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O "Trovatore" do Theatro Municipal de São Paulo (17/3/2014)
Por Jorge Coli

Parecia que os velhos tempos tinham voltado, tempos das grandes vozes, das vozes miraculosas guardadas nos discos. Foi quinta-feira passada, 13 de março, em Il trovatore, de Verdi, no Theatro Municipal de São Paulo. O quarteto principal faria inveja a qualquer grande cena do mundo: Stuart Neill, no papel de Manrico, Alberto Gazale como o Conte di Luna, Susanna Branchini nas vestes de Leonora, e Marianne Cornetti no terrível papel de Azucena. Todas verdadeiras vozes verdianas, do mais alto nível, todos inteiramente tomados pela intensidade dramática e musical.

Stuart Neill foi alçado à glória quando, na última hora, o Teatro Alla Scala de Milão, o chamou para substituir o protagonista de Don Carlo no espetáculo de abertura da temporada de 2008. Essa abertura é, todos os anos, o acontecimento operístico mais importante do mundo: ocorre sempre no dia 7 de dezembro, festa de Sant’Ambrogio, padroeiro de Milão, e o teatro lota de industriais, milionários de todos os tipos e todos os países, chefes de estado e críticos implacáveis.

Neill se revelou então como uma das belas vozes do nosso tempo, com um timbre particularmente sedutor.  Em Manrico, no Municipal, foi capaz de maravilhosas nuanças, e pouco importou se o agudo final de Di quella pira não foi o mais pleno possível. Sua musicalidade infalível era sentida com emoção, e seu físico pouco adequado desvanecia-se diante de sua alma sonora: ele era Manrico, doloroso e comovente.

Alberto Gazale é um barítono de sólida carreira, com voz escura de grande poder dramático. Ao contrário de tantos Conti di Luna truculentos, uniformes e banais, transmitiu todas as angústias do mundo, e sua crueldade surgia não como o gesto mecânico do vilão, mas como necessidade inevitável: ele era, involuntariamente, carrasco e vítima.


Cena de Il trovatore apresentado no Municipal de São Paulo [foto: Desirée Furoni/divulgação]

Se os cantores nos levavam à estratosfera, as mulheres abriram as portas do paraíso. A grande mezzo-soprano americana Marianne Cornetti parece ter nascido para ser Azucena no palco: voz magnífica, interpretação furiosamente expressionista, embriagada em seu delírio.

A soprano Susanna Branchini é jovem, começou sua carreira em 2002. Suas qualidades vocais (e físicas, pois tem uma grande beleza exótica, filha de pai italiano e mãe caribenha) fazem dela uma Leonora ideal. Fraseado admirável, cores voluptuosas, sentido dramático impressionante, possui tudo para se alçar a uma grande carreira.

Toscanini disse que é muito fácil montar o Trovatore: basta contratar os quatro melhores cantores do mundo. Naquela representação, não se estava muito longe disso.

Nessa ópera, há também um papel muito ingrato, o de Ferrando, baixo, confidente do Conde: em todos os atos, é apenas um comparsa bem secundário, com poucas frases. Mas Verdi consagrou um prólogo a ele: assim, bem no início, deve enfrentar uma cena com ária difícil, cheia de vocalizes. No Municipal, o papel foi conferido a um cantor de estatura internacional, Enrico Giuseppe Iori, que venceu, galhardo, todas as dificuldades e pôs em belo relevo seu personagem.

Há ainda Ines, a aia de Leonora. Como ela dá não mais que três ou quatro réplicas à protagonista, de costume se contrata uma cantora medíocre, de voz caquética. Ora, ao contrário, essas poucas frases denunciaram, no Municipal, uma intérprete de grandes dotes. Era a brasileira Ana Lucia Benedetti: pela amostra, parecia capaz de assumir o papel de Azucena!

Orquestra excelente, soando com inteligência sob a batuta de John Neschling, coros formidáveis.

Os cenários discretos se reduziam a dois dispositivos simples, mas eficazes, que adquiriram particular beleza na cena da torre. Direção de atores discreta, felizmente sem ideias (salvo no final, que resultou confuso), deixando a história correr sem dificuldades: escapamos de um Trovatore situado em algum leprosário da Transilvânia ou em Chernobil.

Se a qualidade dos espetáculos continuar assim, em 2014 o Municipal de São Paulo entrará para a lista dos grandes teatros de ópera.

Um ponto: o programa não dá informações sobre a montagem: foi feita para São Paulo? Foi coprodução? Vem de fora? Não basta a biografia dos responsáveis.

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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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