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Osesp: 2014 começando bem (18/3/2014)
Por Irineu Franco Perpetuo

Quem acompanha futebol sabe que, quando um time não anda bem fora das quatro linhas, a melhor resposta deve ser dada em campo. Nesse sentido, foi bastante auspicioso o concerto de abertura da temporada 2014 da Osesp, na Sala São Paulo.

Assim como seria exagero dizer que a orquestra anda em crise, quem olha de perto naquela direção precisa de enorme dose de otimismo para não ver as nuvens negras que pairam sobre a Sala São Paulo.

Textos recentes publicados por João Luiz Sampaio no jornal O Estado de S. Paulo mostram que a pujança orçamentária convive com queda no número de assinantes nos cinco anos após a demissão de John Neschling, em meio a um quadro de insatisfação generalizada dos instrumentistas.

Sampaio sintetiza aquilo que podemos ouvir conversando com qualquer integrante da orquestra: “A perda de músicos é sinal de um contexto de trabalho extenuante; há um medo de que a orquestra perca ‘seu brilho’ por conta do excesso de concertos e a consequente falta de tempo para ensaios – agravada pela necessidade, de alguns artistas, de buscar trabalhos extras para complementar salários tido como defasados; a dificuldade na relação com a direção da orquestra – no ano passado, por exemplo, foi recusado o pedido por ensaios extras durante a turnê europeia feito pelos músicos, que não se sentiam confiantes para subir ao palco”.

Essa última informação do texto de O Estado de S. Paulo – músico querendo trabalhar, chefia não disposta a permitir – pode contrariar as ideias do senso comum sobre vida orquestral, mas só reforçam a analogia com o mundo da bola, onde o talento e a abnegação dos jogadores normalmente têm que driblar as limitações da “cartolagem”.

Talento e abnegação foi o que se viu em uma Sala São Paulo decorada como se fosse abrigar a mais kitsch das cerimônias de casamento. Felizmente libertado das infelizes paráfrases do Hino Nacional e dos maneirismos “crossovers” que ameaçam desviar a orquestra de sua verdadeira vocação, o programa de abertura, sob a regência de Marin Alsop, começou com a Missa Brevis, para coro e três percussionistas, de Leonard Bernstein, na qual brilhou o contratenor e dentista curitibano Paulo Mestre, de afinação precisa, timbre sedutor e fraseado elegante (moradores de Ribeirão Preto poderão conferir seu superlativo talento vocal no final do mês).


Marin Alsop comanda Osesp, com Garrick Ohlsson ao piano [foto: Rodrigo Rosenthal/divulgação]

Em seguida, Alsop convidou o pianista norte-americano Garrick Ohlsson para fazer o “esquenta” de uma parceria que vão repetir em Baltimore, em fevereiro do ano que vem, com a outra orquestra comandada pela maestrina, no Concerto nº 2 de Rachmaninov. Ao que tudo indica, o renomado Ohlsson (que tocou o Terceiro concerto de Rachmaninov com Alsop em Baltimore em 2012) foi aprovado no “test drive”, granjeando apaixonadas ovações graças a domínio técnico, sonoridade generosa e um peculiar apreço pelo “tenuto”.

Na segunda parte, com Alsop regendo de cor, a Osesp fez uma apresentação à altura do rótulo de melhor orquestra do Brasil, com uma sonoridade homogênea e equilibrada, entregando de modo apropriadamente grandiloquente a Sinfonia nº 3 de Saint-Saëns.

Feitas as contas, deu vontade de voltar para a Sala São Paulo para acompanhar o resto da temporada da orquestra. Se a “cartolagem” deixar os músicos trabalharem como gostam, querem e merecem, eles vão dar muita alegria à “torcida” nesse ano de Copa.

Clássicos Editorial Ltda. © 2014 - Todos os direitos reservados.
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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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