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Heller-Lopes dirige “Eugene Onegin” em Salzburg (31/3/2014)
Por Klaus Billand

Após a sua exitosa e pouco convencional Tosca de 2010 no Landestheater de Salzburg (leia a crítica da montagem aqui), André Heller-Lopes volta a chamar a atenção em uma nova montagem da ópera Eugene Onegin, no mesmo palco. O seu entendimento bem como a transposição cênica e dramatúrgica do Eugene Onegin em Salzburg deixou claro por que Tchaikovsky chamou sua obra prima de “cenas líricas em três atos” e não de “ópera”. Logo de início, fortes cores em contraponto com a vivacidade dançante folclórica caracterizam a arte popular da pátria do avô do diretor. Para Heller-Lopes, o destino do protagonista está no centro da montagem, exatamente como o queria o próprio Tchaikovsky. A ele interessava a vida interior de seus anti-heróis, seus sentimentos, dores e saudades, mesmo em um contexto predominantemente biográfico.


Eugene Onegin do Landestheater Salzburg [fotos: divulgação/LT Salzburg/Christina Canaval]

Assim, Heller-Lopes contrapõe o idílio ingênuo e alegre da vida rural despreocupada de Njanja de Pushkin – e coreografada exemplarmente por Alexander Korobko – em cores primaveris e figurinos coloridos (Nicole von Graevenitz) à profunda tristeza da cena do duelo, levada em tons cinza claros, e à grotesca alta sociedade em torno do Príncipe Gremin, engessada em movimentos ritualizados, esta, por sua vez, em uma rigorosa estética preto e branca.

Para o diretor, em Eugene Onegin a alegria e a tristeza, a paixão e a perplexidade, as cores da juventude e a desolação da vida social desalmada são colocadas lado a lado, com a mesma importância. Assim, nesta produção todas as “cenas líricas” desenvolvem intensamente suas próprias potencialidades, com uma vida interior perfeitamente compreensível. Bizarrice e um certo surrealismo já sempre foram marcas características das criações de Heller-Lopes e são também aqui empregados, de forma consciente e pertinente, nos cenários de Karl-Heinz Steck.


Cena do Eugene Onegin dirigido por André Heller-Lopes, no Landestheater de Salzburg

Com uma ótima direção de atores, Heller-Lopes logra impressionantes e convincentes estudos de caráter, que alcançam também os papeis secundários, como por exemplo o Triquet de Franz Supper. A muito jovem e linda russa Zhala Ismailova canta e interpreta uma no início ingênua e espontaneamente apaixonada Tatjana, que no fim – amadurecida dama, mas jovem em seu âmago – compreende toda a tragédia da situação, conduzindo enfaticamente a trama. Sua voz cristalina de soprano, fresca e de alturas seguras, não poderia ser mais adequada para este papel. Em perfeita complementaridade vocal e teatral, a jovem mezzo soprano norte-americana Emily Righter, de voz sonora e maleável, faz uma Olga obsessivamente animada e algo imprudente. O bom elenco feminino é completado homogeneamente pela Larina do sonoro timbre de Frances Pappas e pela igualmente bela voz de Anna Maria Dur como Filipjewna.


Cena do Eugene Onegin dirigido por André Heller-Lopes, no Landestheater de Salzburg

O também jovem Simon Schnorr é um Onegin extremamente autêntico, que não apenas sabe construir todas as alturas e profundidades deste complexo papel, como também convence como um barítono claro, conciso e de pronúncia articulada. Visualmente é perfeito para o papel. O russo Sergey Romanovsky apresenta o Lensky do início como um perdedor triste, depressivo. Sua voz de tenor tem até uma certa faceta heroica e facilidade na tessitura aguda; não tem, contudo, a desejável calidez sonora e nem muita ressonância.

O bielorusso Alexey Birkus, transformado em velho de modo pouco crível, interpreta Gremin com voz de baixo sonora e bem articulada, bem como com expressão soberana. Já o coro e o coro extra do Landestheater Salzburg, preparados por Stefan Müller, impressionam pelo fraseado preciso e som transparente em coreografias de muita movimentação.


Cena do Eugene Onegin dirigido por André Heller-Lopes, no Landestheater de Salzburg

O maestro Leo Hussain e a Orquestra Mozarteum Salzburg fizeram soar um Tchaikovsky intenso, impulsivo e em perfeita sintonia com as fortes emoções do palco. A noite esteve impregnada de dinâmica musical, algumas vezes a orquestra pareceu um pouco alta demais, ao menos para quem estava sentado na plateia. Afinal de contas, a excelente Orquestra Mozarteum já deu provas de sua qualidade em teatros com dimensões muito maiores.

[Klaus Billand assistiu à récita do dia 5 de março. Reprodução autorizada pelo autor do texto originalmente publicado no site Online Merker, Áustria.]

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A reprodução de todo e qualquer conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para a respectiva página.





Klaus Billand - é jornalista da revista de ópera austríaca Der Neue Merker, de Viena. (www.klaus-billand.com)

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