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Minas Gerais faz história (27/2/2014)
Por Nelson Rubens Kunze

Não é de hoje que Minas Gerais chama a atenção por um dos mais consistentes projetos orquestrais brasileiros dos últimos anos. Esqueça modelos estatais antiquados, fundações públicas emperradas, organizações sociais de fachada, legislações que de tão detalhadas e “bem-intencionadas” já ficam ultrapassadas no dia seguinte de sua aprovação, e outras mazelas de nossa gestão cultural pública (tenho certeza de que você, na cidade em que estiver deste nosso grande Brasil, sabe do que estou falando). Não! Os nossos irmãos mineiros, com o tradicional bom senso que os caracteriza, escolheram o caminho mais curto, econômico e eficiente.

Em 2007, Minas Gerais criou, a partir de uma moderna estrutura de gestão – uma Oscip, entidade privada sem fins lucrativos, que, obedecendo a um contrato de gestão, presta serviço ao estado –, a Filarmônica de Minas Gerais, que, dirigida pelo maestro Fábio Mechetti, logo entrou para a lista das “top five” da música clássica nacional.

E veja agora o que se passa na bonita Belo Horizonte: até o fim deste ano, o governo Antônio Anastasia promete entregar, pronta e equipada, a Sala Minas Gerais, belíssima e moderna sala de concertos para 1400 espectadores, sede própria da Filarmônica de Minas Gerais. Ela, como a orquestra, também será gerida pelo Instituto Cultural Filarmônica, e fará parte da Estação da Cultura Presidente Itamar Franco, um complexo cultural que abrigará ainda a Rede Minas de Televisão e a Rádio Inconfidência (emissoras públicas daquele estado). Ou seja, os mineiros estão fazendo história!


Maquete da Estação da Cultura Presidente Itamar Franco [Foto: Revista CONCERTO]

Ressabiado com tanta notícia boa, resolvi tomar o avião e investigar as informações in loco. E não é que é verdade? A obra da nova Sala Minas Gerais está a pleno vapor com entrega prevista para o próximo dia 31 de outubro (o prédio anexo da Rede Minas tem prazo um pouco maior, 31 de dezembro). Com isso, conforme Diomar Silveira, presidente do Instituto Filarmônica, haverá tempo para a mudança da orquestra e para a “afinação” da sala, possibilitando já a temporada de 2015 no novo endereço.

Durante a visita às obras, guiada pela arquiteta Jô Vasconcellos – que, ao lado de Rafael Yanni, é autora do projeto –, pudemos caminhar por diversas lajes já finalizadas, visualizar palco e plateias e a concretagem dos pilares que sustentarão a cobertura. O complexo todo tem um investimento de R$ 140 milhões do governo do Estado de Minas Gerais, e está sendo erguido sobre uma área de 14 mil m², no Barro Preto, centro de Belo Horizonte. Pela ambição do projeto arquitetônico e acústico – este sob responsabilidade de José Nepomuceno – não tenho dúvidas de que a Sala Minas Gerais entrará na disputa de melhor teatro sinfônico do país.


Obras da Sala Minas Gerais, em 25 de fevereiro de 2014 [Foto: Revista CONCERTO]

Para arrematar a visita a Belo Horizonte, ainda aproveitei para assistir ao concerto inaugural da temporada 2014 da Filarmônica de Minas Gerais, levado a cabo no Palácio das Artes. Com o teatro lotado – a Filarmônica vendeu mais de 2.200 assinaturas das 2.900 disponíveis em suas duas séries de concertos! –, o regente associado Marcos Arakaki conduziu a orquestra na obra Museu da Inconfidência, de Guerra-Peixe, no Concerto para piano nº 24 de Mozart (tendo como solista a virtuose coreana Joyce Yang), e na Quinta Sinfonia de Tchaikovsky.

Programa criterioso, maestro competente (o talentoso Arakaki é dono de um estilo sóbrio e preciso, foi sensível no acompanhamento da solista e fez uma bela e orgânica leitura da sinfonia russa) e solista de primeira categoria (a jovem Joyce Yang é detentora da Medalha de Prata do Concurso Van Cliburn 2005): como disse, brincando, o spalla da filarmônica ao me ver nas coxias do Palácio das Artes: “Deve ser difícil para os paulistas aceitarem que a melhor orquestra do Brasil toca em Belo Horizonte!”.

Viva a Filarmônica de Minas Gerais!

[Nelson Rubens Kunze hospedou-se em Belo Horizonte a convite do Instituto Cultural Filarmônica]

[Leia aqui a notícia do lançamento do projeto da Sala Minas Gerais, feito em 2011]

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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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