas, é um pouco menor do que o do Brasil (US$ 2,015 trilhões contra US$ 2,253, em dados de 2012).

Nem vou falar aqui do acervo do Hermitage, da pujança da literatura, ou da vitalidade da cena teatral. Basta a cerimônia de abertura das Olimpíadas para revelar a imagem que a Rússia tem de si mesma – e que deseja projetar para o mundo. Estavam lá todos os ícones da cultura russa, do monumental romance Guerra e paz, de Tolstói, ao balé O quebra-nozes, de Tchaikovsky, com direito às vanguardas do século XX – como o suprematismo de Malévitch. O fio condutor foi a música, de Stravinsky (A sagração da primavera, simbolizando a Rússia primordial) a Stravinsky (o final do Pássaro de fogo no acender da chama olímpica), contemplando a poliestilística de Schnittke (Concerto grosso nº 1 – pois é, música contemporânea de verdade em uma festa esportiva). O hino olímpico foi cantado pela diva Anna Netrebko, enquanto, dentre as personalidades que carregaram a bandeira, destacava-se o maestro Valery Gergiev.

Coroando seu reinado de 25 anos à frente do Teatro Mariinsky, de São Petersburgo, Gergiev inaugurou, em maio do ano passado, uma nova casa, com tecnologia de ponta: o Mariinsky 2 (sobre o qual a Revista CONCERTO publicou, em agosto de 2013, longa reportagem da revista Gramophone).


Mariinsky 2, de São Petersburgo: coroando os 25 anos de direção de Gergiev [foto: divulgação]

Talvez mais do que pelo poder acumulado e pelo superlativo talento musical, Gergiev impressiona pela frenética rotina de trabalho que impõe a si mesmo e aos corpos do Mariinsky. De domingo a domingo, os três teatros que ele comanda realizam três performances distintas, entre balé, ópera e concertos (em dia de matinê, o número de apresentações pode chegar a cinco). Performances que conquistam não apenas pelo altíssimo nível artístico, como pela inteligência da programação.

Pois o Mariinsky se recusa a ser apenas um museu de obras-primas do passado, e se mantém conectado com a criação contemporânea. Para sua temporada inaugural, por exemplo, Gergiev fez questão de encomendar uma nova ópera: Levchá (O canhoto), de Rodion Shchedrin, estreada em junho do ano passado (veja trechos aqui).

Moscovita, de 81 anos, Shchedrin é especialmente conhecido por Carmen Suíte, balé inspirado na música de Bizet que ele escreveu para sua esposa, a mítica dançarina Maia Plissétskaia. Levchá está vazada no idioma característico do compositor, um neo-romantismo herdeiro da linguagem de Prokofiev e Shostakovich, sem pudor em combinar elementos “experimentais” e folclóricos. Aqui, para contar a parábola de Nikolai Leskov (1831-1895, autor de Lady Macbeth do distrito de Mtzensk) sobre o artesão inculto, porém talentoso, que despreza os luxos da Inglaterra para morrer abandonado e esquecido em sua terra natal, Shchedrin insere na orquestra instrumentos “étnicos”, como o duduk (flauta armênia), a domra (alaúde russo) e o bayan (acordeão russo).

A encomenda, em si, já é significativa, mas a coisa não para por aí. Na temporada atual do teatro, estão em cartaz ainda, de Shchedrin, além de Levchá, os balés Carmen Suite, Anna Karênina (baseado em Tolstói) e O cavalinho corcunda, bem como as óperas O viajante encantado, também inspirada em Leskov, e Almas Mortas, baseada em Gógol; nessa última, havia adolescentes de mochila enfrentando um frio de -20 graus para ver a récita à qual compareci (e Levchá eu assisti ao lado de uma menina de 12 anos, que estava acompanhada da mãe e não desgrudou os olhos do palco durante duas horas de ópera, se divertindo bastante com os episódios cômicos da ação).

Como se não bastasse, Gergiev resolveu também dar o nome de Shchedrin à sala de música de câmara do Mariinsky 2. Sim, ele homenageou um compositor “erudito”. E vivo. Dá para imaginar honraria semelhante em um Brasil que teima em fingir que seus únicos compositores contemporâneos são os cancionistas da MPB?

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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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